questões pandêmicas

Bolsonaros cumprem quarentena

Enquanto o presidente sabota medidas para frear o coronavírus no país, seus parentes se beneficiam do lockdown em Eldorado, no interior paulista

Thais Bilenky e Luigi Mazza
09abr2021_17h58
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO EM FOTOS DE PEDRO LADEIRA/FOLHAPRESS E PREFEITURA DE ELDORADO

O presidente Jair Bolsonaro atrapalha as tentativas de conter a Covid-19 em território nacional. Vai ao Supremo Tribunal Federal para impedir governadores de decretarem lockdown, provoca aglomerações e desdenha do uso de máscara. No entanto, sua mãe, seus irmãos e diversos sobrinhos usufruem de um ambiente relativamente controlado em relação à doença, com distanciamento social, comércio limitado e fiscalização da Polícia Militar para coibir o agrupamento de pessoas. Todos moram em Eldorado, cidade do Sul de São Paulo, onde o presidente passou a maior parte da juventude. Com 15 mil habitantes, o município segue à risca os apelos dos cientistas, as recomendações do Ministério Público e o plano do governo paulista para frear as infecções.

Em janeiro, logo que assumiu o mandato, o atual prefeito de Eldorado, Dinoel (PL), manteve as restrições sanitárias já adotadas por seu antecessor, de quem era vice. No último dia 27, foi além e decretou lockdown na cidade até o próximo domingo, pelo menos. Não à toa, o município registrou até agora quinze mortes causadas pelo novo coronavírus, o que corresponde a uma taxa de mortalidade por cem mil habitantes de 100 (contra 160 no cômputo geral do Brasil). Já os 996 casos confirmados de infecção pelo vírus equivalem a 6,6% da população local, índice semelhante ao do país.

Dinoel, cujo partido é aliado do presidente em Brasília, procura se mostrar discreto ao seguir as orientações do governo de João Doria (PSDB), desafeto de Bolsonaro. Pobre e dependente de repasses estaduais e federais, Eldorado tenta passar despercebida e não despertar a ira presidencial dirigida aos prefeitos e governadores que buscam conter o vírus com medidas restritivas de circulação. Na cidade, a discrição é considerada estratégia de sobrevivência.

Em fevereiro, o presidente gerou confusão no município quando disse que a vacina aplicada em sua mãe, Olinda Bolsonaro, de 94 anos, não era a CoronaVac e, sim, a da AstraZeneca. Ele fez a afirmação durante uma live nas redes sociais. Pretendia, dessa maneira, negar que seus familiares se beneficiavam do imunizante produzido pelo Instituto Butantan, ligado a Doria. A vacina da AstraZeneca é fabricada no Brasil por um órgão do governo federal, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Na transmissão ao vivo, Bolsonaro sugeriu que o enfermeiro responsável por aplicar o imunizante forjou o registro da CoronaVac na carteira de vacinação de Olinda para fazer “politicagem”. “O cara vacinou minha mãe e foi embora. Duas horas depois, o cara volta lá todo apavorado, chama lá a pessoa que acompanha minha mãe, pega o cartão de vacina dela, que é este aqui, e rasga. E entrega para minha mãe o cartão escrito embaixo ‘Butantan’”, declarou o presidente.

A prefeitura instaurou uma sindicância tão logo Bolsonaro se pronunciou, mas o caso foi esclarecido pouco depois pela própria família do presidente. Quando Olinda recebeu a segunda dose da vacina, duas irmãs de Bolsonaro – que acompanhavam a mãe – autorizaram à prefeitura fotografar e divulgar o rótulo do imunizante. Pôde-se constatar, assim, que se tratava mesmo da CoronaVac. Na verdade, 86% das doses aplicadas na cidade eram do Butantan, até a manhã desta sexta-feira (9). No país como um todo, a proporção é de 83%.

 

Eldorado figura hoje entre os municípios mais vacinados de São Paulo. Segundo o governo do estado, 3.050 eldoradenses – o equivalente a 20% da população local – já receberam a primeira dose do imunizante. Das 645 cidades paulistas, Eldorado é a 20º mais protegida até o momento. Isso se deve ao fato de que, no município, há muitos quilombolas, um dos grupos prioritários definidos pelo Plano Nacional de Imunização. Eles correspondem a quase metade de todos os vacinados em Eldorado. O município surgiu no século XVII, durante o ciclo da exploração do ouro, o que levou uma grande quantidade de escravizados à região. Os cativos que fugiram ou foram libertados acabaram formando os quilombos. 

Localizada numa das regiões mais carentes de São Paulo, o Vale do Ribeira, Eldorado não possui hospital municipal capaz de enfrentar a Covid-19. Em casos graves, os pacientes são transferidos para outras cidades. No ano passado, a espera por uma vaga nos hospitais próximos era de até quatro horas. Agora, na segunda e mais virulenta onda da pandemia, a demora pode chegar a dois dias. Ciente dos riscos que Eldorado corria, a prefeitura aderiu há um mês à fase vermelha, a mais restritiva, do Plano São Paulo, elaborado pelo governo estadual para orientar os municípios sobre a pandemia. “O quadro é muito preocupante. Dependemos do sistema de saúde regional, que tem pouquíssimas vagas”, diz Erik Moura, chefe de gabinete do prefeito. “Por isso, a gente segue rigorosamente o Plano São Paulo.”

Em virtude das restrições, todo o comércio não essencial fechou, inclusive a loja de Guido Bolsonaro, irmão mais velho do presidente, que conserta eletrônicos. Nas áreas comuns da cidade, os moradores costumam usar máscaras e higienizar as mãos. Não há aglomerações nem tumultos. “A população não vai contra as medidas de segurança – pelo menos, não diretamente. Se existe algum desrespeito, é por parte de setores isolados. No dia a dia, a gente não vê, não”, afirma Moura. “Por ser uma cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo. Se sou dono de restaurante, estou fechado e vejo outro aberto, vou lá e denuncio. No Centro, a praça de alimentação e os quiosques de lanches foram todos lacrados.”

O problema são as reuniões privadas. Como o território de Eldorado é extenso, moradores de sítios e chácaras muitas vezes promovem confraternizações clandestinas. A prefeitura se organizou para receber denúncias, e a Polícia Militar dispersa as festas sempre que possível. Durante o período mais brando das restrições, havia de cinco a dez denúncias por final de semana. Bastou começar a fase vermelha para que as ocorrências chegassem a 25. A prefeitura decidiu, então, ir além das orientações do governo estadual e, por recomendação do Ministério Público, decretou o lockdown. Agora, só se pode transitar pela cidade em caso de extrema necessidade, para contrariedade do ilustre ex-morador de Eldorado.



Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí

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