questões do império

A esquerda que se arma contra Trump

Cultura armamentista típica dos conservadores americanos ganha cada vez mais adeptos entre minorias e grupos de tradição democrática

Letícia Duarte
30out2020_12h05
Participantes de movimento neofascista de extrema direita em manifestação pelo uso de armas em Portland, Oregon; Estados Unidos chegam à eleição mais armados do que nunca
Participantes de movimento neofascista de extrema direita em manifestação pelo uso de armas em Portland, Oregon; Estados Unidos chegam à eleição mais armados do que nunca Crédito: John Rudoff / Anadolu Agency via AFP

A cabeleireira americana Bex, 43 anos, sempre foi avessa ao armamento civil. Seguindo a  tradição da chamada esquerda liberal americana, temia a violência associada às armas e se acostumou a vê-las como um símbolo ostentado pelos conservadores – e especialmente por supremacistas brancos apoiadores do presidente Donald Trump. Neste ano, em meio à beligerância pré-eleitoral nos Estados Unidos, essa eleitora de Joe Biden reviu seus conceitos. Convencida de que era perigoso deixar o monopólio bélico do país nas mãos dos adversários, a cabeleireira comprou um revólver e se filiou à seção nova-iorquina de uma organização que desafia estereótipos: a Associação Socialista de Armas. 

“A eleição trouxe um senso de urgência, senti que era minha responsabilidade fazer alguma coisa, ajudar a defender a comunidade”, disse Bex à piauí em uma ligação de vídeo. Desde sua filiação, em julho, ela começou a receber aulas de tiro e defesa pessoal, mas ainda mantém sua militância armada em segredo, temendo críticas da família e de amigos liberais. “Minha irmã ia me matar se soubesse”, justificou a cabeleireira, que é branca e tem cabelo castanho aloirado na altura dos ombros, ao pedir para não ser identificada com o nome completo nesta reportagem.

Em um contraponto à poderosa Associação Nacional de Armas (NRA), a Associação Socialista de Armas (SRA, na sigla em inglês) é uma organização pequena, mas que sinaliza uma tendência. Sua missão declarada é “defender o direito da classe trabalhadora de portar armas e manter as habilidades necessárias para defesa pessoal e da comunidade”.

A composição atual da organização existe desde 2018, mas foi em 2020 que o número de filiações disparou (com o perdão do trocadilho), em meio ao acirramento de tensões políticas e sociais que o país atravessa. 



“Temos recebido muita gente que chega falando: nunca me interessei por armas antes, mas agora é diferente”, contou o secretário-geral da SRA em Nova York, Alba Santos, em entrevista à piauí. O número de filiados na unidade subiu de 30, em 2018, para mais de 100 neste ano. Em todo o país, a SRA passou de 3 mil membros, no início do ano, para 7 mil atualmente, e aglutina mais de 61 mil seguidores no Twitter. Em seus canais, a organização promete “promover uma cultura inclusiva, segura e saudável de armas de fogo na América para combater a cultura tóxica, de direita e de exclusão das armas de fogo” e se define como representante da “classe trabalhadora, progressista, anarquista, socialista, comunista, eco-warrior, libertadora de animais, antifascista, antirracista, anticapitalista, das pessoas de cor e LGBTQ+”. 

“A direita hoje tem um monopólio da cultura de armas, e nós queremos começar a mudar isso”, explicou Santos, que tem origem indígena, latina, e define seu gênero como queer (não-binário). “É aceitável socialmente que os brancos tenham armas, mas se um preto tiver uma, é tratado como criminoso. Precisamos mudar essa cultura que oprime grupos marginalizados para que possam exercer seus direitos também”, argumentou, durante uma entrevista via Jitsi, uma plataforma criptografada de vídeo que permite o acesso sem conta vinculada do usuário. A nossa primeira conversa foi acompanhada por outros cinco integrantes do grupo – alguns usando máscara, outros falando com a câmera desligada – e a segunda teve a participação de Bex. Preocupados com a segurança, a maioria preferiu permanecer anônima, enquanto defendia a reapropriação da cultura de armas como uma forma de empoderamento social. 

