É difícil imaginar título mais infeliz do que o da versão brasileira do filme escrito e dirigido por Richard Linklater – . Ao original, mantido em inglês, foi acrescentada a coda em português tão óbvia quanto banal. A empresa distribuidora Universal Pictures não poderia ter feito desserviço maior a um filme que ainda por cima desperdiça a boa ideia inicial a partir da qual foi realizado.
Não há dúvida de que filmar durante 12 anos, acompanhando o crescimento de um menino, é uma proposta atraente, além de pouco usual. O que faltou a Linklater foi conseguir fazer um personagem do jovem Mason (Ellar Coltrane), figura apática a quem nada parece afetar. Quem domina a cena é Olivia (Patricia Arquette), mãe dele, deixando inclusive Mason pai (Ethan Hawke) em segundo plano.
À medida que o filme progride, o interesse da proposta original se esvai e acaba sem cumprir seu potencial. Para agravar o equívoco, Linklater não contém sua conhecida vocação para longos diálogos pseudo reflexivos (vide a trilogia Antes da…) que ocupam grande parte do terço final dos 165 minutos de duração de . Cineastas americanos em crise de identidade, quando adotam uma das mais incômodas características do cinema francês – diálogos transbordantes – costumam causar os piores desastres.
Nos Estados Unidos, a imprensa menciona o filme de Richard Linklater como possível candidato a ser premiado pela Academia no final de fevereiro. Grande sucesso de crítica, chegou a ser chamado de “delicado e profundo”, e também de “um dos mais extraordinários filmes de 2014 ou, aliás, do século 21 até o momento”. Tamanhos encômios são difíceis de entender, a não ser que se refirem apenas à curiosa ideia que originou o filme, e não ao que resultou projetado na tela.
Linklater e Ethan Hawke demonstraram ter noção precisa dos riscos envolvidos no projeto. Quando lhes perguntavam “o que acontece” no filme, Linklater respondia: “Pouca coisa.” E Ethan Hawke chegou a dizer que, neste filme, “o evento é o não evento” – bons propósitos, em tese, mas que resultam além do alcance de ambos.
Em última análise, porém, a equação comercial é a decisiva. E nesse quesito Boyhood arrasa. Produzido por apenas 4 milhões de dólares, já rendeu 43 milhões nos Estados Unidos e no restante do mercado mundial de salas de cinema, desde seu lançamento no início de julho. A Academia costuma ser sensível e sucessos nessa escala, ainda mais quando dotados de certo verniz intelectual. Oscars parecem mesmo estar no horizonte.