questões de mídia e política

Bolsonaro aposta no comércio

Presidente visita lojas e, nas redes, organiza movimento contra isolamento social

Felippe Aníbal
31mar2020_19h29
Fabio Pupo/Folhapress

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a manhã do último domingo (29) em um périplo por vários pontos de comércio de Brasília e das cidades-satélites. Apesar das reiteradas orientações de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para que os brasileiros façam isolamento social por causa do novo coronavírus, o presidente foi a lojas e cumprimentou pessoas. Gravou vídeos que, rapidamente, foram disseminados em suas redes sociais e em grupos bolsonaristas no WhatsApp e no Telegram. A ofensiva de Bolsonaro conduziu sua claque para, nas redes, pressionar pela retomada da atividade econômica e pelo fim da quarentena. Em um primeiro momento, deu certo. Postagens relacionadas a “comércio” ou a termos equivalentes se multiplicaram – corroborando que a retomada da atividade econômica estava no foco da militância virtual. Nos últimos dois dias, no entanto, o movimento arrefeceu, e a tese da reabertura do comércio perdeu força nas redes.

Monitoramento realizado pela consultoria Arquimedes a pedido da piauí aponta que os conteúdos disseminados por Bolsonaro ajudaram a reverter a queda de postagens relacionadas à expressão “comércio”. Na semana passada, após o pronunciamento em rede nacional em que insuflou os brasileiros a voltar ao trabalho, as postagens que citavam “comércio” chegaram ao pico de 62,5 mil posts – conforme a amostragem analisada pela consultoria. Com a entrevista de Mandetta no último sábado (28), as postagens caíram. O que deu novo fôlego aos tuítes foi justamente a visita de Bolsonaro a pontos comerciais, levando o volume de tuítes a subir novamente, chegando perto da casa dos 38,1 mil.

Os efeitos da nova ofensiva de Bolsonaro duraram pouco. Na segunda-feira (30), as postagens no Twitter relacionadas a “comércio” voltaram a recuar para baixo das casa dos 25 mil. O movimento parece ter repercutido de acordo com dois fatores principais: nova entrevista do ministro Mandetta enfatizando a necessidade de isolamento social; e o fato de Twitter e Facebook terem apagado vídeos postados por Bolsonaro – justamente as gravações em que ele visitava pontos comerciais, cercado de várias pessoas. No caso do Twitter, os conteúdos foram deletados por violarem as regras de uso da rede social e por serem “contra informações de saúde pública orientadas por fontes oficiais que possam colocar as pessoas em maior risco de transmitir Covid-19”. A retirada dos vídeos do ar teve peso, porque são os conteúdos produzidos pelo próprio Bolsonaro que, primordialmente, alimentam sua militância virtual.

É a partir do presidente que as mensagens se disseminam. Conforme o monitoramento da Arquimedes, um post do presidente em sua conta no Facebook foi o que mais contribuiu para alavancar menções a “comércio” nas redes: "38 milhões de autônomos já foram atingidos. Se as empresas não produzirem não pagarão salários. Se a economia colapsar os servidores públicos também não receberão. Devemos abrir o comércio e tudo fazer para preservar a saúde dos idosos e portadores de comorbidades. Deus abençoe o Brasil e nos livre desse mal”, escreveu Bolsonaro numa publicação com mais de 66,1 mil compartilhamentos. Em seguida, estão outras duas publicações no Facebook de Bolsonaro: um vídeo sobre a mesma temática compartilhada pelo presidente (com 44 mil compartilhamentos) e a gravação feita após o presidente ter dado uma volta no comércio de Brasília (29 mil compartilhamentos). Na última segunda-feira (30), o presidente voltou a dar destaque ao tema: postou em suas redes um vídeo em que a ex-apresentadora do SBT Liliane Ventura defende o fim da quarentena. No Facebook, o conteúdo já havia atingido 51 mil compartilhamentos até o início da noite desta terça-feira (31).

 

Infografia: Emily Almeida

 

Pesquisa realizada pelo instituto Ideia Big Data, que ouviu 1.555 pessoas de todas as regiões, entre 24 e 25 de março, revelou o nível de desespero do brasileiro com a crise associada à epidemia: 47% dos entrevistados revelaram não ter reserva financeira emergencial para se manter ao longo dos dias parados. Nesta terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que o desemprego no país aumentou para 11,6% da população entre dezembro de 2019 e fevereiro deste ano – antes, portanto, da pandemia. Na semana passada, o governo federal chegou a publicar uma Medida Provisória (MP) autorizando a suspensão dos contratos de trabalho por quatro meses e o pagamento de salários neste período, mas recuou. Nesta semana, por causa da pandemia, o Senado aprovou a concessão de um auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores informais, pelo período de três meses. Para tirar o benefício do papel, o projeto de lei precisa ser sancionado por Bolsonaro.

Desde o último domingo, as entrelinhas dos vídeos publicados pelo presidente durante e após a saída do comércio foram assimiladas pelos apoiadores bolsonaristas. Por um lado, começaram a se alastrar postagens incentivando a realização de novas carreatas, que os membros dos grupos voltassem ao trabalho e em apoio à reabertura da atividade econômica, colocando fim ao isolamento social, além de mensagens inflamadas. “Sem o comércio e a indústria funcionando, o Brasil entrará em colapso econômico em pouco tempo. A velha política e a mídia sabem disso. Querem ver a desgraça e não estão preocupados com os milhões de pais e mães de família que vão morrer com isso”, diz uma postagem atribuída a Erick Harrison. “O afastamento social quer te prejudicar. O comunismo tenta destruir o capitalismo e isso já é um fato conhecido”, escreveu Silas, no grupo de WhatsApp “Vem Pra Rua Brasil”. No mesmo canal, Eroneide assinalou que a pandemia e o confinamento “é tudo conspiração contra o Presidente e nós Brasileiros” [sic].