“Vivemos décadas de opressão, eles não querem que os pretos estejam armados”, disse um dos participantes. Outro, de ascendência asiática, disse que se juntou à SRA como uma reação ao preconceito em relação aos asiáticos após a eclosão da pandemia do coronavírus. E quase todos disseram não se sentir protegidos pelas forças policiais – alvo de maciços protestos no país após o assassinato de George Floyd por asfixia durante uma abordagem policial. “Seja quem ganhe as eleições, não vai mudar muita coisa. Temos que proteger nossas famílias, nossos vizinhos.”

Temendo infiltrações policiais e o cerceamento de suas atividades, a organização adota procedimentos rígidos de segurança e não exige que seus membros se identifiquem com os nomes reais. Por causa do coronavírus, boa parte das reuniões tem acontecido virtualmente, mas eles tentam se encontrar pelo menos uma vez por semana em pequenos grupos para trocar ideias (“mantendo distanciamento social e com máscaras”) e mensalmente em lugares remotos e abertos – que eles não quiseram revelar – para praticar técnicas de tiro e defesa pessoal. Como nem todos os membros têm acesso a armamentos, por não cumprirem todos os requisitos exigidos para a compra legal de uma arma nos Estados Unidos, a organização também tem apostado no ensino de técnicas de luta corporal – e em Nova York eles adotam uma técnica russa de artes marciais chamada Systema.

A SRA não defende a realização de ações armadas, mas o direito à bandeira do uso de armas. “Não somos uma milícia, nosso foco é a educação, a conscientização”, insistiu Santos, citando a distribuição de remédios para comunidades vulneráveis e vítimas de desastres naturais como uma das atividades da associação, além de treinamento de primeiros-socorros. “Nosso trabalho não é apenas em relação a armas.”

Mas o nome da SRA já esteve envolvido em conflitos no passado, quando uma série de grupos no Facebook usavam a denominação em suas páginas. Foi em 2017, quando supremacistas brancos marcharam com armas de grosso calibre em Charlottesville e entraram em confronto com grupos antirracistas – um embate que resultou em um morto e dezenove feridos atropelados depois que um carro avançou sobre os manifestantes que se opunham à marcha racista. Membros de uma comunidade no Facebook chamada SRA chegaram a ser processados por “atividade paramilitar” por também carregarem armas naquele dia. A página foi retirada do ar depois disso – e a composição atual da SRA afirma que não tem relação com o grupo. Em seu site oficial, diz que “embora a organização às vezes sancione a presença em protestos, proíbe protestos armados sob a bandeira da SRA”.

Fato é que os Estados Unidos nunca chegaram a uma disputa eleitoral tão armados – e a expansão da SRA reflete esse crescimento. Em 2020, a venda de armas nos Estados Unidos vem batendo recordes, inclusive em estados de tradição liberal. Um dos indicadores é o número de checagens de antecedentes feitas pelo FBI antes de cada compra, que já superou todo o volume de 2019. Foram 28 milhões de checagens pré-venda até setembro deste ano, um aumento de 40% em relação ao mesmo período do ano passado. E de acordo com uma pesquisa da National Shooting Sports Foundation (Fundação da Associação Nacional de Tiro), esse crescimento vem acompanhado de uma mudança no perfil dos compradores. 

“Os varejistas de armas de fogo e munições estiveram ocupados, muito ocupados, durante os primeiros seis meses de 2020 – e não estão apenas vendendo para o que muitos pensavam ser o cliente tradicional, homens brancos mais velhos”, escreveu Jim Curcuruto, diretor de Pesquisa e Mercado da NSSF, ao anunciar uma pesquisa que mapeou essa mudança no perfil dos compradores, incluindo um aumento na proporção de negros, hispânicos e asiáticos. Segundo outra sondagem, de janeiro a abril, 40% dos novos clientes nunca haviam comprado uma arma antes, e 40% eram mulheres. 

