questões de mídia e política

Acabou, p*rra, tá ok?

Nas redes, grupos de apoio a Bolsonaro fingem estar tudo bem e parecem se recusar a acreditar que presidente se tornou o que nunca deixou de ser – a velha política

Pedro Bruzzi
13out2020_17h09
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Houve um tempo em que o “mecanismo”, denominação utilizada por bolsonaristas para se referir ao sistema – ou podemos dizer establishment político –, era tratado pelo governo Bolsonaro com o emprego de palavras como “Foda-se” ou “Porra”. Esse nível de tratamento dado aos “inimigos”, integrantes do sistema, era constantemente celebrado nas redes sociais online por seguidores fanáticos, em especial os chamados olavistas.

E não era só o presidente, era uma filosofia de governo. O general que deveria cuidar da segurança institucional e, por consequência, ser a célula responsável pela inteligência e informações, bradou um sonoro “Foda-se” ao se referir a negociações com o Congresso, chamando-as de chantagens decorrentes do orçamento impositivo (aprovado no parlamento com apoio inclusive da base governista) em 18 de fevereiro de 2020.

A empolgação era tamanha que a base bolsonarista nas redes, apoiada pelo governo, convocou atos nas ruas para o dia 15 de março, na esteira da fala do general Heleno. Alguns deram o nome de “Dia do Foda-se”.

Esse mesmo general, em reunião ministerial de 22 de abril, ouviu do presidente que não utilizava suas informações, por falta de confiança. Bolsonaro dispunha de um “serviço” próprio. Depois soube-se que talvez o presidente estivesse certo. O general da reserva, que já havia tido dificuldades em interceptar um traficante de cocaína em uma comitiva presidencial, costuma falhar em tarefas relativamente fáceis, como checar currículos de indicados a postos-chave no governo, por exemplo.



No dia 15 de março, a manifestação, às vésperas da decretação da quarentena por conta da incipiente pandemia no Brasil, aconteceu com público já bem menor do que o observado em eventos anteriores. Aquele foi um sinal amarelo, considerando a intensa mobilização da base bolsonarista nas redes nas semanas anteriores ao ato. 

Era comum um tratamento de desdém às instituições vindo de todas as pastas. Até o então ministro Abraham Weintraub se sentiu à vontade, mesmo sabendo que estava sendo filmado – ou seja, aquilo poderia se tornar no mínimo um documento histórico –, para chamar ministros do STF de vagabundos que deveriam ir para a cadeia. Havia 25 autoridades do mais alto escalão do governo naquela reunião, e ninguém o repreendeu.


G1 (22/05/2020): Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF’, diz ministro da Educação em reunião (571 mil interações no Facebook)

Mesmo com a repercussão negativa da declaração, os olavistas tinham confiança na guarida do presidente. Bolsonaro estava até aquele momento fustigando as instituições. Não havia sido domesticado pela cadeira presidencial, que dirá pelos generais que o cercam no Palácio. Sempre com apoio dos filhos e, principalmente, dos súditos de Olavo de Carvalho, avançava mais casas, tensionando o tempo todo. Afinal de contas, era o presidente antissistema, que nem partido tem. Weintraub estava muito tranquilo.

O fim do capítulo Abraham Weintraub e STF todos conhecem. Seria demitido em 18 de junho, se “autoexilando” de um governo do qual fez parte num emprego em Washington, no Banco Mundial, e com um punhado de dólares. De quebra, seu irmão também foi aproveitar as maravilhas de um organismo internacional na mesma cidade. A demissão era um sinal inequívoco. Algo havia mudado.

Estamos em junho, mas antes precisamos voltar àquela reunião ministerial de 22 de abril. Depois soubemos que Sergio Moro, constrangido por uma reprimenda de Bolsonaro, havia saído antes de a reunião terminar. Sairia dali para pedir demissão do governo dois dias depois. Para todos, era o momento mais difícil do governo Bolsonaro. Perderia sua superestrela. O que passou com essa história já foi contado aqui na piauí

Após a ruptura com o chamado lavajatismo, representada pela saída de Moro, e o agravamento da pandemia, Bolsonaro viu suas taxas de aprovação caírem enquanto as taxas de reprovação batiam recordes. 

