anais da posse

“Agitador de extrema direita” tomou posse, para imprensa internacional

Uma análise visual dos termos usados por jornais estrangeiros para designar o novo presidente; menções ao populismo predominam

Luigi Mazza
01jan2019_22h27
Nuvem de palavras com os termos usados por veículos estrangeiros para se referir a Bolsonaro
Nuvem de palavras com os termos usados por veículos estrangeiros para se referir a Bolsonaro /WORDCLOUDS

O futuro do governo Bolsonaro ainda é uma incógnita, mas os seus contornos já estão claros para a imprensa internacional. Às vésperas da posse, jornais e agências de notícias estrangeiros classificaram o capitão reformado como “populista de direita”, “radical” ou “agitador de extrema direita”.

A associação de Bolsonaro com a extrema direita foi feita por sete de dez veículos consultados pela piauí. Aparece em matérias de jornais como The Guardian, britânico, e Le Monde, francês, e de agências, como Reuters e AFP (Agence France-Presse). Classificações similares também foram empregadas, como “ultradireita” e “direita dura”. O americano The New York Times chamou o presidente eleito de “populista estridente”. Na nuvem de palavras acima, os termos mais empregados em relação a Bolsonaro aparecem em tamanho maior.

Com frequência, as reportagens comparam Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para o jornal Le Monde, a retórica nacionalista, o selo de “outsider” e a postura antiestablishment do novo presidente brasileiro configurariam um “trumpismo à risca”. O diário afirma ainda que os dois políticos têm convicções semelhantes, “que misturam paranoia e ódio ao socialismo”. Horas depois da publicação da matéria, Bolsonaro, já adornado com a faixa presidencial, comprometeu-se em seu discurso no parlatório do Palácio do Planalto a “libertar” o Brasil do “socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

Além do jornal Le Monde, outros quatro veículos – BBC, El País, Süddeutsche Zeitung e The Guardian – caracterizam Bolsonaro como “populista”. Para o diário britânico, conforme essa classificação, ele se situa ao lado de Trump, do presidente da Bolívia, Evo Morales, e do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. Os dois últimos compareceram à cerimônia de posse de Bolsonaro em Brasília.

Depois das comparações com Trump, as com Orbán são as mais frequentes para explicar a eleição do novo presidente brasileiro. O líder húngaro, há oito anos no poder, lidera o Fidesz, partido conservador e nacionalista. Favorecido pela maioria parlamentar obtida por sua legenda, Orbán conseguiu fazer amplas reformas no Legislativo e na Constituição da Hungria. É acusado de autoritarismo e de tentar influenciar os demais poderes da República.  O cientista político alemão-americano Yascha Mounk afirmou em entrevista ao Guardian que Bolsonaro não é um caso isolado e, durante a campanha eleitoral, seguiu o script do populista de direita adotado por Orbán. “Há um manual populista, e isso é perigoso”, cravou Mounk.

Reportagem publicada em 1º de janeiro pelo jornal português Correio da Manhã avalia que o manual de Bolsonaro prega a seguinte fórmula: “Defesa da ordem civil inspirada na cultura militar, da moral cristã e do liberalismo econômico”. A análise é corroborada pelo diário argentino Clarín, que classifica o novo presidente como um representante da “ultradireita”, cujo projeto econômico terá um “tom claramente liberal”. Em três das dez matérias consultadas, é citada a Escola de Chicago, referência do pensamento econômico liberal, à qual está ligado o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí

Leia também

Últimas

Foro de Teresina #155: O apagão de Bolsonaro

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Quinze anos de sigilo sobre “reunião da boiada” e cinco anos para relatórios do Ministério da Justiça sobre rolezinhos

Monitoramento de rolezinhos de jovens mereceu segredo por cinco anos; vídeo da reunião ministerial de abril de 2020, pelo triplo desse tempo

Candidato a animador

A não candidatura que promoveu Luciano Huck das tardes de sábado para as de domingo na Globo

Foro de Teresina ao vivo

Podcast de política da piauí terá edição especial em vídeo

Cinco anos de segredo para presos no Haiti e mortes no Jacarezinho

Sigilo de cinco anos protege documentos sem novidade, como sobre detentos haitianos, e outros sobre os quais pouco se sabe, como as mortes no Jacarezinho

“Sou um homem e amo outro homem”

No mês do orgulho LGBTQ+, o estilista Ronaldo Fraga conta como se apaixonou por um rapaz após dois casamentos com mulheres e critica retrocesso no governo Bolsonaro

Infelizes como nunca

Pesquisa mostra que o brasileiro jamais se sentiu tão infeliz como na pandemia – e que o país é desigual até na infelicidade

Cinco anos para proteger dados sobre manutenção de veículos da Marinha e pesquisas aeroespaciais

Marinha mantém em sigilo por cinco anos documentos sobre veículos – mesmo tempo pelo qual a Agência Espacial Brasileira (AEB) oculta pesquisas sobre foguetes

Mais médicos mal formados

Em duas décadas, Brasil abriu 247 cursos de medicina – uns de excelência e outros onde falta de tudo, de microscópio a paciente para o aluno aprender procedimentos complexos

Até cem anos de sigilo para vacina de Bolsonaro e 41 para documentos americanos sobre ditadura no Brasil

Carteira de vacinação do presidente ficará em sigilo por até cem anos; papéis americanos sobre ditadura brasileira foram mantidos ocultos por 41 anos e 11 meses

Mais textos