Outro conteúdo que viralizou nos grupos bolsonaristas foi um vídeo gravado pelo empresário Luiz Galebe, que se tornou relativamente conhecido por ter sido o fundador e apresentador da TV Shop Tour – especializada em vendas pela tevê. Em uma gravação de cinco minutos e meio, ele menciona teorias da conspiração – como a que a Rede Globo teria sido vendida ao Partido Comunista da China – e, principalmente, defende a retomada das atividades econômicas. “O povo está indo pras ruas e não tá fazendo mal. Estão escondendo os números da realidade. Tem um hospital no Rio [de Janeiro] preparado para receber trezentos pacientes de uma vez. Estão com doze: quatro na UTI e oito na [unidade] semi [intensiva]”, disse. “O que eu quero é que vocês sustentem o Bolsonaro. Quem votou no Bolsonaro tem que segurar as pontas e quem não votou e tá vendo que ele tá fazendo um bom serviço não deixa essa cachorrada nova entrar, porque o que eles querem é voltar a ser o que era” [sic], disse. Só na conta de Galebe no Facebook, o vídeo teve mais de 3,4 mil reações e 4 mil compartilhamentos.

Também ganhou corpo nos grupos bolsonaristas o compartilhamento de mensagens e teorias pondo em dúvida a gravidade da pandemia. Uma das mais compartilhadas – uma notícia falsa –, diz que a “OMS [Organização Mundial de Saúde] muda o seu discurso sobre isolamento social e vai de acordo com o que o presidente do Brasil tem dito”. Outro vídeo com adesão entre defensores virtuais de Bolsonaro afirma que “estão falsificando óbitos de Covid-19”, como forma de inflar estatísticas e “prejudicar o presidente”. Também têm viralizado postagens afirmando que o coronavírus foi desenvolvido em laboratório pela China para atingir os Estados Unidos, além vídeos, textos e memes que mencionam a hidroxicloroquina, remédio usado contra a malária, como forma de combate ao coronavírus – hipótese não comprovada cientificamente.

O isolamento social vem sendo recomendado pelo Ministério da Saúde desde a confirmação dos primeiros casos no Brasil. A Covid-19 acometeu pessoas próximas do presidente, como o chefe da Secretaria de Comunicação (Secom), Fabio Wajngarten, e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, general Augusto Heleno. No total, 23 pessoas que acompanharam Bolsonaro em uma viagem oficial aos Estados Unidos foram infectados pelo coronavírus. Apesar de ter mantido sua rotina – e a proximidade com autoridades e cidadãos –, o presidente sempre se negou a mostrar o resultado de seu segundo exame. O Hospital das Forças Armadas – onde Bolsonaro foi submetido ao teste – chegou a divulgar uma lista com dezessete infectados, mas o rol omitia o nome de dois deles. Nesta terça-feira, Heleno postou no Twitter seu novo teste, que deu negativo. “Agradeço o apoio e as orações de todos os amigos e amigas. Seguimos juntos na batalha por um Brasil melhor!”, escreveu o general.

Na manhã desta terça-feira, em entrevista coletiva na portaria do Palácio da  Alvorada, Bolsonaro distorceu a fala do diretor-presidente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, na tentativa de referendar o fim da quarentena. Na segunda-feira, Ghebreyesus havia afirmado que os governos dos países deveriam garantir o bem-estar das pessoas que perderam suas respectivas rendas em razão da pandemia. Na mesma entrevista, ressaltou a importância do isolamento social, apontando que esta é “a única chance de derrotar este vírus”. “A última coisa que os países precisam é reabrir as escolas e os negócios apenas para ter que fechá-los outra vez devido ao ressurgimento de casos. Medidas agressivas para isolar, testar, tratar e monitorar os casos são não somente a melhor e mais rápida saída de uma contenção econômica e social extrema, mas também a melhor maneira de evitá-las”, afirmou o diretor-presidente da OMS. 

Bolsonaro, no entanto, suprimiu as menções relacionadas à importância da quarenta. "O que o diretor-presidente da OMS falou? Esse povo humilde fica o dia todo na rua para levar um prato de comida à noite em casa. Ele falou que ele era africano sabe o que é passar dificuldade. A fome mata mais do que vírus”, disse Bolsonaro.

Enquanto Bolsonaro era questionado por jornalistas sobre o fato de o ministro Mandetta ter voltado a defender o isolamento horizontal, apoiadores do presidente que acompanhavam a coletiva reagiram. Um dos seguidores gritou que a imprensa “fica o tempo todo jogando os ministros contra o presidente”. Quando os repórteres tentaram retomar as perguntas, Bolsonaro interveio, de forma ríspida, dando a palavra a seu apoiador. “É ele que vai falar! Não é você, não!”, gritou. Com a anuência do presidente, as pessoas aglomeradas à entrada do palácio passaram a xingar a imprensa. Os jornalistas viraram as costas e abandonaram a coletiva. “Vai embora? Vai abandonar o povo?”, questionou Bolsonaro, aparentemente surpreso. E, como no ambiente virtual, continuou falando com a sua claque.

Felippe Aníbal (siga @felippeanibal no Twitter)

Repórter freelancer em Curitiba.

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