questões cinematográficas

A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História – interessante e excessivo

Realização tardia e bem-sucedida do neorrealismo parece um documentário, mas é encenado do primeiro ao último plano

Eduardo Escorel
17maio2018_19h45
REPRODUÇÃO

O mesmo filme pode ser adotado por insurgentes e por forças contrárias a insurreições? O documentário Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História (2017), de Malek Bensmaïl, mostra que sim. Tanto os Panteras Negras, partido revolucionário marxista, fundado na Califórnia em 1966, quanto o Exército dos Estados Unidos, recorreram a A Batalha de Argel (1966), de Gillo Pontecorvo, uns para promover, outros para combater ações rebeldes.

Exibido em competição no Festival É Tudo Verdade realizado em abril deste ano, Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História passou meio despercebido, recebendo menos atenção do que merecia. Cássio Starling Carlos foi um dos poucos a chamar atenção na Ilustrada (Folha de S.Paulo, 17 de abril) para o fato de A Batalha de Argel ter inspirado projetos rebeldes, nos anos 60, e servido, a partir de 2003, como material didático no treinamento de soldados americanos para combaterem no Iraque.

Não lembro de muitos exemplos equivalentes na história do cinema – filmes notáveis que, ao servirem a dois senhores, expõem a ambiguidade de sua linguagem persuasiva. O caso mais famoso talvez ainda seja o de Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei M. Eisenstein, feito para celebrar o 20º aniversário da revolução russa de 1905, e admirado pelo ministro da Propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels.

Além de indicar o filme de Eisenstein como exemplo a ser emulado pela indústria alemã, Goebbels fez o elogio de Encouraçado Potemkin em discurso de março de 1933: “Eis uma obra realizada de maneira fabulosa, que supõe uma arte sem igual em matéria de cinema. A razão ‘decisiva’ é o espírito. Esse filme poderia tornar bolchevique aquele cujas ideias não estivessem bem consolidadas.” (Francis Courtade e Pierre Cadars, Histoire du Cinéma Nazi, 1972. Sem edição brasileira.)

O que Goebbels admira, fica claro, é o poder persuasivo da linguagem, não o motim dos marinheiros e o massacre dos manifestantes pacíficos na escadaria de Odessa. Sinal de que “o cinema calculadamente político não se esgota na mensagem”, como Starling Carlos escreveu, com razão.

No final de A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História, uma citação de Raymond Aron em forma de legenda indica que o diretor do documentário, Bensmaïl, está atento à falta de controle sobre a destinação e uso de filmes: “Seres humanos fazem história mas não sabem qual espécie de história eles estão fazendo.”

A frase parece ser uma paráfrase da conhecida citação de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx: “Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram.” (Tradução de Nélio Schneider do original alemão, Boitempo Editorial, 2011.)

Pensando em A Batalha de Argel, talvez seja possível dizer que cineastas fazem filmes, mas não sabem qual espécie de filme estão fazendo. Dirigido por Pontecorvo, a partir do roteiro de Franco Solinas, o fato de tratar da insurreição (1954-60) dos argelinos contra as tropas francesas de ocupação colonial, ocorrida na cidadela intramuros de Argel – o Casbá –, com o passar dos anos, demonstrou ser apenas um dos aspectos em questão.

John Nagl, tenente-coronel do Exército dos Estados Unidos, especialista em enfrentar insurreições, declara no filme ter assistido A Batalha de Argel “quase como um documentário” – embora seja uma das mais expressivas realizações tardias do neorrealismo e pareça mesmo um documentário, o filme é, de fato, encenado do primeiro ao último plano.

Nagl, porém, considerou A Batalha de Argel “um filme de treinamento” que “gostaria de ter assistido mais cedo para treinar os soldados que estavam indo para o Iraque”. Seria, para ser mais preciso, a ferramenta correta a ser usada para educar estudantes de graduação em combate a insurreições. “[…] Eu vi o filme como uma visão interessante da conspiração e do planejamento de uma insurreição, e de algumas maneiras de compreender melhor as insurreições contra as quais lutei no Iraque, no Afeganistão […]”, afirmou Nagl.

