questões cinematográficas

Benzinho – expectativas frustradas e sonhos realizados

Com qualidade acima da média, longa causa estranheza ao se situar em reino da fantasia, fora do tempo e espaço reais

Eduardo Escorel
13set2018_08h06
Adriana Esteves, Otávio Müller e Karine Teles, em cena do longa; drama aborda as angustias de uma família de classe média brasileira
Adriana Esteves, Otávio Müller e Karine Teles, em cena do longa; drama aborda as angustias de uma família de classe média brasileira

Antes de assistir a Benzinho, quem for ao Espaço Itaú, no Rio, e também, suponho, a outras salas do mesmo circuito exibidor, será constrangido a ver os trailers do que parecem ser duas tolices – Crô em Família e O Candidato Honesto 2, representantes prototípicos da principal vertente, em termos de ocupação de telas, do cinema brasileiro atual.

Mesmo baseada apenas no trailer, minha impressão é que o “vínculo com a atualidade política” de O Candidato Honesto 2, valorizado por Jean-Claude Bernardet em breve comentário na sua página do Facebook (9/9/2018), não exime o filme de ser uma tremenda bobajada ou, nos termos de Mario Sergio Conti, um dos piores filmes da sétima arte, “[…] rebento de um gênero consagrado, a palhaçada grossa que apela à boçalidade dos espectadores […]” (Folha de S.Paulo, 8/9/2018).

Benzinho, de Gustavo Pizzi, também corroteirista, estaria por sua vez entre os filmes mais “refinados”, mas sem vínculo com o momento político do país, que o ensaísta Bernardet, sempre uma voz a ser ouvida, contrapõem a O Candidato Honesto 2? Surpreende que ele sublinhe a relevância do tema do filme, sem mencionar a forma narrativa e o tratamento dado ao assunto (a ressalva a fazer é que o comentário é breve, praticamente uma frase, e pode não representar o entendimento mais abrangente de Bernardet).

É compreensível, por outro lado, que o jornalista Conti destaque o tema de O Candidato Honesto 2. De fato, é notório que filmes de ficção brasileiros de maior evidência no mercado não tratam, de forma geral, de questões contemporâneas da maior gravidade. Conti assinala que Benzinho é “um melodrama convencional e despolitizado”, mas “ao menos fala de uma família de classe média que peleja para não afundar junto com o Brasil”.

Aparentemente distantes, o ensaísta Bernardet e o jornalista Conti se aproximam ao valorizarem ambos a conexão de O Candidato Honesto 2 com a conjuntura política atual.

Na sessão em que assisti a Benzinho, sábado, 8 de setembro, às 16 horas, a projeção começou com as luzes da sala acesas. E continuou assim por alguns minutos, sem qualquer reação da plateia, até que um espectador abnegado levantou do seu lugar e saiu para avisar alguém do que ocorria. Os funcionários que encontrou estavam em meio a uma conversa animada e não gostaram de ser interrompidos. Mesmo relutante, um deles entrou para conferir que não se tratava de uma alucinação. Diante da evidência, foi providenciar para que as luzes fossem apagadas. Enquanto isso, o filme continuava a ser projetado, sem qualquer interrupção e assim continuou depois do espectador abnegado ter voltado ao seu lugar. Foi preciso esperar mais alguns instantes até a sala finalmente ser escurecida. Durante o tempo que durou essa pequena epopeia, não houve uma única manifestação de protesto da plateia, nem ocorreu aos responsáveis pelo cinema recomeçarem o filme do início. Ao menos naquela sessão em que cerca de metade dos lugares estavam ocupados, o prejuízo feito à recepção do filme deve ter sido grande e irreversível. Mas o que chamou mais atenção foi mesmo a passividade do público diante do descalabro.

Benzinho causa certa estranheza ao se situar em uma espécie de reino da fantasia, fora do tempo e espaço reais, apesar de sua aparência realista e de fazer referências passageiras e indiretas a Petrópolis, a cidade onde a ação se passa. Diria que é um filme com aspectos alegóricos, sem ser alegórico de todo.

Situando-se bem acima da qualidade média dos filmes brasileiros de ficção recentes, Benzinho causará, porém, certa dificuldade ao espectador que queira situar socialmente, com precisão, a família de classe média do casal Irene (Karine Teles, também corroteirista) e Klaus (Otávio Müller).

Klaus é dono de uma papelaria e copiadora à beira da falência, caso exemplar de destruição criativa. Irene está se graduando no ensino médio. A família mora em uma casa dilapidada na qual todos entram e saem pela janela – sinal de condição de vida precária e elogio à improvisação. Ao mesmo tempo, no que parece ser incongruente, são proprietários de uma casa de praia em Araruama, que Klaus quer vender para financiar seus projetos sonhadores.

Irene e Klaus vivem de expectativas frustradas – esse é o traço do casal que Benzinho acentua. Depois de receber o diploma de graduação no ensino médio, Irene tenta se empregar sem sucesso em uma tecelagem prestes a fechar, vencida pela concorrência de produtos chineses importados. Klaus sonha, em vão, ter uma livraria e, depois, um comércio de cartões-postais e sanduíches no parque da prefeitura.

Para os filhos de Irene e Klaus a realização de suas aspirações se coloca de outra maneira. Diante da resistência inicial de Irene à ida de Fernando (Konstantino Sarris), seu primogênito, à Alemanha para jogar handball, ele diz que se não for o futuro dele vai acabar. Ou seja, não admite ter seu desejo frustrado e acaba partindo para o exterior. Meio desajeitado, Rodrigo (Luan Teles), filho mais moço do que Fernando, carrega sua tuba pela cidade, mas no final, todo paramentado, parece satisfeito, integrado à banda que participa do desfile de encerramento do filme.

Benzinho pode ser definido como um filme sobre emancipação. Deitados em uma grande boia, Irene e Fernando, mãe e filho, estão literalmente enrodilhados. É uma imagem emblemática, apesar de perder algo de sua força por ser repetida mais de uma vez e se tornar redundante. Os corpos entrelaçados expressam a ruptura que Fernando precisará fazer para realizar seu sonho no exterior, praticando um esporte pouco usual no Brasil. Ou seja, em outros termos, voltando as costas para seu país.

Benzinho é um filme arguto e merece ser reconhecido por isso, mesmo sendo desvinculado da atualidade política.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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