Isso significa uma nova cultura armamentista de esquerda? O fenômeno não é exatamente novo, disse à piauí Claire Boine, pesquisadora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston, que estuda a cultura de armas nos Estados Unidos. Em um estudo que analisou perfil de donos de armas nos Estados Unidos no ano passado, ela constatou que 17,2% deles se diziam liberais, 25,8% se identificavam com o Partido Democrata – e apenas 8,3% se viam como um típico dono de armas. “O fato de liberais terem armas não é novo, embora neste ano haja um crescimento de mais liberais, mulheres e negros comprando armas”, observa a pesquisadora. 

O estudo ouviu uma amostra de mais de 2 mil donos de armas e foi publicado em julho deste ano, no Jornal Americano de Medicina Preventiva. Uma das conclusões é que é preciso ir além dos estereótipos para “reduzir a divisão na opinião pública em relação às políticas para reduzir a violência armada”. Numa cultura como a americana, em que o direito às armas é garantido na Constituição, a pesquisadora observa que a corrida por armas e munições se aquece cada vez que um lado se sente ameaçado pela ideologia oposta. Quando Barack Obama assumiu a presidência, por exemplo, os conservadores correram para reforçar suas munições, preocupados que o presidente pudesse aprovar leis para cercear seus direitos. Agora, com Trump, os liberais também se mobilizam para o contra-ataque. “A polarização é um grande gatilho para a compra de armas. É como uma arma nuclear, você não quer que só o outro tenha”, compara Boine. 

Mas o que essa corrida armamentista significa para as eleições presidenciais? Como o presidente Trump está em desvantagem nas pesquisas, vem desacreditando o processo eleitoral e atacando a credibilidade do voto pelo correio, há quem alerte para o risco de caos social e violência nas ruas entre eleitores. 

“Ambos os lados estão com medo de que o outro lado não vá aceitar os resultados. O problema é que os dois lados não acreditam mais no processo em si”, analisa Boine, que tenta manter uma perspectiva otimista. “Acredito na democracia, e acho que os casos de violência serão isolados. Mas a verdade é que nós não sabemos o que vai acontecer”, diz. “O que me preocupa é que coisas que costumavam nos chocar estão se tornando corriqueiras, como teorias da conspiração e demonstrações de racismo. Então, se você acredita em uma teoria da conspiração como o QAnon, de que estão torturando e estuprando crianças, o uso de armas para defendê-las parece justificado.”

O cientista político Robert Spitzer, autor do livro As Políticas do Controle de Armas e professor da Universidade do Estado de Nova York em Cortland, não acredita que uma maior adesão dos liberais ao armamento civil possa levar a uma escalada de violência generalizada.

“São tempos de incerteza, o medo está presente, mas acredito que episódios de violência serão pontuais”, disse à piauí. “A maior ameaça à eleição ainda é a sabotagem virtual.”   

Se depender da cabeleireira Bex, não haverá confronto. Ela diz que cada vez que pensa na eleição sente um enjoo, frio na barriga. Apesar de estar tentando aprender a “amar a sua arma”, diz que não pretende sair armada pela cidade no dia da votação. Pretende ficar quieta, isolada, ouvindo podcasts sobre crimes. “Não estou preparada pra tomar a linha de frente de nada, e nós nem teríamos chance se fosse lutar arma a arma contra eles”, raciocina. A cabeleireira pretende deixar o revólver bem guardado, protegido dos dois enteados, de 10 e 12 anos. “Não quero nem assistir às notícias, dependendo de como for, vou entrar em depressão existencial.”

Outros integrantes da SRA pensam diferente. “A violência é inevitável, o pessoal da extrema direita já vem incitando isso, eles chegam em caravanas para intimidar”, disse um dos participantes do Jitsi. “A questão não é se vai haver violência, mas como essa violência vai chegar a nós”, acrescentou outro. Enquanto direita e esquerda preparam munição, quem sai lucrando é a indústria de armas, que fatura com a cultura do medo. “O dinheiro dos dois lados acaba no mesmo lugar”, observa Boine. 

Se o resultado das eleições ainda é incerto, a indústria de armas já ganhou. 

Letícia Duarte (siga @leticiaduarte no Twitter)

Jornalista, vive em Nova York. Mestre em Política e Global Affairs pela Universidade de Columbia e em Sociologia pela UFRGS. Foi repórter da Zero Hora

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