A Batalha de Argel mostra bem, segundo o militar, “como é importante e difícil colher informações em uma guerra irregular. Para enfrentar insurreições, a parte difícil é identificar qual dos milhões de seres humanos – todos vestidos da mesma maneira, todos parecidos – é seu inimigo”. O filme serviria para “incutir uma ideia na cabeça de militares atentos a alvos muito difíceis de matar para que saibam no que devem se concentrar, e saber quem realmente é o inimigo – isso é inacreditavelmente difícil e qualquer coisa que ajude a formar essa mentalidade vale o esforço.”

A perspectiva do professor e cineasta Jamal Joseph, também escritor e ativista, é outra. Ex-integrante do partido Panteras Negras e do Exército Negro de Libertação, ele foi processado como integrante do Panther 21, grupo acusado de atentados a bomba e ataques de espingarda a delegacias de polícia, em 1969. Para Joseph, que cumpriu 5 anos e meio de prisão, “muito do que viram no filme [A Batalha de Argel] era uma premonição […] Então, quando o governo transformou áreas do Casbá em campos de concentração, nós achamos que a mesma coisa iria acontecer na comunidade negra. Nós achamos que chegaria o dia em que haveria arame farpado, postos de controle. E nós queríamos assegurar que quando esse dia chegasse as pessoas estariam organizadas e haveria uma resistência que não seria liderada pelos Panthers, mas seria liderada pelo povo.”

Uma das provas apreendidas pela polícia na casa da avó de Joseph para incriminá-lo foi uma cópia de A Batalha de Argel, alegando que os Panthers usavam o filme no treinamento para a guerra de guerrilha que perturbaria a vida em Nova York.

A grande omissão dos comentários feitos sobre A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História, quando o documentário foi exibido no É Tudo Verdade, é não mencionarem o elo que há entre a prática de tortura na Argélia e no Brasil. Em um caso, por parte dos paraquedistas franceses em defesa do poder colonial, no outro por militares e policiais brasileiros, em defesa da ditadura das décadas de 60 e 70.

Aussaresses é o nome, mencionado apenas uma vez no filme, mas que deveria ter suscitado reações, pois é ele o que liga a Argélia ao Brasil. Quem se refere em seu depoimento ao general Paul Aussaresses é Ahmed Benyahi, estudante e militante de esquerda nos anos 60. Benyahi havia participado da filmagem de A Batalha de Argel em cena na qual é torturado, quando Ben Bella foi derrubado da Presidência e o coronel Houari Boumedienne passou a presidir o Conselho da Revolução. Benyahi conta que “os tiros e os tanques não eram mais os da filmagem, mas os da derrubada revolucionária, ou golpe de Estado, dependendo do ponto de vista”. Naquele momento, os estudantes eram a vanguarda, e ele passou a fazer parte dos suspeitos.

Benyahi foi “sequestrado, pouco depois, confinado e torturado”, relatou, no filme. “Quer dizer, o que era o roteiro de um filme se tornou uma tragédia real para um jovem cheio de esperança. Fui vendado, me levaram de carro e eu desapareci de circulação. Fui submetido a todas as formas de tortura, menos eletrochoques. É uma espécie de legado, dos métodos de tortura de Aussaresses. E tenho as sequelas até hoje”.

Desde 2000, o general Aussaresses havia admitido “sem lamentar nem ter remorso” a prática de tortura durante a guerra da Argélia (Le Monde, 23 de novembro): “De fato, nós executávamos os presos”, ele afirma, reconhecendo terem desaparecido cerca de 3 mil detidos. “Quando cheguei na Argélia (em 1957) a tortura era generalizada […] não creio que se possa fazer de outra maneira. […] De minha parte, não me arrependo.”

Após a publicação pela Civilização Brasileira, em 2016, de A Tortura Como Arma de Guerra – Da Argélia ao Brasil, de Leneide Duarte-Plon, a atuação do general Aussaresses tornou-se de conhecimento mais amplo entre nós. Ele esteve nos Estados Unidos e no Brasil, como instrutor de técnicas de repressão, inclusive tortura, depois de ter atuado na Argélia. Nomeado adido militar da França no Brasil, em 1973, o general Aussaresses teria ficado amigo do general João Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações, e ensinado no Centro de Instrução de Guerra na Selva, criado em 1964.

A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História é tão excessivo quanto interessante. Perde-se pelo acúmulo, não apenas de entrevistas, mas também de múltiplos aspectos relacionados ao filme de Pontecorvo – ainda assim, preserva grande interesse.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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