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Bolsonaro traz o futuro prometido

O Brasil será o primeiro do mundo a entrar na hiper-história

Miguel Lago
22out2018_07h07

“O Brasil é o país do futuro e sempre será.” Conta a lenda que o general De Gaulle teria dito essa frase quando por aqui esteve, aludindo ironicamente ao nosso enorme potencial jamais realizado. Na última década, nós vivemos a ilusão de que o Brasil, dotado por Deus de uma riquíssima biodiversidade e com desenvolvimento tecnológico apropriado, poderia estar na vanguarda da transformação de um modelo econômico que está acabando com a Terra. Mas o futuro não deve vir pela via do desenvolvimento sustentável, e sim pelas mãos de um youtuber: Jair Messias Bolsonaro.

Tivemos que esperar cinquenta anos para que a nossa extrema direita pudesse calar De Gaulle, o herói da Resistência ao nazismo. Somos, sim, o país do futuro. E o marco zero do futuro será o dia 28 de outubro de 2018. Um futuro que se desenha também para outras nações, mas do qual os pioneiros somos nós. O Brasil é a vanguarda de um novo modo de fazer política, da concretização de um novo programa de verdade que encerra o ciclo histórico do Iluminismo. A destruição do liberalismo global começa aqui.

É verdade que Bolsonaro faz parte de uma onda de renascimento da extrema direita em diversos países: Polônia, Áustria, Estados Unidos e mais recentemente a Itália – sem falar dos regimes semi-autoritários da Rússia, Hungria e Turquia. No entanto, vale ressaltar que Trump, Erdogan, Orbán, Putin ou Salvini não foram capazes de dizer as barbaridades que Bolsonaro diz. Nenhum desses líderes e de outros da mesma estirpe se diz abertamente antidemocrático, a favor de tortura ou de assassinato político, ainda que alguns tenham sido acusados de praticar tais crimes. Prova disso é Marine Le Pen, ícone da extrema direita europeia, ao desaprovar moralmente o discurso de Bolsonaro. Mesmo os ditadores sul-americanos mais sanguinários, como Videla, Pinochet e Médici, jamais admitiram publicamente ter feito tortura ou desrespeitado os direitos humanos. Suas atrocidades não eram bandeira política, eram motivo de vergonha, feitas às escondidas. O que então esperar do governo de alguém que se elege proferindo o discurso da barbárie mais selvagem?

 

A segunda diferença importante entre Bolsonaro e outros líderes de extrema direita é o método de ascensão ao poder do brasileiro: ele não conquistou um partido tradicional por dentro (como Trump), tampouco montou um partido político importante (como Salvini), não teve experiência exitosa em administrações locais (como Erdogan), não construiu um movimento de base social muito forte por décadas (como Orbán). Ele se elegerá exclusivamente graças ao fenômeno digital.

Ao apostar nas redes sociais nos últimos quatro anos, o ex-capitão dominou o jeito de se comunicar com apoiadores e de fidelizá-los. Bolsonaro armou habilmente um canal distribuído de milhares de grupos de WhatsApp, que recebem conteúdo diariamente e por meio dos quais o candidato espalha mentiras sobre adversários e reverte todas as críticas feitas a ele.

Ocorre que meio e mensagem são indissociáveis. Bolsonaro domina as redes sociais como poucos, pois é capaz de fornecer o tipo de conteúdo que convive bem com esses canais. A arquitetura das redes sociais está desenhada de modo a privilegiar ora postagens que atraiam um grande número de interações imediatas, no caso do Facebook, ora peças de (des)informação que possam ser consumidas rapidamente e que estimulem a necessidade imediata de encaminhamento para um grande número de pessoas, como ocorre com o WhatsApp. Logo, as redes estimulam estruturalmente o sensacionalismo, os boatos, as notícias falsas, as frases de efeito, as teorias da conspiração. Para usá-las bem, é preciso saber produzir um conteúdo superficial e, muitas vezes, sujo. Nesse sentido, o descompromisso ético favorece o candidato Jair Bolsonaro.