Houve, então, uma mudança de postura. O presidente, que provocava tudo e todos, se calou. Fatos marcantes, como o inquérito das fake news e as investigações sobre as manifestações antidemocráticas, avançaram sobre vários de seus apoiadores e foram ignorado pelo “mito”. Olavo chegou a ameaçá-lo:

“Esse pessoal não consegue derrubar o seu governo? Eu derrubo. Continue inativo, continue covarde, eu derrubo” (Olavo de Carvalho em seu canal no YouTube em 06 de junho de 2020 – 547 mil visualizações) 

Durante o mês de junho, o presidente ainda cedeu às pressões de seu público mais fiel, mas nada fez além de bravatas. Na mesma época, caiu Abraham Weintraub. E também foram caindo as interações de sua base de apoio nas redes. Sem orientação do que defender ou atacar, o grupo foi perdendo fôlego. A prisão de Fabrício Queiroz, no dia 18 do mesmo mês, consolidou esse novo momento

Bolsonaro foi largando sua base, entregando cada vez mais cargos aos militares e indicações do Centrão. Embora contrariados com as movimentações do Planalto, olavistas se mostraram sempre fiéis. Em julho, chegaram até mesmo a defender a CPMF e “cancelaram” Roberto Jefferson, apoiador de primeira hora do capitão, mas que criticou a proposta do novo imposto. 

As pesquisas começaram a registrar um crescimento contínuo da aprovação do governo, também impulsionado pelo auxílio emergencial, e Bolsonaro foi ganhando confiança. A ala ideológica foi perdendo espaço, assim como a agenda liberal de Paulo Guedes, enquanto se consolidava a configuração da “nova Arena”, liderada justamente pelo Progressistas, partido que tem sua origem na base de apoio aos governos da ditadura militar. 

A recente indicação do desembargador Kassio Nunes  Marques apresentou à luz do dia esse novo governo Bolsonaro e abriu uma nova fissura nas redes sociais online no agrupamento bolsonarista. Parte dos apoiadores do presidente foi tomada por uma grande decepção inicial. Um banho de água fria, principalmente para os olavistas.

Influenciadores bastante ativos nas redes, como Leandro Ruschel, Allan dos Santos e o próprio Olavo de Carvalho, criticaram a indicação. Somou-se a esse grupo de descontentes o pastor Silas Malafaia, que gravou vídeo um tanto quanto raivoso contra a indicação do presidente.

É uma decepção geral. O senhor está colocando um camarada que atende o Centrão, o PT, a esquerda, Ciro Nogueira, corruptos e quem é contra a Lava Jato” (Silas Malafaia em vídeo no seu canal do YouTube em 01 de outubro de 2020 – 262 mil visualizações)

Chama atenção no caso Kassio a resiliência das críticas a Bolsonaro. Sim, sete dias nas redes sociais são muito tempo, quase uma eternidade. Uma semana depois da live em que Bolsonaro ratificou a indicação, aqui estamos ainda sem saber o que ocorrerá. Bolsonaro irá ouvir as redes e recuará? 

Grafo de menções sobre o debate no Twitter relacionado à indicação de Kássio Nunes. 241 mil publicações coletadas entre 06 de outubro e 08 de outubro.

 

A base bolsonarista se apresenta nos agrupamentos amarelo (15%) e azuis (36%). Os amarelos são os olavistas e continuam reclamando da indicação do desembargador “fake lattes”. Não é um conservador de verdade, dizem. 

A base azul, com destaque para o (talvez ex) olavista Abraham Weintraub, já aceitou e acatou as razões e ordens do presidente. É necessário continuar confiando no mito – #BolsonaroTemRazão é hashtag recorrente no Twitter, com cerca de 3 milhões de publicações no ano – alegam.

Ao que parece, pelo menos até agora, o jogo virou. Olavo e sua turma continuam tendo faniquitos, mas talvez para Bolsonaro seja mais importante garantir um tratamento privilegiado ao seu filho e uma base parlamentar forte, aglutinada por parte do Centrão, do que ouvir as redes sociais que tanto foram fundamentais para a eleição do presidente. 

São emblemáticos os encontros de Bolsonaro com personalidades políticas outrora consideradas inimigas. Ciro Nogueira é tão próximo do capitão que virou o suposto filho 05. A José Mucio, do TCU – que se aposenta e abre vaga que será ocupada por Jorge Oliveira – foi oferecida uma embaixada, segundo a revista Época. Toffoli ganhou abraços efusivos num sábado de jogo do Palmeiras. Aquele Bolsonaro radical das redes existe só na cabeça de alguns de seus seguidores, os mesmos que ignoram que a palavra Centrão existe.

Nos últimos dias, Bolsonaro tem se dedicado às bravatas, atacando a Rede Globo, Sergio Moro e até Che Guevara. Também virou um caça-clique, postando sobre isenção de jogos eletrônicos ou sobre lei que protege animais domésticos.

O agrupamento bolsonarista finge estar tudo bem. Parece não querer acreditar que o presidente, que foi deputado federal por mais tempo do que oficial do Exército, virou aquilo que nunca deixou de ser: a “velha política”.

E a Lava Jato? Acabou, porra!

Pedro Bruzzi

Sócio da Arquimedes, consultoria de análise de mídias sociais. É mestre e graduado em administração pela Fundação Getulio Vargas.

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