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Aeroporto Central e o tsunami

Aeroporto Central, de Karim Aïnouz, vinha percorrendo trajetória bem-sucedida até ser atingido pelo tsunami que, até 5 de maio, matou mais de 7,9 mil pessoas no Brasil, e causou acima de 256 mil vítimas no mundo.

Eduardo Escorel
06maio2020_12h41

Depois de estrear há dois anos no 68º Festival de Berlim, onde recebeu o Prêmio da Anistia Internacional, e de ser exibido em festivais mundo afora, inclusive a Mostra de São Paulo e o Festival do Rio no final de 2019, o lançamento de Aeroporto Central no Brasil, em cinemas, fora marcado para o final de março. Mas, com as salas do circuito exibidor fechadas por causa da pandemia, o lançamento do documentário de Aïnouz acabou sendo feito direto em diversas plataformas de streaming (Now, Vivo Play, Oi Play, iTunes, Google Play, Filme Filme e Looke), nas quais continua disponível, reafirmando a importância dessa alternativa ao modo tradicional de exibição, sobretudo nas circunstâncias atuais. 

De maneira imprevista, portanto, ocorreu há doze dias (24/4) um evento notável, em mais de um sentido. Primeiro, devido à qualidade incomum da produção alemã-brasileira, a possibilidade de assistir a Aeroporto Central por meio de diversas alternativas de acesso. Além disso, pelo fato de o lançamento representar uma pequena mas marcante resposta às restrições que a pandemia da Covid-19 nos impõem. Resta conferir se o documentário atrairá o número significativo de espectadores que merece, ou se despertará apenas interesse de público equivalente ao que teria, de qualquer modo, no circuito de cinemas. 

No âmbito dos principais jornais impressos do país, Aeroporto Central foi acolhido com espaço amplo e textos descritivos, reproduzindo declarações de Aïnouz, porém, de maneira geral, carentes de reflexão crítica e entusiasmo suficiente para estimular a vontade de assistir ao filme. André Miranda, por exemplo, conclui sua crítica no Globo (24/4) escrevendo que “o diretor criou [...] uma interessantíssima conexão entre tempos e espaços”– o que deixa no ar a dúvida: alguém se animaria a assistir a Aeroporto Central depois de ter lido essa frase? A verdade, no entanto, é que os jornais deixaram de ser a principal fonte de informação do segmento restrito de público suscetível a se interessar por documentários. E é difícil saber ao certo quais canais favorecem a identificação de valor de certos filmes, permitindo que se tornem de conhecimento mais amplo. 

Outra questão a enfrentar, no caso de Aeroporto Central, é a suposta semelhança entre praticantes atuais de isolamento social e a situação em que se encontram os personagens do filme, imigrantes abrigados no antigo Aeroporto de Berlim-Tempelhof, reconstruído pelo governo nazista na década de 1930, mas hoje desativado. Para Aïnouz, conforme disse em entrevista ao programa Bom para Todos da TV dos Trabalhadores (TVT), em 30 de abril, o que aproxima essas duas circunstâncias fortuitas é o desconhecimento do que vai acontecer e a falta de controle sobre o futuro. Isso justificaria o lançamento do filme durante a pandemia por criar maior interesse do público? Os produtores e o distribuidor parecem ter acreditado que sim. 

 

Filme Aeroporto Central/Divulgação

A tragédia humanitária de âmbito mundial que estamos testemunhando, e com a qual nos relacionamos a distâncias variáveis, é um obstáculo para qualquer filme receber a atenção que merece. A pandemia impõe mudanças de hábitos e ocupa nossa atenção, junto com a crise política, deixando pouco tempo até para “ir ao cinema”, mesmo através do streaming. 

No dia 1º de maio, em manchete na primeira página, o Globo deu notícia da relação entre declarações e atitudes contrárias ao distanciamento social do irresponsável ex-capitão que preside o país, e, passadas duas semanas, o aumento do número de mortes causadas pela Covid-19 – “Aumento de casos no país reflete queda no isolamento há duas semanas”. Ou seja, para todos os efeitos, o inepto morador provisório do Palácio da Alvorada é responsável por grande número de mortes no país, que devem chegar, nos próximos dias, a mais de 10 mil. Está plenamente justificada, portanto, a representação contra o destemperado ex-capitão protocolada pela Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), no início de abril, no Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, que julga acusados de crimes de genocídio, contra a humanidade e delitos de guerra. 

