questões cinematográficas

Baronesa – lufada de jovem talento

Filme mostra tragédia social com rara demonstração de talento e sensibilidade

Baronesa – lufada de jovem talento
06set2018_07h00
“O retrato de Andreia é pungente e há mais de um momento em que a tristeza de seu olhar é nada menos que lancinante”, escreve Escorel
“O retrato de Andreia é pungente e há mais de um momento em que a tristeza de seu olhar é nada menos que lancinante”, escreve Escorel

Não é comum filmes de conclusão de curso terem a alta qualidade de Baronesa, documentário criado no Centro Universitário UNA, em Minas Gerais, no ano de 2013, com o qual a diretora e roteirista Juliana Antunes, além da diretora de fotografia e câmera Fernanda de Sena, dão rara demonstração de talento e sensibilidade.

Lançado em 14 de junho, Baronesa está disponível agora no Now, o serviço sob demanda da NET. Quem perdeu a exibição no cinema, como foi meu caso, deve aproveitar a oportunidade de ver um filme verdadeiramente excepcional, que recebeu o principal prêmio na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2017, e fez uma bela carreira em festivais no exterior.

Sem artifícios, Antunes e Sena retratam um pequeno grupo de moradoras e um morador do bairro Juliana, além da Vila Mariquinhas e da Ocupação Esperança, a bem dizer duas favelas da periferia de Belo Horizonte. Em destaque está a personagem vivida por Andreia Pereira de Sousa e seus filhos, ainda crianças pequenas. O pai, a quem Andreia se refere constantemente, está preso. Participam também uma amiga, Leide Ferreira, além de um amigo metido a conquistador, Felipe Rangel Soares.

É notável o partido que Antunes e Sena tiram desse conjunto de atores não profissionais. O retrato de Andreia é pungente e há mais de um momento em que a tristeza de seu olhar é nada menos que lancinante. Ao perfil das personagens se adiciona um retrato realista da favela, sem laivos de miserabilismo, feito com imagens simples, de grande beleza plástica – planos em geral longos e fixos.

Distante do que seria uma reportagem jornalística, Baronesa incorpora as melhores lições do neorrealismo, combinando ficção e documentário – não profissionais atuam, representando em parte a si mesmas, mas também situações criadas, no próprio ambiente em que vivem. Sem ser explicitada, uma convenção é adotada, indicando que se trata, de uma encenação realista – conscientes de que estão sendo gravadas, como em um filme de ficção convencional, a presença da câmera é ignorada.

A inspiração de Antunes parece ter vindo, ao menos em parte, de No Quarto de Vanda (2000), de Pedro Costa, sem o mesmo hiper-realismo radical e a dureza. Mais leve, Baronesa exige menos do espectador. Ao pensar no filme, a impressão, provavelmente errada, é que Antunes absorveu, reelaborou e atualizou as palavras do roteirista e teórico Cesare Zavattini (1902-1989), ditas no Colóquio Internacional de Cinematografia, realizado em 1949, na Itália.

Para Zavattini, o cinema deveria retomar “o caminho apontado pelos irmãos Lumière, interessando-se pelos outros […] com a análise que leva ao reconhecimento da existência do sofrimento dos homens em sua duração real”. Contrapondo-se às narrativas ficcionais baseadas no enredo, Zavattini postulou “um cinema capaz de dar conta de noventa minutos consecutivos na vida de um homem […] Observemos nosso homem: anda, sorri, fala, vocês podem vê-lo de todos os lados, aproximar-se dele, afastar-se, estudar cada gesto seu e voltar a estudá-lo como se estivessem na moviola. Agora, iluminado por muitas luzes, gira lentamente sobre si mesmo, como a Terra, e nós o observamos cheios de interesse, abrimos os olhos sobre ele que está diante de nós sem enredo, sem história aparente. Parece que estamos na véspera do dia que reencontraremos plasticamente o valor original da nossa imagem.”

“Qualquer momento da vida de nosso próximo tornava-se digno de interesse” para Zavattini e ele convidava o cinema “a se debruçar sobre o homem comum… esse homem do povo, novo protagonista da história.”

O primeiro plano de Baronesa, por si só, anuncia no tom preciso o que virá em seguida. O corpo feminino requebra, em close, no ritmo de Que Grave É Esse, funk de Mc Delano: “Psiu/Que grave é esse pretinha que teu bumbum balança/Que grave é esse loirinha que teu bumbum balança/Que grave é esse moreninha que teu bumbum balança/E faz tum, tum, tum e a menina dança/E faz tum, tum, tum e a menina dança/E faz tum, tum, tum, e a menina dança” etc.

Baronesa consegue ainda o feito árduo de mostrar uma tragédia social e humana implícita. Há uma aparente normalidade no que é visto. Transparece certa alegria, em especial no primeiro terço do filme. Situações cotidianas vão sendo vividas, questões graves são mencionadas, mas sem eventos espetaculosos em cena, até o imprevisto que eclode próximo ao final. Não se vê, embora esteja presente o tempo todo, o peso das ameaças que levam Andreia a sonhar em “meter o pé para a Baronesa”, um outro bairro, talvez idealizado.

Para quem comenta cinema é um alívio se deparar, em meio ao que costuma assistir semana a semana, com um filme como Baronesa. Saudemos, pois, Juliana Antunes e toda sua equipe.

Baronesa – lufada de jovem talento

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