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2020 – Deletar ou nunca esquecer?

Esquecimento apaga a avaliação de erros e responsabilidades; urgente é construir memorial em homenagem às vítimas

Eduardo Escorel
27jan2021_09h25

Um dos inúmeros balanços feitos classificou o ano de 2020 como “o pior da história”. Outro sugeriu esquecê-lo. Ambos se referiam à perda de receita da indústria cinematográfica global, calculada em 32 bilhões de dólares, aludindo também à pandemia de Covid-19 que até o momento causou a morte de mais de 2,1 milhões de pessoas e abalou a economia mundial.

A tragédia humanitária e o prejuízo financeiro foram, é evidente, enormes. Causaram dor profunda e afetaram o comércio, sem dúvida. Mas, em vez de esquecer 2020, seria imprescindível, pelo contrário, fixar para sempre na mente o que aconteceu desde quando as primeiras informações sobre o novo coronavírus começaram a circular, no final de 2019, até este início de 2021 e depois.

Obliterar calamidade dessa dimensão teria consequências graves. A começar pela dificuldade maior para conseguir atribuir a devida responsabilidade aos governantes, que vêm se mostrando incapazes, irresponsáveis e ineptos diante da pandemia. Seria, ademais, uma injustiça com todos que faleceram, inclusive tantos cujas mortes poderiam ter sido evitadas se as medidas necessárias, recomendadas pela medicina, tivessem sido tomadas a tempo. Apagar 2020 prejudicaria a avaliação dos graves erros que foram e continuam a ser cometidos, levando os óbitos, no Brasil, a ultrapassar 217 mil e a média móvel de falecimentos a superar mil ocorrências. Outra sequela da perda da memória dos fatos seria condenar as milhares de vítimas da pandemia à invisibilidade completa e definitiva. Aqui e ali, a mídia nomeia uma ou outra e recupera suas histórias de vida. A totalidade, porém, se tornou um algarismo, sem identidade, que aumenta a cada dia.

Providência urgente, de valor simbólico, a tomar contra o esquecimento é construir um memorial em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, a ser inaugurado ainda este ano, e inscrever no monumento o nome e a efígie de todos os falecidos, vítimas da Covid-19.

Ao assinalar o bilionário prejuízo da atividade cinematográfica em 2020, decorrente de as salas terem sido fechadas e muitas estreias adiadas, alguns balanços de fim de ano feitos no Brasil se concentram apenas nas perdas dos exibidores. Deixam na sombra, quando não omitem de todo, a paralisia quase total do setor produtivo, resultante em grande parte da deliberada inação da Agência Nacional do Cinema (Ancine) ao sustar recursos para produzir através de novos editais. Os arautos do esquecimento tampouco se ocupam, em geral, com as dificuldades da mão de obra técnica e artística, assim como das empresas prestadoras de serviços do setor.

Em entrevista a Ana Paula Sousa e Fabiano Ristow, Paulo Sérgio Almeida assinala com razão o que experiência passada comprovou: “…os países precisam ter a sua independência em relação aos blockbusters de Hollywood. E o Brasil é totalmente dependente deles. Ficou claro [com a pandemia] que, se não tivermos produção local, não temos como nos defender… Mas, no Brasil, voltamos a ter, nos últimos anos, complexos [de várias salas em shoppings] exibindo um único filme – basta lembrar o caso de Vingadores. O blockbuster é muito importante para o negócio do cinema, mas ele não pode ser o único e não pode destruir o produto local. Aqui, no entanto, perdemos nos anos recentes os mecanismos de produção e as medidas de regulação do mercado” (“Um ano para esquecer“, portal Filme B, 29/12/2020). Agência reguladora e de fomento, cabe em grande parte à postura burocrática e omissa da Ancine a responsabilidade pela situação atual de extrema debilidade em que o setor cinematográfico se encontra entre nós.

