questões ambientais

A captura do atobá

Repórter relata os esforços de uma equipe de cientistas para proteger as vítimas dos roedores que infestam o arquipélago de Fernando de Noronha

Bernardo Esteves
09jan2018_11h57
O atobá-marrom, que faz seu ninho no chão, ao alcance dos ratos, em Fernando de Noronha. A ave é alvo de estudo dos pesquisadores, para entender como questões de saúde humana, animal ou vegetal afetam a diversidade biológica no arquipélago
O atobá-marrom, que faz seu ninho no chão, ao alcance dos ratos, em Fernando de Noronha. A ave é alvo de estudo dos pesquisadores, para entender como questões de saúde humana, animal ou vegetal afetam a diversidade biológica no arquipélago FOTO: MARCEL FAVERY

Em outubro passado, o repórter da piauí Bernardo Esteves viajou ao arquipélago de Fernando de Noronha, situado a 345 quilômetros do litoral do Rio Grande do Norte, para relatar como um grupo de pesquisadores tem buscado entender e intervir sobre as espécies invasoras que vêm proliferando no lugar. Dentre os alvos dos estudos estão os ratos que infestaram as ilhas e representam um risco à biodiversidade local. Os cientistas estão tentando erradicar os roedores na ilha do Meio, uma das 21 que compõem o arquipélago. Ali, as principais vítimas dos ratos são os atobás-marrons – aves de peito branco e bico comprido que fazem seus ninhos no chão, ao alcance dos roedores. No trecho abaixo, o jornalista relata como trabalham os cientistas – integrantes de um centro de pesquisas chamado Tríade, Instituto Brasileiro para Medicina da Conservação – para capturar atobás-marrons e avaliar seu estado de saúde. Em conjunto, uma série de fotos mostra o esforço de erradicação de ratos. A reportagem completa sobre o plano de extermínio de invasores em Fernando de Noronha está na edição de janeiro da piauí (exclusivo para assinantes).

Oesforço de erradicação dos ratos na ilha do Meio está em curso desde julho de 2017. Mas os pesquisadores da Tríade não limitam seu trabalho de campo a espalhar armadilhas e veneno para os roedores. O grupo está interessado em entender também como anda a saúde daquele ecossistema, e por isso faz observações sistemáticas de espécies nativas, como a mabuia (um pequeno lagarto escuro que só existe em Fernando de Noronha), a cocoruta (um passarinho pardo de asas rajadas), o caranguejo terrestre e a anfisbena (um réptil conhecido popularmente como cobra-de-duas-cabeças).

Na manhã em que piauí acompanhou o grupo à ilha do Meio, em outubro, os pesquisadores se dividiram em tarefas simultâneas. Enquanto alguns verificavam as armadilhas, o ornitólogo Ricardo Krul, professor da Universidade Federal do Paraná, partiu ilha adentro para recensear as aves monitoradas pelo projeto. Mais tarde, os pesquisadores escolheram um terreno para armar uma grande tenda que traziam na bagagem. Instalaram embaixo dela uma pequena mesa dobrável, bancos e todo um laboratório portátil para a coleta de amostras biológicas. O aparato lhes serviria para avaliar o estado de saúde de cinco atobás-marrons que eles deveriam capturar.

“Quem vê esse bicho voando tem a impressão que é muito simples, mas para sair do solo é bem complicado”, disse Krul, prestes a sair na captura de um atobá. Altas e corpulentas, essas aves têm 80 centímetros de altura e envergadura de um metro e meio e só conseguem decolar contra o vento, explicou. “Os aviões copiaram tudo das aves”, observou o ornitólogo. Para capturá-las, Krul usaria uma linha de pesca com um chumbinho na ponta para atrapalhar a decolagem; ao seu lado, o veterinário Paulo Rogério Mangini, o coordenador do projeto, levava uma rede com o cabo comprido.