Diante da calamidade sanitária e da crise econômica nas quais estamos envolvidos, fomos transformados, ainda por cima, em plateia involuntária da pantomima encenada em Brasília – espetáculo grotesco no qual o presidente “renunciou às suas funções, apesar de formalmente continuar no posto”, segundo Míriam Leitão; ele é tão irresponsável que não sendo “‘apenas’[...] um mau administrador, torna-se também culpado. Sim, as mortes estão no ‘colo’ dele”, segundo Carlos Alberto Sardenberg; “E daí?...”, o acusado perguntou há dias. E daí que “os números contundentes da Covid-19 no Brasil serão inexoravelmente colocados também em sua conta. Não por governadores, prefeitos ou pela imprensa, como diz. Mas pela História”, conforme editorial do Globo em 30/4, mesma data das duas citações anteriores. 

As afirmações nas duas colunas e no editorial do Globo vieram corroborar, um mês e meio depois, o que um imigrante haitiano disse ao nefasto presidente na noite de 16 de março, no portão de acesso ao Palácio da Alvorada: “Bolsonaro, acabou... Você não é presidente mais. Você não é presidente mais.” Frente às palavras singelas do haitiano, como não lembrar do grito da criancinha no conto de Andersen ao ver o rei caminhando na procissão debaixo da cobertura carmesim: “Mas ele não está usando nada!”, o que levou todos a enfim gritarem que o rei estava nu. 

Se não há de fato, ao que parece, condições políticas para outro longo processo de impeachment, inclusive por causa da pandemia, qual a alternativa? Não sei dizer – com a palavra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. É difícil imaginar que o desmoralizado presidente possa persistir no cargo por muito tempo. Não foi por nada que o professor Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem, assinalou que temos no Brasil “um presidente ruim, respondendo mal” à crise, sendo dos poucos chefes de governo a “não ter aumentado seu índice de aprovação popular durante a pandemia. Até Piñera [Sebastián Piñera, presidente do Chile] cresceu 18%”, disse Levitsky (no webinar “Covid-19 a os desafios enfrentados por democracias”, promovido pela Escola de Políticas Públicas e Governo da Fundação Getulio Vargas, em 29 de abril). 

Na mesma entrevista à TVT, citada acima, Aïnouz disse ser “desesperador estar longe do Brasil neste momento”. No seu apartamento em Berlim, onde mora e está isolado, ele se sente dividido entre “a vontade de gravar” e a impressão de que “está na hora de a gente parar”. Dilema que preocupa, creio, todo realizador de documentários, gênero de filme marcado em sua origem pelo pecado herdado da fotografia de ser bom para “fazer réquiens”, expressão que João Moreira Salles colheu de Sergio Burgi: “Muita gente vai e fotografa o local [referência a Canudos], a vila muitos anos depois, mas isso é réquiem, porque a cerimônia mesmo, e por cerimônia quero dizer matança, não é fotografada.” ( “Imagens em Conflito”. O Cinema do Real, org. Maria Dora Mourão e Amir Labaki, Cosac Naify, 2005) 

Em Aeroporto Central, Aïnouz evitou em parte o estigma do réquiem. Foi ao encontro dos imigrantes ainda em compasso de espera, abrigados no Aeroporto de Berlim-Tempelhof. Manteve-se a meia distância, na posição de observador, e imobilizou a câmera. Captou a transformação do espaço, que de atração turística e área de lazer, passou a ser também local de acolhimento e de demonstrações de solidariedade. Recusou cenas de violência e circunscreveu o foco a dois personagens, Ibrahim Al Hussein, que chegou de Aleppo, na Síria, com 17 anos, fugindo do serviço militar e da morte provável, e o fisioterapeuta iraquiano Quitaiba Nafea, de 60 anos, um repositório de sabedoria. 

Entre o início das gravações de Aeroporto Central e a estreia no Festival de Berlim transcorreram quase dois anos, e outros dois passaram até o recente lançamento nas plataformas de streaming. Esse período longo tornou o documentário vulnerável a eventos inesperados, como a pandemia, diante da qual ele não conseguiu evitar de todo a impressão errônea de ter se tornado algo anacrônico ao finalmente começar a ser visto fora do âmbito dos festivais de cinema. 

Aïnouz acredita que “vamos sair disso. Temos a chance de reconstruir a utopia”, disse a Luiz Carlos Merten (O Estado de S. Paulo, 25/4). Quem viver, verá como estaremos na era PC (pós Covid-19). Quanto à utopia, imagino que precisaremos construir outra. 

Três filmes de Raoul Ruiz se destacam entre as novidades da semana disponíveis na plataforma de streaming gratuito da Cinemateca Francesa: Dialogues d’exilés  (1974); LeToit de la baleine (1981); e La Recta Provincia.Terre de sorciers (2007). 

Está também disponível desde ontem, e até 19 de maio, o documentário Banquete Coutinho, de Josafá Veloso, boa maneira de lembrar de Eduardo Coutinho que faria 87 anos na próxima segunda-feira, 11 de maio.

 

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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