questões da desinformação

Redes bolsonaristas mentem mais sobre eleição

Boatos sobre fraudes na votação e nas urnas eletrônicas se espalharam em novembro, estimulados por apoiadores do presidente e pelo próprio Bolsonaro

Plínio Lopes
29nov2020_18h44
Ilustração: Projeto Comprova

Ao votar neste domingo, o presidente Jair Bolsonaro voltou a questionar a segurança do voto eletrônico, mesmo sem apresentar provas de supostas fraudes. O presidente repetiu sem provas o argumento que, durante todo o mês de novembro, alimentou boatos sobre as eleições e urnas, dominaram as redes sociais, principalmente as bolsonaristas. O Comprova – coalizão que reúne 28 veículos de comunicação (incluindo a piauí) para verificação de boatos – conferiu este mês 19 informações falsas ou enganosas a respeito do tema. Juntas, elas tiveram 100 mil interações e alcançaram cerca de 750 mil visualizações.

No começo de novembro, alguns sistemas eletrônicos do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) sofreram ataques de hackers. Na semana anterior ao pleito, que foi realizado em 15 de novembro, algumas publicações comparavam a segurança das urnas eletrônicas com os sistemas do STJ. O Comprova mostrou que essas comparações eram enganosas. As urnas eletrônicas são máquinas isoladas e não tem nenhuma conexão com a internet, diferentemente dos sistemas do STJ. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as urnas eletrônicas sequer possuem o hardware necessário para fazer uma conexão a uma rede com ou sem fio — o que inviabiliza um ataque virtual externo.

Outras duas publicações foram verificadas pelo Comprova na semana que antecedeu o primeiro turno. Uma delas afirmava que as urnas eletrônicas brasileiras teriam sido fornecidas pela Smartmatic, uma empresa que já forneceu urnas para a Venezuela. Essa informação é falsa. Ela foi compartilhada pelo blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, dono do site Terça Livre e alvo de investigações no chamado inquérito das fake news, e obteve mais de 100 mil visualizações e mais de 5 mil compartilhamentos. A publicação foi uma das que mais viralizou no período eleitoral.

A empresa chegou a atuar nas eleições de 2012, 2014 e 2016 com serviços de conexão de dados e voz em estados isolados no país, mas o Brasil nunca comprou os equipamentos de votação da Smartmatic. A empresa esteve envolvida nas eleições venezuelanas entre 2004 e 2017, mas abandonou o contrato após ela própria denunciar a suspeita de fraude na divulgação oficial dos resultados por parte da Comissão Eleitoral da Venezuela nas eleições de 2017. Dias após a publicação da verificação, o site Terça Livre publicou um texto reiterando, sem provas, sua afirmação. As informação estavam descontextualizadas ou equivocadas, como mostrou a verificação do Comprova.



A outra publicação afirmava que o sistema de voto eletrônico não poderia ser auditado. A informação é falsa. Ela foi compartilhada em um vídeo no YouTube por Renato Barros, um youtuber declaradamente de direita, e teve mais de 155 mil visualizações, um dos boatos campeões em engajamento nessa corrida eleitoral. Em julho de 2019, Barros e outros youtubers de direita se encontraram com o presidente Jair Bolsonaro

Existem diversos mecanismos de auditoria e de verificações de resultados, todas previstas na resolução 23.603/19 e realizadas antes, durante e após a votação. De acordo com o TSE, é possível auditar sob oito aspectos.Os dois principais sistemas são a auditoria de funcionamento das urnas eletrônicas em condições normais de uso (conhecidas antes como “votação paralela”) e a auditoria de verificação da autenticidade e da integridade dos sistemas instalados nas urnas eletrônicas. 

“Todas as cerimônias de preparação de urna são públicas. A gente divulga um edital e tem dia, local e hora para acontecer, para que os interessados possam participar. Convocamos partidos, Ministério Público e outras entidades interessadas. Toda cerimônia tem a presença do juiz e do MP, às vezes a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Polícia Federal também comparecem. Acontece em todo o Brasil”, explicou ao Comprova o secretário de tecnologia da informação e comunicação no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco, George Maciel. A coalizão tentou contato com o youtuber, mas ele não respondeu até o fechamento da verificação.

 

No dia do primeiro turno, 15 de novembro, o Comprova mostrou que um suposto ataque hacker ao sistema do TSE – que expôs dados administrativos antigos do tribunal – não afetou a segurança das eleições. Tanto o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, quanto os especialistas em segurança digital ouvidos pela coalizão foram unânimes em avaliar que se tratava apenas de dados administrativos antigos ou mesmo informações públicas, disponíveis no Portal da Transparência. Portanto, as informações acessadas não teriam nenhuma relação com as eleições. Além disso, vale lembrar que as urnas eletrônicas não têm conexão com a internet.

Uma outra publicação também utilizou o ataque dos hackers ao TSE para tentar desqualificar o pleito. O jornalista Oswaldo Eustáquio, investigado duas vezes no âmbito das investigações sobre atos antidemocráticos e fake news, e a ex-deputada federal Cristiane Brasil (PTB) afirmaram que as justificativas feitas pelos eleitores ausentes de seus domicílios eleitorais poderiam ser transformadas em votos válidos – e que o vazamento de dados do TSE comprovaria a possibilidade de fraude. A informação é falsa. Os arquivos gerados na votação são gravados na urna eletrônica de forma separada dos arquivos de justificativa. Com isso, não é possível que as justificativas sejam computadas como votos. Além disso, o vazamento de dados por um ataque hacker que, segundo os autores, comprovaria a tentativa de fraude, não seria capaz de alterar os resultados da eleição, conforme quatro especialistas em cibersegurança ouvidos pelo Comprova.

