anais da opinião pública

Bolsonaro desce a ladeira

Presidente perdeu 15 pontos de popularidade desde janeiro; segundo o Ibope, novo governo só tem 34% de ótimo e bom

José Roberto de Toledo
20mar2019_16h08

Jair Bolsonaro perdeu três de cada dez apoiadores do seu governo em apenas dois meses. A proporção de quem considera sua administração boa ou ótima caiu de 49% em janeiro para 39% em fevereiro, e chegou a 34% em março, segundo o Ibope. O presidente perdeu 15 pontos percentuais em sessenta dias. Seu saldo ainda é positivo porque apenas 24% dizem que o governo é ruim ou péssimo. Outros 34% consideram que é regular, e 8% não souberam avaliar.

Em comparação com outros presidentes eleitos, porém, o começo da passagem de Bolsonaro pelo Palácio do Planalto é o pior já registrado. Nos seus primeiros mandatos, Dilma, Lula, Fernando Henrique e Collor sustentaram taxas mais altas do que os 34% de Bolsonaro nos meses iniciais. A popularidade deles só ficou abaixo desse patamar nos segundos mandatos de FHC e Dilma, quando os presidentes já acumulavam mais de quatro anos de desgastes.

Os 34% de ótimo/bom de Bolsonaro equivalem à taxa de José Sarney em março de 1987, quando haviam decorrido dois anos de mandato do primeiro presidente civil depois do golpe de 1964. Ou de Fernando Henrique Cardoso em maio de 1997, com dois anos e três meses de governo. Fernando Collor precisou de nove meses e do confisco das contas correntes e da poupança para chegar onde Bolsonaro chegou em três meses. Após o impeachment, Itamar herdou o governo de Collor e boa parte de sua impopularidade, assim como Michel Temer manteve o legado de impopularidade de Dilma Rousseff.

Em menos de três meses no cargo, Bolsonaro polarizou a confiança dos brasileiros. Se 62% diziam confiar no presidente em janeiro, só 49% ainda confiam nele agora. Perda de 13 pontos. Ao mesmo tempo, a desconfiança saltou de 30% para 44%. Como a margem de erro da pesquisa é de dois pontos para mais ou para menos, a confiança em Bolsonaro está a 1 ponto percentual de um empate técnico com a desconfiança (no limite, essas taxas são hoje de 47% e 46%, respectivamente).

Quem mais desconfia do presidente são os nordestinos e os moradores das grandes cidades. Entre esses, a desconfiança é majoritária: 53% não confiam nele. É uma má notícia para Bolsonaro, porque os movimentos de opinião pública costumam migrar das capitais para o interior, e não o contrário. Quem sustenta a confiança no presidente são, principalmente, os evangélicos, os mais ricos, os homens e os moradores do Sul.

Movimentos semelhantes aconteceram na avaliação do governo. As taxas de ótimo e bom são maiores entre os mais ricos (renda acima de 5 salários mínimos), entre quem se declara branco, entre evangélicos, e entre moradores do Sul e do Centro-Oeste.

Já as avaliações negativas (acham o governo ruim ou péssimo) são mais frequentes nas cidades com mais de 500 mil habitantes (32%) e nos municípios que ficam nas periferias das regiões metropolitanas (29%).

O Ibope não pesquisou as razões que levam os brasileiros a avaliar bem ou mal o governo. Mas pesquisas de outros institutos – que não foram divulgadas para o público em geral – apontam pelo menos três motivos para a diminuição da taxa de ótimo e bom de Bolsonaro: sua vizinhança com a milícia no Rio de Janeiro e as denúncias de corrupção envolvendo seu filho Flavio, a falta de medidas práticas que tenham resultado em diminuição da violência urbana e, finalmente, o destempero demonstrado pelo presidente em suas manifestações públicas, principalmente por meio do Twitter durante o Carnaval.

Tudo isso, somado ao cenário de estagnação da economia, aponta para dificuldades adicionais quando o governo começar a se movimentar para aprovar a reforma da Previdência, que vai desagradar várias camadas da população.

As pesquisas divulgadas nesta quarta-feira pelo Ibope Inteligência foram pagas pelo próprio instituto. Todo mês, o Ibope faz uma pesquisa nacional com 2 002 entrevistas face a face na qual diferentes clientes pagam para incluir perguntas de seu interesse. Por essa razão, a pesquisa é chamada “Bus”, ou ônibus. Às vezes o instituto pega “carona” nessa pesquisa mensal e inclui no questionário perguntas sobre avaliação dos governantes. Foi o que fez em janeiro, fevereiro e, agora, em março. A pesquisa mais recente foi realizada entre 16 e 19 de março, em todas as regiões do Brasil, com a população de 16 anos ou mais. A margem de erro é de dois pontos, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.

 

 

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Últimas Mais Lidas

Rumo às urnas, estetoscópio é a nova arminha

Criticado por Bolsonaro, ministro da Saúde ganha popularidade nas redes durante epidemia e sinaliza força de candidatos médicos nas próximas eleições

Aula de risco

Reabrir colégios, como sugeriu Bolsonaro, aumenta perigo de contaminação para 5 milhões de brasileiros de mais de 60 anos que moram com crianças em idade escolar

A Terra é redonda: Coroa de espinhos

Especialistas discutem quem é o inimigo que está prendendo bilhões em casa e como vamos sair da pandemia causada pelo coronavírus

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

Direito à despedida

As táticas de médicos e famílias para driblar a solidão de pacientes de covid-19 nas UTIs

Foro de Teresina #94: A subnotificação do vírus, Bolsonaro acuado e a economia desgovernada

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

Pandemônio em Trizidela 

Do interior do Maranhão a celebridade nas redes: prefeito xinga na tevê quem fura quarentena contra covid-19, ameaça jogar spray de pimenta e relata disputa por respirador alugado

Socorro a conta-gotas

Dos R$ 8 bi prometidos para ações de combate à Covid-19, governo federal só repassou R$ 1 bi a estados e municípios

O gás ou a comida

Na periferia de São Paulo, com epidemia de Covid-19, preço do botijão vai a R$ 150 (um quarto do auxílio prometido pelo governo), renda cai e contas continuam chegando

Mais textos
2

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

3

Não tenho resposta para tudo

A vida de uma médica entre seis hospitais e três filhos durante a pandemia

4

Direito à despedida

As táticas de médicos e famílias para driblar a solidão de pacientes de covid-19 nas UTIs

6

Onze bilhões de reais e um barril de lágrimas

Luis Stuhlberger, o zero à esquerda que achava que nunca seria alguém, construiu o maior fundo multimercado fora dos Estados Unidos e, no meio da crise, deu mais uma tacada

8

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

9

Separados pelo coronavírus

Ao falar contra isolamento, Bolsonaro surpreende até Bannon, favorável à quarentena total; no Brasil, cúpula do Congresso teme autoritarismo e evita confronto direto

10

Uma esfinge na Presidência

Bolsonaro precisa do impeachment para fazer sua revolução