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Antídoto para o Carnaval – injustiças humanas

Com premissa louvável, documentário sobre os crimes do franquismo tem narrativa pouco coesa e informações em excesso

Eduardo Escorel
07mar2019_18h24

“Este filme é para todos que acreditam no impossível!” Com essa dose alta de mistificação Elizabeth Chai Vasarhelyi, codiretora de Free Solo, encerrou seu agradecimento ao receber com seu parceiro Jimmy Chin, em 24 de fevereiro, o Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem.

Diante de milhões de telespectadores, Vasarhelyi preferiu enfatizar uma noção mística – a crença em milagres –, em vez de repetir sua preocupação ética por terem exposto o solista livre (free soloist) Alex Honnold e a equipe de filmagem ao risco de morrer. Confirmava-se assim o oportunismo, assinalado na coluna da semana passada, subjacente à estratégia de marketing do lançamento de Free Solo, baseada na exploração do dilema entre desempenho perfeito e morte.

A semana anterior ao Carnaval teve início, portanto, com os ecos de boas intenções travestidas de proselitismo místico, postura lamentável vinda de qualquer documentarista, ainda mais de uma dupla premiada e de tamanho sucesso comercial quanto Vasarhelyi e Chin.

Na mesma toada enganadora, dois dias depois, o presidente Bolsonaro homenageou “nosso general Alfredo Stroessner”. Responsável durante 35 anos (de 1954 a 1989) por prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos, o ditador paraguaio teria sido, nas palavras do presidente, “um homem com visão, um estadista que sabia perfeitamente que seu país, o Paraguai, só poderia continuar progredindo se tivesse energia”. Faltou mencionar a corrupção, pedofilia, e os estupros praticados por Stroessner, conforme a revista Época divulgou.

Vindo de quem veio, a apologia do ditador, falseando o passado, não deveria causar o menor espanto. Merece registro, porém, pois dias depois dessa apologia ao autoritarismo, outra ditadura, a do general Francisco Franco, começou a ser posta em questão na tela dos nossos cinemas.

Marcada para quinta-feira, dia 28, a estreia do documentário espanhol O Silêncio dos Outros parecia oferecer ao mesmo tempo um antídoto eficaz para a folia invasiva do Carnaval e um sinal de alerta diante das tapeações dos dias anteriores. Inesperado foi descobrir que o filme adere sem ressalvas à expectativa duvidosa de obter o que parece impossível.

O Silêncio dos Outros, dirigido por Almudena Carracedo e Robert Bahar, estreou no 68º Festival de Berlim, em fevereiro de 2018, onde recebeu o Prêmio do Público na mostra Panorama e o Prêmio da Paz, dado por um júri independente. Ganhou também o Grande Prêmio do Júri no Festival de Documentários de Sheffield, na Inglaterra, em junho, e foi exibido depois em vários festivais, inclusive na 42ª Mostra de São Paulo, no final de outubro do ano passado.

Cena do filme O Silêncio dos Outros, dirigido por Almudena Carracedo e Robert Bahar


Tamanha acolhida festivaleira deve ter resultado do apelo emocional do tema de O Silêncio dos Outros: a Justiça Universal, segundo a qual, diz no filme o advogado Carlos Slepoy (1949-2017), crimes contra a humanidade estão fora do âmbito das leis de anistia e “podem ser julgados, a qualquer tempo, em todo lugar, por tribunais distintos do mundo”.

Slepoy atuou na causa que obteve a detenção do general Augusto Pinochet, ditador do Chile de 1973 a 1990, ocorrida em Londres, em 1998, por ordem do juiz espanhol Baltasar Garzón. “Nem nós podíamos acreditar que Pinochet fora preso”, diz Slepoy no filme, após ter declarado na época da prisão que ela “manda uma mensagem clara para o mundo. Os criminosos não podem ficar impunes. Esses crimes não prescrevem. Não há fronteiras para persegui-los”.

Com base nesse fundamento, teve início na Espanha, em 2010, o movimento de descendentes de pessoas assassinadas ou desaparecidas; sobreviventes vítimas de tortura e advogados de direitos humanos, para obter condenações por crimes cometidos durante a ditadura de 39 anos do general Francisco Franco, iniciada a partir da Guerra Civil, em 1936, e só encerrada com sua morte, em novembro de 1975.

Para ter êxito, a iniciativa dependia não só de ser acatada a noção de Justiça Universal, como de haver consenso político que permitisse rever o chamado “Pacto do Esquecimento” – a lei promulgada pelo Parlamento espanhol, em 1977, com 296 votos favoráveis, 2 contrários, 18 abstenções e 1 nulo, que além de libertar os presos políticos, anistiou os crimes cometidos no período da ditadura de Franco.

Deveria ser “uma anistia de todos, para todos. Um esquecimento de todos, para todos. Uma lei pode determinar o esquecimento, mas esse esquecimento deve valer para toda a sociedade. Devemos garantir que essa concepção do esquecimento se generalize, pois é a única maneira de darmos as mãos sem rancor”, conforme discurso feito no Parlamento na época, incluído em O Silêncio dos Outros.

