questões de poder

Bolsonaro avança duas Casas

Presidente articula para tomar comando da Câmara e do Senado e obter cenário mais controlado a partir de 2021; líder do Centrão fala em "vitória inevitável" contra candidato de um Maia enfraquecido 

Thais Bilenky
11dez2020_16h31
Ilustração de Carvall

A eleição para o comando da Câmara e do Senado, da forma como se desenha, dará ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) um ambiente mais controlado para governar o país em 2021, ano ainda difícil por causa da pandemia, da crise econômica e sob pressão eleitoral. A eleição interna no Congresso está marcada para 1º de fevereiro, mas, com o veto do Supremo Tribunal Federal à recondução dos atuais presidentes, Rodrigo Maia (DEM-RJ), da Câmara, e Davi Alcolumbre (DEM-AP), do Senado, os partidos aceleraram as articulações.

Na Câmara, o candidato do Planalto, Arthur Lira (PP-AL), fortaleceu-se nesta semana, conquistando apoio também na oposição ao governo, caso de deputados do PSB. Lira apela ao discurso de que sua vitória é inevitável – e com isso tenta amealhar apoio até de colegas de siglas como o PCdoB, resistentes ao diálogo com um aliado de Bolsonaro. A oposição teme ficar sem postos de comando na Mesa Diretora se não compuser com o deputado que sair vitorioso.

O atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), é criticado por ter demorado em se posicionar claramente. Antes da decisão do STF, ele evitou dizer se tentaria um novo mandato ou apoiaria um nome específico. Sinalizou simpatia por diversos. Essa indefinição enfraqueceu seu passe na disputa. Nos primeiros dois anos do governo Bolsonaro, o presidente da Câmara foi, senão o principal, um dos mais influentes contrapontos aos interesses do Planalto. Com o poder de decidir a pauta de votação e capacidade de articular com deputados de variadas correntes, ele chegou a ser comparado a uma espécie de primeiro-ministro, com mais poder que o próprio presidente.

Sua derrota, caso se consolide, seria por si só uma vitória de Bolsonaro. Elegendo para o cargo um deputado afinado e atrelado ao governo, o presidente terá mais facilidade em fazer avançar os projetos que considerar prioritários no Congresso. Até agora Bolsonaro amargou derrotas, com respaldo às vezes informal de Maia, em iniciativas como a que facilitava o acesso a armas de fogo, uma promessa de campanha de Bolsonaro, e no projeto anticrime. Há outros exemplos em que o Congresso contrariou os interesses do Planalto, se não no conteúdo, na forma e no timing.  



Na falta de um nome para sua sucessão, Maia lançou na quarta-feira, 9, um bloco de partidos que em tese estarão juntos na eleição de fevereiro: além de seu DEM, participariam PSL, MDB, PSDB, Cidadania e PV. Juntos reúnem 157 deputados dos 257 necessários. O PP de Lira tem acordo com PL, PSD, Solidariedade, Avante, Pros, Patriota e PSC, que somam cerca de 170 deputados. A votação é secreta, e traições de parte a parte são esperadas. No grupo de Lira provoca-se dizendo que Maia não terá maioria nem no DEM. 

O deputado endossado por Bolsonaro para a sucessão de Maia, Arthur Lira, é líder do Centrão, grupo de partidos fisiológicos que costuma negociar apoio ao governo, qualquer que seja o presidente, em troca de cargos e verbas. Seu compromisso com Bolsonaro não advém de afinidade ideológica ou histórica. É ocasional e tem preço. O presidente só se mostrou disposto a pagá-lo depois de muito atrito com o Congresso, em geral, e Maia, em particular.

 

No Senado, as articulações para a eleição estão em estágio mais preliminar, mas avançaram uma casa nesta quinta-feira, 10. Trabalhando para se manter no comando, o Democratas, partido de Alcolumbre, trabalha nos bastidores para viabilizar o senador Rodrigo Pacheco, de Minas Gerais, como sucessor. É uma tentativa do DEM de não perder totalmente o protagonismo no Congresso, uma vez que o comando da Câmara já é dado como perdido pela cúpula da sigla, embora o deputado Elmar Nascimento, da Bahia, ainda figure em listas de possíveis candidatos. 

Como Alcolumbre aproximou-se de Bolsonaro ao longo do tempo, seus pares dizem que, se não obtiver apoio explícito na reta final, terá pelo menos a bênção do presidente.

Para ter sucesso, o DEM negocia com as maiores bancadas no Senado, inclusive o PP de Ciro Nogueira, um dos principais articuladores da aliança de Bolsonaro com o Centrão. A aproximação do DEM com o PP pode vir a constranger Maia, já que o partido tem a candidatura de Arthur Lira na Câmara. O presidente do DEM, ACM Neto, e o próprio Maia negam, mas há uma costura nos bastidores para que o PP apoie o DEM no Senado em troca de o DEM facilitar a vida de Lira na Câmara. 

O nó da questão no Senado é o MDB, que tem a maior bancada (13 das 81 cadeiras) e pleiteia a presidência. O favorito no momento é Eduardo Gomes, do Tocantins, mas outros nomes estão postos, como o de Fernando Bezerra Coelho, de Pernambuco. Ambos são líderes do governo, o primeiro no Congresso, o segundo no Senado, de forma que suas candidaturas também estão afinadas com o Planalto.

O senador Renan Calheiros, do MDB de Alagoas, porém, ameaça dar trabalho à composição, apresentando seu nome na disputa independentemente de acertos partidários, como fez em 2019. Para evitar esse cenário, Alcolumbre negocia acomodá-lo na importante Comissão de Constituição e Justiça do Senado. 

Ao mesmo tempo, na Câmara, o DEM tenta compor com o deputado Baleia Rossi, presidente nacional do MDB, e pode apoiá-lo na sucessão de Maia. 

A segunda maior bancada no Senado é a do PSD (doze cadeiras). Seus membros mostram simpatia em apoiar o nome indicado por Davi Alcolumbre, a despeito da rivalidade entre ambos os partidos fora da Casa. Na Câmara, o PSD de Gilberto Kassab ajudou a construir a candidatura de Arthur Lira contra Maia. Na costura de Alcolumbre, a vice-presidência do Senado caberia ao PSD – hoje o senador Antonio Anastasia, do PSD de Minas, ocupa o posto; seu correligionário Nelsinho Trad, de Mato Grosso do Sul, é o nome apontado para substituí-lo.

“Posso te afiançar que Davi é um cabo eleitoral importante aqui, tem vários votos pessoais dele”, disse o senador Nelsinho Trad, resumindo a avaliação que outros senadores fizeram sobre o prestígio do atual presidente. Contava-se com sua reeleição fácil até o inesperado veto do Supremo. “Davi tem o respaldo, o respeito e a consideração por parte de Bolsonaro. Se não tiver apoio, certamente terá a bênção do presidente”, afirmou Trad.

Questionado pela piauí quão favorável é o cenário que se desenha para Bolsonaro no Congresso, em uma escala de zero a dez, o senador Ciro Nogueira não pestanejou: deu nota máxima.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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