Ao reconhecer que “a indústria de cinema americana está em um estado de crise perpétua”, Manohla Dargis, crítica do The New York Times (30/12/2020), indica o traço comum existente entre as diversas cinematografias nacionais, inclusive a brasileira. O fator decisivo que as diferencia, no entanto, é o acesso ao mercado mundial, no caso da produção americana, enquanto filmes produzidos no Brasil continuam a ocupar posição subalterna em seu próprio mercado interno.

A.O. Scott, também crítico do The New York Times, reconhece, na mesma matéria citada, não haver “melhor maneira de ganhar 1 bilhão de dólares – ou de recuperar um investimento de várias centenas de milhões – do que lançar um blockbuster global nos cinemas. E a Disney e a Warners provavelmente continuarão nesse negócio, junto com quaisquer outros estúdios ainda existentes quando os cinemas voltarem a lotar”. Scott faz a ressalva, porém, que se aplica, em certa medida, a países periféricos, como o Brasil: “… e os filmes de pequeno e médio porte que dependem das salas de cinema para encontrar seu público? Eles seguem um caminho que começa em festivais como Sundance, Cannes e Toronto, onde o entusiasmo da crítica pode despertar interesse desde cedo. Em seguida, eles são lançados em algumas cidades, gerando boca a boca por meio de comentários e cobertura da mídia e, eventualmente – se tudo der certo – alcançando um público mais amplo e talvez ganhando alguns prêmios. Parasita (2019) seguiu esse modelo, assim como Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), e eu não sei se esses filmes teriam o mesmo impacto ou sucesso se tivessem dependido de um lançamento digital.”

Sabendo que Parasita rendeu 258,8 milhões de dólares, dos quais 205,4 milhões provenientes do mercado externo, tendo sido produzido com orçamento de 11,4 milhões; e que Moonlight: Sob a Luz do Luar, produzido por 4 milhões de dólares, rendeu 65,3 milhões, sendo 57% no mercado externo, fica evidente a diferença de escala e o impasse de um cinema como o brasileiro que carece de penetração no exterior.

Cena do filme ‘Parasita’ – Foto: divulgação

 

Torna-se surpreendente nesse contexto, diante da asfixia a que a produção de filmes no Brasil vem sendo submetida desde o início de 2019, restarem ainda mais de cem títulos inéditos para exibir na 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes, iniciada sexta-feira passada (22/1), e prosseguindo online até o próximo dia 30. Ao que tudo indica, esse conjunto de filmes é formado na maioria por projetos concebidos e gravados com recursos obtidos antes de 2019. É previsível, portanto, que essa leva acabe se esgotando, e haja um hiato antes que um novo ciclo possa se iniciar e seus filmes comecem a aparecer.

Em 2020, os festivais nos permitiram assistir em plataformas de streaming a filmes como A Febre, Sertânia, A Morte Branca do Feiticeiro Negro, Segredos do Putumayo, O que Há em Ti, entre outras demonstrações inequívocas de talento e vitalidade do cinema brasileiro. Veremos o que nos espera este ano.

*

A 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes, online e gratuita, além de #eagoraoque (2020), de Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald, inclui na programação mais de cem filmes, disponíveis até sábado, 30/1. Em uma incursão rápida, assisti no fim de semana a dois curtas-metragens que deixarei de nomear aqui. Ambos me pareceram sofrer de excesso de criatividade e carência de substância.

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Na próxima terça-feira, 2 de fevereiro, às 11 horas, Piero Sbragia e este colunista conversam, no canal 3 em Cena, com Michele Kaiowá (cineasta), Graciela Guarani (cineasta e produtora cultural), Patrícia Ferreira Pará Yxapy (professora e cineasta) e Sophia Pinheiro (artista visual, professora e pesquisadora) sobre o projeto Nhemongueta Kunhã Mbaraete (Conversas entre Mulheres Guerreiras) –  obra-processo realizada ao longo de dois meses, com dezesseis videocartas, a partir de inquietações e insurgências no ápice da pandemia de Covid-19. O acesso à conversa de terça-feira, 2 de fevereiro, pode ser feito através do link https://youtu.be/iXDS3RBskGU



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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