Quando criança, Joseca Mokahesi Yanomami gostava de caçar em torno da casa coletiva onde morava. O menino ficava imerso na floresta e corria atrás de pequenos animais, mas nunca ia muito longe. Ao regressar, deitava-se na rede e sonhava com a mata. Às vezes, durante o sonho, a floresta parecia brilhar. Para onde Joseca olhasse, havia uma luz intensa. O garoto acordava com saudade dos animais que frequentavam a mata e saía à procura deles, conta a antropóloga Hanna Limulja na edição deste mês da piauí.
Joseca passou a infância se defrontando com sonhos que não compreendia e que duraram até o início de sua juventude. Não raro, nessas ocasiões, sentia medo. Diante dos estranhos seres de luz que apareciam em alguns daqueles sonhos, ele pensava: “O que está acontecendo? Será que vou morrer?” Um dia, seu pai lhe explicou: “Os seres de luz surgem nos sonhos porque querem que você se torne xamã.”
Depois da explicação, Joseca continuou tendo sonhos com as criaturas luminosas, chamadas de xapiri pë, mas agora não temia mais nada, pois desejava virar um xamã. Por várias razões, o desejo não se concretizou, e os seres de luz pararam de aparecer. As cenas dos sonhos, contudo, permanecem dentro de Joseca, que nasceu em 1971, à beira do Rio Uxiu, no Norte de Roraima. São essas imagens que ele transporta para seus desenhos e suas pinturas.
Desde 2022, quando realizou uma exposição individual no Museu de Arte de São Paulo (Masp), o indígena figura entre os principais artistas contemporâneos do Brasil. Já participou de mostras importantes em países como Austrália, Japão, China, França e Itália. Atualmente, mora na comunidade yanomami Buriti, na margem esquerda do Alto Rio Demini, no Amazonas.
Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto e ver um portfólio do artista neste link.