questões cinematográficas

Auto de Resistência – arte crua para vida bruta

Longa vencedor do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018 revela o lado mais assassino do Estado brasileiro

Eduardo Escorel
06jul2018_11h34
“<i>Auto de Resistência</i> adere de forma incondicional à revolta das mães dos jovens assassinados, o que é compreensível. O desamparo dessas mulheres e a oportunidade que o filme lhes oferece de se manifestarem diante da câmera, pode explicar o fato de prevalecer esse tom emotivo”
Auto de Resistência adere de forma incondicional à revolta das mães dos jovens assassinados, o que é compreensível. O desamparo dessas mulheres e a oportunidade que o filme lhes oferece de se manifestarem diante da câmera, pode explicar o fato de prevalecer esse tom emotivo” FOTO_REPRODUÇÃO AUTO DE RESISTENCIA

Seria de esperar que Auto de Resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho, merecesse acolhida mais digna por parte do mercado exibidor. Afinal, trata-se, em primeiro lugar, do documentário premiado como melhor longa-metragem do 23º Festival de Documentários É Tudo Verdade 2018, realizado em abril. Mas não, não há dignidade no tratamento dado a Auto de Resistência.

Ao estrear quinta-feira passada (28/6), em plena Copa do Mundo e às vésperas das férias escolares, além da época inadequada, o filme foi confinado a salas e sessões que, em sua maioria, o condenaram por antecipação ao fracasso comercial. Lançado em quatro cinemas com cinco sessões diárias ao todo, no Rio, em dois cinemas com duas sessões diárias ao todo, em São Paulo, e mais sete salas em outras cidades, pode até aparentar que Auto de Resistência teria escapado do destino habitual de documentários brasileiros. Na verdade, porém, esses treze cinemas não oferecem grandes possibilidades de atrair público expressivo.

Prova disso é o resultado de bilheteria do primeiro fim de semana. Segundo o Boletim Filme B, computados o resultado de dez das treze salas, Auto de Resistência teve, de quinta-feira a domingo, 465 espectadores, com renda acumulada de 7.264 reais. Apenas no Rio, o filme foi visto por 207 pessoas, o que indica resultado ainda mais fraco em São Paulo e nas demais cidades.

O prêmio de melhor filme no É Tudo Verdade seria resultado de uma decisão excêntrica dos jurados da competição brasileira, sem correspondência com a receptividade de críticos e formadores de opinião? Nada indica que esse seja o caso. Na declaração lida na noite da premiação, os integrantes do júri – a cineasta Betse de Paulo e os cineastas Fernando Grostein Andrade e Tyrell Spencer – fundamentaram sua decisão na coragem da diretora e do diretor de Auto de Resistência que arriscaram “suas vidas, junto com seus personagens inspiradores, para revelar o lado mais assassino do Estado brasileiro […] e quão precária ainda é nossa justiça e tão dependente de trapalhadas ou descuidos de alguns agentes públicos despreparados para que a justiça seja garantida – base sólida do Estado de direito e de uma sociedade moderna, num país em que a verdade parece uma obra de ficção”.



No dia da estreia, o premiado filme foi saudado no Globo com aplausos de pé no Segundo Caderno e um artigo entusiasmado na página de opinião: “Trata-se de um excelente documentário”, escreve Ascânio Seleme, “que mostra com clareza assombrosa casos de homicídios por descuido, despreparo, arrogância ou simples instinto assassino de policiais que acabam de maneira fraudulenta recebendo o selo de auto de resistência.” Selo este que serve de justificativa para a alegação de que os assassinatos foram cometidos em legítima defesa, base jurídica da impunidade dos assassinos.

Ao tratar Auto de Resistência de modo impróprio, o mercado nada mais faz do que ratificar sua já consolidada especialização no entretenimento de massa. Discrimina, desse modo, filmes que têm outros propósitos como, por exemplo, retratar a tragédia social do país. Distribuidores e exibidores colaboram, assim fazendo, mesmo sem terem essa intenção explícita, para encobrir os crimes e a impunidade que o filme denuncia. Silenciar Auto de Resistência, tolhendo seu alcance, nada mais é do que ser conivente com a perpetuação dos assassinatos de jovens cometidos pela polícia.

Mesmo em um mercado ocupado por Homem-Formiga e a Vespa, Os Incríveis 2 e Jurassic World: Reino Ameaçado, é inaceitável não haver espaço para oferecer a Auto de Resistência um maior número de salas, sessões e horários que dessem ao filme a possibilidade de alcançar público mais amplo, romper a barreira do silêncio da sociedade e tornar mais visível e audível sua justa indignação.

Com Auto de Resistência, Natasha Neri e Lula Carvalho demonstram ainda haver alguns resistentes indo contracorrente da adesão generalizada do cinema brasileiro, incentivada pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), tanto aos filmes de consumo fácil, moldados pelo padrão televisivo, quanto aos personalistas e autocomplacentes, supostamente de vanguarda. Auto de Resistência não é o único a se diferenciar dessas tendências dominantes, é apenas um dos mais contundentes.

Auto de Resistência adere de forma incondicional à revolta das mães dos jovens assassinados, o que é compreensível. O desamparo dessas mulheres e a oportunidade que o filme lhes oferece de se manifestarem diante da câmera, pode explicar o fato de prevalecer esse tom emotivo. Fica a dúvida se interação mais próxima com as personagens, e certa isenção por parte de Natasha Neri e Lula Carvalho, não tornariam Auto de Resistência mais esclarecedor.

Se não cabe ao historiador ser promotor, nem advogado de defesa, o mesmo deve valer para o documentarista. Não é sua função acusar ou defender. Seu compromisso básico é tentar entender e compartilhar essa busca de compreensão da melhor forma que for capaz. Nesse sentido, a catarse emotiva de Auto de Resistência não parece ser boa conselheira. Ela é capaz de galvanizar críticos e espectadores, mas tem efeito fugaz.

Reunindo gravações de diversas procedências, além daquelas gravadas especialmente para o filme, Auto de Resistência tem aparência visual heterogênea, semelhante a uma colcha de retalhos feita com tecidos variados, de formato, tamanho e cores diferentes. Esse aspecto, inevitável em documentários que recorrem a imagens de arquivo de baixa qualidade técnica, não parece ter preocupado os diretores e a montadora, Marília Moraes. Além do tom emotivo, eles deram ao filme um aspecto rústico, sem polimento, destituído de unidade formal, na tentativa talvez de refletir a brutalidade do tema tratado. Nisso, também foram muito bem-sucedidos.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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