O autor de Nova York 2140 (em foto de suas redes sociais): presente na COP30, em Belém, o americano falou sobre as escolhas de sua literatura: “Eu escrevo para mudar a cabeça das pessoas e para diverti-las" Imagem: arquivo pessoal
“Agora as pessoas têm que ler ficção científica para entender a própria realidade”
Kim Stanley Robinson, um dos mais aclamados autores de romances sobre a crise climática, discute o tom para se tratar do assunto
No fim de semana anterior à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30, que acontece em Belém até 21 de novembro, o estado do Paraná viu a passagem de três tornados que estão entre os mais intensos já registrados no território brasileiro. O fenômeno deixou um saldo de sete mortos, 800 feridos e mais de mil desalojados em Rio Bonito do Iguaçu, município no Centro-Sul do estado que teve cerca de 90% de sua área urbana devastada. Do outro lado do planeta, nas Filipinas, o tufão Kalmaegi matou 224 pessoas. Dias depois, outro tufão, o Fung-wong, forçou a evacuação de mais de 1 milhão de pessoas.
À medida que os eventos climáticos extremos vão se tornando mais intensos e frequentes em decorrência da crise climática, conforme previam os climatologistas, o acúmulo de cenas como essas vai se distanciando da ficção distópica e se aproximando da realidade. “Agora as pessoas têm que ler ficção científica para entender a própria realidade”, disse à piauí o escritor americano Kim Stanley Robinson, um dos mais aclamados autor de romances sobre a crise climática. “Vivemos no meio de um romance de ficção científica que estamos todos escrevendo juntos”, continuou Robinson, que está em Belém para participar da COP30.
O americano de 73 anos é o autor de The Ministry for the Future [O ministério para o futuro, ainda sem tradução em português], de 2020, um livro que chama a atenção por seu realismo perturbador. Ambientado num futuro pouco distante, o romance abre com a descrição minuciosa de uma onda de calor avassaladora que acontece na Índia – país com mais de 1 bilhão de habitantes que tem pouca responsabilidade histórica pelo aquecimento global, mas está entre os mais vulneráveis aos seus impactos.
O único romance de Robinson lançado no Brasil é Nova York 2140, lançado em 2019 pela Planeta Minotauro e ambientado num futuro em que a metrópole americana submergiu devido ao aumento do nível do mar. Robinson disse que prefere esse livro a Ministry for the Future em vários aspectos, “porque é mais divertido, mais local, tem um conjunto de personagens mais desenvolvido e uma trama mais corriqueira”.
Os romances literários que têm a crise climática como pano de fundo pertencem à ficção climática, um subgênero da ficção científica às vezes designado pela forma abreviada cli-fi, derivada do inglês climate fiction. Trata-se de um gênero em ascensão, com o qual vários autores brasileiros contemporâneos têm flertado. No ano passado, a piauí promoveu na Flip um debate para discutir como a crise climática é narrada na literatura, com a gaúcha Natalia Borges Polesso, autora de A extinção das abelhas, e o paulista Pablo Casella, autor de Contra fogo.
Embora seja um dos grandes expoentes da ficção climática, Kim Stanley Robinson não se sente muito confortável com o rótulo. Ele se considera um autor de ficção científica desde o início da carreira – seu primeiro romance é de 1984. “Quando a ficção científica se tornou interessante para o resto do mundo, as pessoas ficaram um pouco assustadas e ofendidas por estarem interessadas por um gênero tão desprezível”, disse o escritor. “Por isso eles vieram com nomes diferentes, como ficção especulativa ou cyberpunk, para ignorar o fato de que estavam lendo ficção científica.”
Quando surgiu o termo ficção climática, ele viu a história se repetir, mas acabou se resignando com o carimbo. Com a concretização progressiva das previsões da ciência climática, porém, a dimensão especulativa do gênero tende a desaparecer da prosa realista contemporânea. “Se você for escrever sobre humanos neste planeta, vai acabar virando ficção climática”, afirmou Robinson.
Entre os jornalistas que cobrem a crise climática, frequentemente surge a dúvida sobre o tom ideal a se adotar ao noticiar as previsões sombrias da ciência climática ou os eventos extremos mortíferos. Perguntei a Robinson, que narrou uma onda de calor que vitimou milhões de pessoas com uma riqueza de detalhes de embrulhar o estômago, como ele enxergava a questão. “Num romance de 500 páginas você pode apresentar os detalhes, os lados contrastantes, os perigos e as coisas que funcionam em um único volume, como fiz em Ministry”, disse o escritor. Mas talvez seja impossível fazer o mesmo numa reportagem jornalística, continuou. “É muito difícil manter o equilíbrio entre ser realista e esperançoso ao mesmo tempo. Você continua lutando porque a história nunca termina, mas também reconhece que estamos num momento de terrível perigo. São duas emoções muito contrastantes que precisam ser transmitidas em poucas palavras.”
No caso de Robinson, a escolha das palavras e do tom é tanto estética quanto política. “Eu escrevo para mudar a cabeça das pessoas e para entretê-las, e as duas coisas podem andar juntas”, afirmou.
Em The Ministry for the Future, a solução que a humanidade encontra para fazer frente ao colapso do clima envolve a criação de um órgão supranacional – o Ministério para o Futuro – responsável por agir em defesa dos direitos das gerações vindouras e das demais espécies vivas do planeta. Na prática, a criação de um órgão nesses moldes seria improvável, por exigir uma reforma estrutural da governança internacional, em que os países precisariam abrir mão de parte de sua soberania. O próprio autor já reconheceu que a solução seria problemática. “Se houvesse um ministério para o futuro, suas decisões prevaleceriam sobre as dos demais ministérios, o que poderia ser um desastre”, declarou Robinson em 2022 à revista espanhola Telos.
No mundo real, a solução para a crise climática terá que vir do multilateralismo. Em 1992, durante a Rio-92, quase duzentos países decidiram criar a Convenção do Clima da ONU, com o objetivo de impedir que os impactos da mudança climática causada pela ação humana chegassem a níveis perigosos. Nas COPs, que são as reuniões anuais desses países, as decisões têm que ser tomadas por consenso, o que faz com que os avanços sejam muito lentos, para frustração dos ambientalistas.
Antes de Belém, Robinson já havia participado da COP26, em Glasgow. “Algumas grandes promessas foram feitas ali, mas foram quebradas desde então”, afirmou. O escritor vê a conferência de Belém como uma COP particularmente difícil. “E não é nem pela ausência dos Estados Unidos, isso é até uma vantagem”, continuou. O impasse vem do fato de muitos países não terem entregado a nova versão de suas metas de redução e emissões, conforme tinham se comprometido a fazer no Acordo de Paris. O prazo combinado era fevereiro, mas pouco mais da metade dos países haviam apresentado suas metas até o começo da conferência. “Esse é um momento de crise para o regime climático”, disse Robinson.
Os compromissos que os países assumem nas conferências do clima são como um casamento, propôs o americano. “Num casamento vocês prometem ficar juntos para sempre e serem bons um para o outro, mas depois se divorciam ou ignoram as regras”, afirmou. “Se pensarmos nas COPs como um tipo estranho de casamento entre Estados nacionais, você tem que manter as suas promessas, ou então não era para valer.”
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