guerra do PCC

Azulejos, romance e cocaína

As pistas que a Polícia Federal seguiu até prender em Moçambique o principal fornecedor do PCC, foragido havia 21 anos

Allan de Abreu
23jun2020_14h57
Ilustração: Carvall

Aliado número um e principal fornecedor de cocaína do Primeiro Comando da Capital (PCC), o narcotraficante Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, 49 anos, foi traído pelo coração. Uma paciente e intrincada investigação da Polícia Federal sobre sua namorada, uma jovem de 25 anos, levou à prisão de Fuminho em Moçambique, em abril, após 21 anos foragido. Uma história que envolve uma academia de ginástica na África do Sul, uma importadora de azulejos de Maputo e um agente da polícia norte-americana disfarçado de turista em um hotel de alto padrão. A prisão de Fuminho, um dos maiores traficantes brasileiros, abalou a principal fonte de financiamento do PCC, uma vez que ele, além de fornecer cocaína para a facção, era o articulador de uma ampla rede de exportação da droga para a Europa e os Estados Unidos. O DEA, polícia antidrogas norte-americana, calcula que Fuminho seja o responsável pela internação de pelo menos dez toneladas de cocaína no país.

A Polícia Federal começou a investigar Fuminho em abril de 2018, dois meses após o assassinato, no Ceará, de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, duas lideranças do PCC – o crime teria sido encomendado por Fuminho, braço direito de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, principal liderança da facção. Com autorização judicial, a PF passou a monitorar os telefonemas e e-mails da ex-mulher, da filha, dos quatro irmãos e de um sobrinho de Fuminho. Descobriu que as duas primeiras mantêm negócios imobiliários no estado de São Paulo, mas não encontrou pistas que levassem ao alvo. Somente em agosto chegou à PF em Brasília a informação de que  Fuminho namorava uma jovem filha do também narcotraficante do PCC Orlando Marques dos Santos, o Velho Orlando ou Sarará. Ela conheceu Fuminho em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde cursava medicina enquanto ele administrava um sofisticado esquema de produção e exportação de cocaína. Alguns dos e-mails da estudante interceptados pela PF citavam um sujeito chamado Luís Gomes de Jesus. Ao pesquisar nas bases de dados da PF, os agentes descobriram que os documentos de Jesus (carteiras de identidade e de habilitação, além de passaporte) continham as digitais e a imagem de Fuminho.

Com o auxílio da polícia boliviana, os quatro agentes da PF que cuidavam do caso souberam que, em 19 de março de 2018 (um mês após os assassinatos de Gegê e Paca no Ceará), Fuminho e a namorada haviam embarcado em um voo de Santa Cruz de la Sierra rumo a Buenos Aires, onde tomaram novo avião com destino a Joanesburgo, África do Sul. Os e-mails do casal citavam o endereço de uma academia de ginástica na cidade sul-africana, onde o casal estava matriculado. Também informavam que as mensalidades da academia eram pagas pelo nigeriano Kenneth Chiedu Kodilinye, casado com a brasileira Josiana Cristina de Souza. Kodilinye foi preso em flagrante com 2 kg de cocaína em 1999 em um shopping de São Paulo. Em 2015 e 2016, ele e a mulher, segundo a PF, mantiveram um esquema de tráfico de cocaína por meio de mulas do aeroporto de Guarulhos, São Paulo, até a China. Além disso, Josiana é dona de uma empresa sediada em Moçambique que, entre 2016 e 2019, fez quatro importações de cargas de azulejos do porto de Santos, controlado pelo PCC, para a África – a PF suspeita que os carregamentos escondessem cocaína.

No início deste ano, Fuminho e a namorada viajaram para a capital moçambicana, Maputo, possivelmente para tratar dos interesses da empresa de Josiana. Quando tentaram retornar à África do Sul, no entanto, encontraram os aeroportos fechados por causa da pandemia de Covid-19 – somente a namorada conseguiu retornar ao Brasil, no dia 24 de fevereiro. A PF começou então a preparar um plano para prender o traficante em Moçambique, mas faltava saber a localização exata do casal em Maputo. Como os voos comerciais internacionais estavam todos cancelados e o envio de um jato com o logotipo da PF chamaria demais as atenções na África, o delegado Elvis Secco, chefe da Coordenadoria Geral de Polícia de Repressão a Drogas e Crime Organizado (CGPRE), da PF, e coordenador da operação, decidiu acionar o escritório do Drug Enforcement Administration (DEA) em Maputo e, por meio da embaixada brasileira, a polícia moçambicana.



A suspeita era de que o traficante brasileiro estivesse em alguns dos sete hotéis de alto padrão na capital do país. Após uma semana de diligências, surgiram indícios de que Fuminho estivesse hospedado no Montebelo Indy. Um agente do DEA e dois policiais moçambicanos hospedaram-se no hotel em um fim de semana, disfarçados de turistas, cada um com a foto do traficante brasileiro no celular. No domingo, dia 12 de abril, um deles deparou com Fuminho, com o pé direito engessado, na varanda do chalé onde estava hospedado. Avisaram Secco no Brasil, e o delegado autorizou a prisão. Na manhã do dia seguinte, os agentes invadiram o local e finalmente detiveram o brasileiro.

Fuminho pouco antes de ser preso – Foto: PF

 

Com Fuminho capturado, o próximo desafio da PF foi trazer o alvo para o Brasil. O Ministério Público moçambicano informou à Embaixada do Brasil que pediria à Justiça a expulsão do traficante do país e que o caso estaria resolvido em três dias; enquanto isso, o delegado Secco solicitou ao Ministério da Defesa um jato da Força Aérea Brasileira para buscar Fuminho em Maputo. No dia 19, em uma operação sigilosa, o traficante foi entregue pela polícia local aos agentes da PF na pista do aeroporto da capital moçambicana. Após uma rápida escala em Guarulhos, o avião da FAB pousou em Cascavel, Oeste do Paraná, de onde um helicóptero da PF levou Fuminho para a penitenciária federal de Catanduvas, cidade vizinha.

No Brasil, o traficante é réu em duas ações penais na Justiça: além do envolvimento direto nos assassinatos de Gegê do Mangue e Paca, Fuminho é acusado de tráfico de drogas e de armas, além de formação de quadrilha, decorrente da descoberta, pela PM paulista, de um laboratório de refino de cocaína mantido pelo PCC em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, em 2013 – no local havia 450 kg da droga, oito fuzis, três rifles e duas submetralhadoras. O DEA busca provas para processá-lo nos Estados Unidos por tráfico de drogas. O advogado de Fuminho, Eduardo Dias Durante, não se pronunciou sobre as acusações de tráfico de drogas que pesam sobre o seu cliente. Sobre os homicídios no Ceará, negou o envolvimento de Fuminho.

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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