Nenhum dos outros candidatos do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil teria sido capaz de inventar barbaridades como as que o ex-capitão e sua equipe inventam. E é por entender a dinâmica das redes sociais que Bolsonaro, Mourão e os demais cavalheiros do apocalipse dizem o indizível. Quanto mais falarem de “branqueamento da raça” e defenderem a tortura e quanto mais imoral for a postura deles, maior o alcance das mensagens e o número de pessoas fidelizadas. Parafraseando outro ex-presidente francês, Jacques Chirac, “quanto mais absurdo, mais aceito”. Não à toa Bolsonaro treme diante dos debates: ele não tem conteúdo para o contraditório, apenas para “mitagens”, para frases de efeito. É um candidato de um canal só e será o presidente de um canal só.

 

Existe literatura científica a respeito de como as redes sociais favorecem o populismo. Autores que estudam o tema chamam a atenção para o fato de as redes sociais serem a expressão do hiperindividualismo, um terreno em que cada um se expressa livremente numa grande tribuna, que é a internet, e tem a sua audiência, o que o faz se sentir menos isolado. As subcelebridades das redes sociais se tornam ponto focal para o encontro de milhões de pessoas afetadas pela atomização do indivíduo e pelo esgarçamento dos laços sociais. A celebridade de Instagram ou o youtuber são para a web o que o líder populista carismático é para a política. Bastou um pulo para Bolsonaro passar de youtuber popular a líder populista carismático. Nesse sentido, ele e Trump fazem parte do mesmo fenômeno: ambos são consequência da arquitetura das redes sociais.

Assim como ocorreu com Trump, a adesão à Bolsonaro vem da adesão a uma nova cosmovisão, isto é, um novo ordenamento de valores, crenças, percepções de mundo que orientam as estruturas sociais e políticas. A maior revolução do bolsonarismo é a total destruição da cosmovisão liberal, dominante nas sociedades ocidentais. Para os bolsonaristas, já não é possível argumentar com a verdade científica, pois tudo é da ordem da opinião, os fatos são apenas versões: não há mais nenhuma base comum de conversação entre um liberal e um bolsonarista.

Essa é a maior vitória de Bolsonaro: fazer com que todos que o critiquem sejam considerados “comunistas” ou que todos os fatos que possam ser usados contra ele sejam considerados manipulados. Entretanto, Bolsonaro é ainda mais vanguardista do que o presidente americano, primeiro por não dispor de nenhuma máquina partidária (Trump era outsider nas primárias, mas depois contou com a força do Partido Republicano). Segundo, por ter virado celebridade na era da internet e exclusivamente graças a ela (Trump é, antes de tudo, um fenômeno televisivo, da onda dos reality shows).

O filósofo Luciano Floridi, da Universidade de Oxford, defende a tese de que sociedades hiperconectadas vivem a transição da história para a hiper-história, uma nova era na humanidade em que as categorias de pensamento, de exercício da política são refundadas. De acordo com o pensador, nessa nova era não há mais distinção entre o real e o virtual, entre o offline e o online, e já não se confia nas instituições, mas nos perfis das redes sociais. Seguindo essa lógica, é possível afirmar que Bolsonaro será o primeiro chefe de Estado no mundo da hiper-história.

Graças a Bolsonaro, o Brasil assume a vanguarda do mundo ocidental. O que acontece hoje aqui é só o prenúncio do que vai ocorrer com as demais democracias liberais se nós mantivermos o combo explosivo: poder representativo e redes sociais. O Brasil não se tornou fascista, muito menos conservador. O Brasil só não distingue mais realidade de ficção, online de offline, ciência de opinião, discurso de prática. Definitivamente, o Brasil, como também teria dito De Gaulle, “não é um país sério”.

Miguel Lago

Miguel Lago

Miguel Lago é cientista político, cofundador da rede Meu Rio e diretor da ONG Nossas

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