Os dois boatos verificados pela coalizão no dia do pleito parecem poucos em relação às eleições de 2018 – e são. Como mostrou Cristina Tardáguila, diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, a aliança de todos os checadores brasileiros tinha verificado 16 notícias falsas entre 14 e 15 de novembro. Na eleição presidencial de 2018, foram 50 publicações nas 48 horas do primeiro turno. A constatação pode parecer positiva, mas é muito difícil comparar duas eleições diferentes. A corrida presidencial une e divide o país inteiro, enquanto a eleição municipal é pautada por problemas locais.

Logo depois do dia da votação, entre os dias 16 e 28 de novembro, o Comprova verificou 13 conteúdos ligados às eleições que tiveram mais de 60 mil interações e foram visualizados por pelo menos 270 mil vezes. A coalizão de verificação mostrou que a apuração das eleições não é secreta e que o processo é aberto a participação de qualquer cidadão; que um vídeo que supostamente mostrava uma simulação de fraude em urnas eletrônicas é falso; que é possível realizar auditoria e a recontagem de votos; que a diferença entre uma pesquisa eleitoral e o resultados da eleição não implica fraude; que uma votação estável ao longo da apuração não indica fraude em São Paulo; e que os softwares utilizados em urnas brasileiras não são os mesmos dos Estados Unidos.

Outras publicações verificadas no mesmo período tiveram como alvo ou origem políticos. Uma delas afirmava que o candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSOL, Guilherme Boulos, teria afirmado que decretaria um lockdown no qual os paulistanos precisariam abrir suas casas para receber pessoas em situação de rua. A informação é falsa. Como mostrou o Comprova, o perfil que fez essa publicação era fake e tentava copiar a página real do político – posteriormente, o perfil foi suspenso do Twitter. Não existem registros de que Boulos tenha feito qualquer declaração semelhante. Em nota, a equipe do candidato também negou que ele tenha se posicionado desta maneira. Em outra verificação, o Comprova mostrou que Boulos não cobrou aluguel de pessoas sem-teto – ele é um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Outra verificação diz respeito a dois vídeos afirmando que o número de votos de Rose Ribeiro (Republicanos), candidata à vereadora em Palmas, capital do Tocantins, teria diminuído com o passar do tempo na apuração. Para tentar comprovar, os vídeos mostram capturas de telas do aplicativo de resultados eleitorais do TSE. Essas imagens são montagens e foram alteradas digitalmente para inserir uma quantidade maior de votos para a candidata do que ela realmente tinha. Em nota, o Tribunal Regional Eleitoral de Tocantins (TRE-TO) negou a alegação viralizada, afirmando não ser possível “alterar os dados inseridos nas urnas eletrônicas pelos eleitores”.

O vídeo que mais viralizou nas redes sobre o caso de Ribeiro possuía uma marca d’água do usuário do TikTok “meupartidoeobrasil”. Uma busca na rede social de vídeos por esse nome mostra, contudo, que o perfil não está mais disponível. A candidata foi procurada por e-mail e pelas redes sociais, mas não respondeu às tentativas de contato do Comprova.

A disputa entre os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) pela prefeitura de Recife também ganhou destaque nos dias que antecederam o segundo turno. O Comprova precisou mostrar que Campos não agrediu a avó, como sugeria um áudio que viralizou no WhatsApp, e que Arraes não é contra a Bíblia, ao contrário do que dizia um panfleto apócrifo que circulou na cidade.

Neste domingo, o Comprova ainda precisou mostrar novamente que um ataque hacker não afetou o sistema de votação e contabilização de votos do TSE.

A pandemia e a vacina continuam na mira dos boatos. Também em novembro, foram verificadas duas publicações relacionadas ao tema que, juntas, tiveram pelo menos 90 mil interações. No começo da pandemia, os alvos eram os remédios que, até o momento, não têm eficácia comprovada contra a Covid-19; já foram as máscaras que, essas sim, têm comprovação científica de eficácia no combate ao vírus; depois as queimadas que atingiram e destruíram o Pantanal e a Amazônia; em seguida, as vacinas; e, atualmente, o destaque fica para o processo eleitoral. A desinformação persegue o assunto do momento – seu uso não é, nem nunca foi, fruto apenas de mal-entendidos. É tudo intencional.

 

As verificações citadas no texto foram feitas pela equipe do Comprova, com participação de jornalistas dos seguintes veículos: Folha de S.Paulo, GaúchaZH, UOL, Jornal do Commercio, O Estado de S. Paulo, Correio 24 Horas, A Gazeta, Poder360, SBT, O Povo, AFP, BandNews, Band, Correio do Povo, Poder 360, UOL, SBT, e revista piauí. Você pode acessar todas elas no site do Projeto Comprova: https://projetocomprova.com.br/

Plínio Lopes (siga @Plluis no Twitter)

Repórter freelancer, trabalhou na Agência Lupa e é especializado em jornalismo de dados e fact-checking

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