Os dois caminharam até a planície onde estavam os atobás. Queriam capturar de preferência um animal com uma pulseira na pata, que já havia sido pego anteriormente, para poder monitorar seus dados. A uma menor distância das aves, aproximaram-se correndo e abordaram-nas na direção do vento, de frente para os indivíduos que quisessem decolar. Pegaram os animais desprevenidos, sem que tivessem tempo de alçar voo. Krul nem precisou acionar a sua linha com chumbinho para abraçar o atobá em que estava de olho. Mangini ensacou a ave e os dois voltaram à tenda onde estavam os demais pesquisadores.

O atobá foi pesado antes de ser tirado do saco: estava com 1,360 quilo. Sob a tenda, Mangini apoiou o corpo do animal e travou seu bico comprido com a mão. A ave tinha a aparência rija e o olhar assustado. “Esse bicho é forte”, disse o pesquisador. “Não queria levar uma bicada dele.” Thali Sampaio, veterinária especializada em microbiologia casada com Mangini, recolheu com um longo cotonete amostras da boca e da cloaca dos animais. Fez uma avaliação física da ave e examinou-a com um estetoscópio. Em seguida, Mangini colheu sangue da asa do atobá, para testar se ele estava infectado por bactérias ou parasitas. O animal foi enfim devolvido ao saco e solto mais adiante; decolou assim que se viu livre.

Mangini explicou que o interesse do experimento não era tanto avaliar a saúde daquele indivíduo específico, mas usá-lo como um indicador da qualidade do ecossistema. As pesquisas dele e de seus colegas se enquadram no campo da medicina da conservação, que está preocupada em entender como questões de saúde humana, animal ou vegetal afetam a diversidade biológica.

O interesse comum por essa abordagem foi o que uniu os pesquisadores que em 2004 fundaram a Tríade. Segundo Mangini, o atual diretor, o centro tem cerca de trinta membros, dos quais quinze estão envolvidos com projetos (muitos deles conciliam sua participação ali com outras atividades acadêmicas e profissionais). A sede fica em Recife, mas seus integrantes estão espalhados pelo país.

O instituto de pesquisa desenvolve projetos em Fernando de Noronha desde 2007, conforme me disse o médico veterinário Jean Carlos Ramos Silva, pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco e um dos fundadores da Tríade. A decisão de concentrar esforços nos invasores surgiu naquele momento. “Fizemos um diagnóstico ambiental e verificamos que controlar essas espécies era a questão mais importante para os gestores”, disse-me Silva numa entrevista em dezembro passado.

Filhote de atobá-marrom na ilha do Meio, no arquipélago de Fernando de Noronha, de onde os pesquisadores da Tríade pretendem erradicar os ratos. Como a ave faz ninhos no chão, seus ovos são presa fácil para os roedores

 

Os veterinários Thali Sampaio e Paulo Rogério Mangini, da Tríade, examinam um rato capturado numa armadilha usada para o recenseamento da população de roedores na ilha do Meio. Para a realização do censo, os animais capturados são marcados e devolvidos ao ambiente

 

A bióloga Tatiane Micheletti, da Tríade, espalha iscas de abacaxi pelas armadilhas usadas para o recenseamento da população de ratos na ilha do Meio

 

O mocó, introduzido em Fernando de Noronha nos anos 1960, foi acusado de causar impacto na paisagem e na biodiversidade do arquipélago, mas os pesquisadores da Tríade concluíram que sua fama não procede e que ele não deve ser prioridade nas ações de conservação

 

A mabuia é um pequeno lagarto escuro que só existe em Fernando de Noronha. Presa fácil para gatos e teiús, está entre as principais vítimas das espécies invasoras no arquipélago

 

Introduzido em Fernando de Noronha há pelo menos cem anos, o teiú é um lagarto robusto que se alimenta de mabuias e outras espécies nativas

 

Gato diante de uma mabuia em Fernando de Noronha. Os felinos que circulam livres pela ilha representam uma ameaça para os lagartos endêmicos e para as aves nativas do arquipélago

 

Atobás-marrons na ilha Rata, em Fernando de Noronha, que serve aos cientistas como um ambiente de controle para entender os diferentes fatores que afetam as populações de espécies nativas do arquipélago

 

Os pesquisadores espalharam pela ilha do Meio 349 dispositivos como o da imagem acima, com veneno para rato misturado com um alimento com aparência de ração para coelhos

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)

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