anais da ciência

Brasil recebe maior evento da matemática mundial

Mas país fica sem medalha Fields, o prêmio mais importante da disciplina, que vai para Alemanha, Austrália, Itália e Reino Unido

Bernardo Esteves
01ago2018_10h01
Da esquerda para a direita, os vencedores: Venkatesh, Scholze, Figalli, Birkar
Da esquerda para a direita, os vencedores: Venkatesh, Scholze, Figalli, Birkar FOTO: PABLO COSTA/ICM2018

Os quatro ganhadores da medalha Fields, o prêmio mais importante da matemática, considerado informalmente o equivalente ao Nobel da disciplina, foram anunciados na manhã desta quarta-feira, 1º de agosto, no Rio de Janeiro. Os medalhistas – o australiano Akshay Venkatesh, o italiano Alessio Figalli, o britânico Caucher Birkar e o alemão Peter Scholze – receberam suas medalhas na cerimônia de abertura do Congresso Internacional de Matemáticos (ICM, na sigla em inglês).

Realizado a cada quatro anos, o evento acontece pela primeira vez num país do hemisfério Sul. Três dias antes do evento, um incêndio provocado por um balão destruiu o telhado de um dos pavilhões do Riocentro, que abriga o congresso. Logo após a cerimônia de abertura, Caucher Birkar notou que a pasta na qual havia guardado sua medalha de ouro, que vale cerca de 15 800 reais, havia sido furtada.

O geômetra alagoano Fernando Codá, que frequentou as listas de favoritos à medalha que circularam antes do congresso, não foi contemplado. O carioca Artur Avila, um especialista em sistemas dinâmicos premiado na última edição do ICM, realizada em Seul em 2014, continua sendo o único latino-americano agraciado com a Fields, e o único ganhador que fez toda sua formação num país em desenvolvimento. Ele também tem nacionalidade francesa.

Por ocasião da medalha conquistada por Avila, piauí publicou uma edição especial que conta a história do prêmio e reconstitui os principais passos da matemática brasileira até a sua principal conquista.

Dois dos medalhistas de 2018 – Caucher Birkar e Peter Scholze – são especialistas na geometria algébrica, ramo da matemática que lança mão de métodos da álgebra para resolver problemas geométricos e vice-versa. “Essa é uma área difícil e que tem tido avanços importantes”, disse Marcelo Viana, organizador do congresso e diretor do Impa, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro. “Ela merece certamente a proeminência que recebeu nos últimos anos.”

 

Dentre os medalhistas de 2018, Peter Scholze é o nome menos surpreendente. Onipresente na lista de favoritos à medalha, o alemão entrou no radar dos matemáticos depois de ganhar três medalhas de ouro e uma de prata na olimpíada internacional da disciplina (imo, na sigla em inglês). Sua carreira meteórica ratificou a fama de prodígio: Scholze levou dois anos e meio para concluir a graduação e o mestrado, e tornou-se o mais jovem professor titular de seu país, aos 24 anos, na Universidade de Bonn. Medalhista Fields aos 30, está entre os mais jovens a receber a láurea.

Numa entrevista concedida antes que soubesse o nome dos ganhadores da Fields, Artur Avila citou o nome de Scholze entre os favoritos para a medalha. “Já havia bastante expectativa e especulação em torno dele em 2014”, disse o brasileiro. “Os trabalhos dele tiveram uma propagação muito rápida, e suas ideias já estão sendo usadas por outros matemáticos.” Avila disse que conheceu o alemão em 2014, durante o congresso de Seul, quando foram juntos para uma boate. “Fiz uns vídeos comprometedores dele, dançando e falando bobagem”, brincou Avila, aos risos.

Outro matemático de trajetória precoce na lista de medalhistas deste ano é Ashkay Venkatesh, um cidadão australiano nascido em Nova Déli, na Índia. Medalhista na imo aos 12 anos, Venkatesh entrou na universidade no ano seguinte e concluiu o doutorado aos 20. Atualmente com 36, ele é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados em Princeton, nos Estados Unidos. É um especialista na teoria dos números, subárea que já foi apelidada de “rainha das matemáticas”.

A relação de laureados de 2018 inclui ainda outro matemático com passagem pela Olimpíada Internacional de Matemática, o italiano Alessio Figalli. O napolitano de 34 anos atribui à imo seu interesse pela disciplina – antes disso, só queria saber de futebol. Figalli divide seu tempo entre Zurique, na Suíça, onde trabalha como pesquisador do Instituto Federal de Tecnologia (eth), e Durham, na Inglaterra, onde sua esposa – matemática como ele – dá aula.

A lista de medalhistas anunciada no Rio se completa com Caucher Birkar, cidadão britânico de origem curda nascido no Irã. Filho de agricultores, ele se interessou por matemática por influência do irmão mais velho, graduou-se em Teerã e mudou-se para o Reino Unido, onde completou sua formação e vive até hoje – atualmente é professor da Universidade de Cambridge. Aos 40 anos, Birkar torce para que sua Fields sirva de inspiração para o povo curdo. “Espero que essa notícia ponha quem sabe um pequeno sorriso nos lábios dessas 40 milhões de pessoas”, declarou o medalhista num vídeo produzido pela Fundação Simons e pela União Matemática Internacional.

 

Apesar da presença de Birkar, nascido e criado no Irã, a lista de medalhistas de 2018 fez pouco para ampliar a diversidade dos ganhadores da Fields – um clube seleto que agora conta com sessenta membros. Os laureados foram, mais uma vez, quatro homens formados nos países desenvolvidos. “Nesse aspecto de fato foi uma premiação menos interessante que a da edição passada”, avaliou Marcelo Viana. Além de Artur Avila, em 2014 a medalha foi concedida pela primeira – e, por enquanto, única – vez a uma mulher, a iraniana Maryam Mirzakhani, morta no ano passado.

“A premiação confirma também que os talentos podem nascer em qualquer lugar, e que os países têm tudo a ganhar em se abrir à importação de cérebros”, continuou Viana. Por outro lado, a escolha dos medalhistas mostra que só tiram proveito desses talentos os países com infraestrutura para absorvê-los em seu sistema de ciência e tecnologia. “É impossível não pensar que o Brasil é particularmente inepto nesse aspecto.”

Resta trabalhar para que o esforço para o estabelecimento da matemática de alto nível no Brasil – no começo do ano o país foi promovido à primeira divisão mundial da disciplina – leve à formação de sucessores para Artur Avila. Fernando Codá por pouco não se tornou o segundo brasileiro a levar a Fields. “O nome dele certamente foi considerado com seriedade”, disse Viana. “Mas a vida continua, e a medalha não é tudo”, continuou. O diretor do Impa lembrou-se da premiação de 1998, a primeira à qual ele assistiu. O matemático russo-germânico Yuri Manin encerrou a cerimônia com um recado aos preteridos: “Se vocês não estão na lista de ganhadores, desfrutem do resto de suas vidas.”

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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