A pertinência da questão para nós, brasileiros, dispensa maiores comentários. Basta lembrar que, no Brasil, a chamada Lei da Anistia, sancionada em agosto de 1979, foi solução de compromisso típica que deixou impunes civis e militares responsáveis por crimes cometidos a serviço da ditadura civil-militar de 1964 a 1985. Permitiu, ao mesmo tempo, a volta dos exilados, e contribuiu para o fim da ditadura seis anos depois.

Até hoje, iniciativas como, entre outras, a da Arquidiocese de São Paulo, no início da década de 80, e a da Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011, além do empenho da Corte Interamericana de Direitos Humanos, puderam apenas atribuir responsabilidades, sem obter punição efetiva – a 377 pessoas pela prática de torturas e assassinatos cometidos no período do regime ditatorial, e ao Estado brasileiro, no caso do assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

Quando Garzón começa, em 2010, a investigar os crimes cometidos no período da ditadura, na Espanha, ele é suspenso do poder Judiciário, pendente de julgamento, e acusado de desrespeitar a lei de anistia ao investigar “as mortes ou desaparecimentos de mais de 100 mil civis” na era Franco.

Mesmo assim, ainda em 2010, uma ação judicial é promovida na Argentina para instruir o processo dos responsáveis por crimes cometidos durante a ditadura franquista. No início, com apenas dois peticionários. Mas, depois de cinco anos e meio, chegaram a ser 311.


Evidências indicavam, porém, que essa era uma batalha perdida de antemão. Prevalecia o entendimento de ex-primeiro ministros e do rei da Espanha: “Em nome do espírito de harmonia da transição espanhola, não cabe remover tumbas e ossos ou atirar em cabeças” (José Maria Aznar); “Faz mais sentido evitar repetir essas coisas no futuro, do que mexer o tempo todo no passado” (Mariano Rajoy); “Estes são tempos para construir uma Espanha de braços abertos e mãos estendidas, sem reviver velhos rancores e abrir feridas fechadas” (Felipe VI).

Estabelecido esse contexto nos 23 minutos iniciais de O Silêncio dos Outros, seria de esperar que, nos 73 minutos restantes, Carracedo e Bahar fizessem um documentário à altura da importância do tema da Justiça Universal e da expectativa das vítimas dos crimes da ditadura. Não é, porém, o que ocorre.

O filme resulta aquém da dimensão de sua proposta e sequer consegue dar conta de modo satisfatório da tentativa, algo quixotesca, de (a) levar a julgamento crimes cometidos entre cinco e sete décadas atrás; (b) localizar restos mortais de parentes assassinados e enterrados em sepulturas coletivas; e (c) investigar o roubo de crianças recém-nascidas, ocorrido a partir de 1940, assunto introduzido qual “Deus Ex-Machina”, aos 42 minutos de O Silêncio dos Outros, e tratado apenas de modo superficial.

Incapazes de dar conta da abrangência temática e temporal do filme, Carracedo e Bahar acumulam episódios variados e excesso de informações, sem criar uma forma unitária, nem estruturar uma narrativa que possa ser absorvida.

As vitórias do movimento são modestas – a mais tangível é a decisão da prefeitura de Madri de trocar nomes de algumas avenidas e ruas que evocavam lemas ou personalidades do franquismo. Além disso, O Silêncio dos Outros informa, através da narração, que “vários governos regionais e autônomos aprovaram leis para reconhecer as vítimas, exumar sepulturas comuns e investigar bebês roubados”, concluindo que “talvez estejamos, finalmente, preparados para lembrar” – conjectura sem fundamento aparente.

De outro lado, foi negada a extradição de dois torturadores pedida pela juíza argentina Maria Servini, a partir das denúncias dos peticionários. Mesmo assim, quando os acusados foram interrogados no processo de extradição, em Madri, em 2013, um dos líderes do movimento, José M. Galante, vítima do torturador conhecido como “Billy, o menino”, declarou: “Hoje, pela primeira vez em 77 anos, dois torturadores do franquismo tiveram que responder a perguntas de um juiz sobre os crimes que eles cometeram. É um primeiro passo. Em pouco tempo, nós veremos o primeiro criminoso na cadeia” – o que, de fato, até hoje, provou ser ilusório.

Confirmava-se, dessa maneira, o que “Billy, o menino” teria dito, segundo Galante, enquanto o torturava: “Não tenha ilusões, nada acontecerá conosco. E mais ainda, continuaremos a ser a polícia do futuro.”

“Como a vida é injusta. Não a vida… Os humanos… nós somos injustos”, prossegue Galante.

É com essa dose correta de realismo que María Martín, vista caminhando com bengala e andador, encerra o breve prólogo de O Silêncio dos Outros. Com um fiapo de voz, ela conta que tinha 6 anos quando partidários de Franco pegaram sua mãe, rasparam a cabeça dela e a largaram na beira da estrada de Buenaventura, na província de Toledo. A família foi impedida pelos moradores da cidade de levar o corpo para o cemitério e ela acabou sendo enterrada ali mesmo, em uma sepultura coletiva.

Martin morreu durante a filmagem de O Silêncio dos Outros. Não conseguiu o que mais queria: encontrar os restos mortais da sua mãe, Faustina López, e ser enterrada com eles.

Os humanos são mesmo injustos.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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