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    Em 2020, o Brasil emitiu 2,16 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente. Desse número, praticamente 1 bilhão veio do desmatamento Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama

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Brasil tem chance de reduzir 78% das emissões se zerar desmatamento

Para tanto, seria preciso uma guinada na política ambiental de Bolsonaro; compromisso apresentado na COP26 fala só em 50% de corte

Bernardo Esteves | 03 nov 2021_19h43
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O Brasil pode reduzir suas emissões em quase 80% até 2030 se de fato acabar com o desmatamento nesse prazo, conforme se comprometeu numa declaração assinada junto com mais de cem países durante a COP26, a Conferência do Clima das Nações Unidas, que acontece em Glasgow, na Escócia. Apesar disso, a meta voluntária de corte de emissões que o país apresentou na conferência é de apenas 50%. Nos dois casos, o ano tomado como base para o cálculo da redução das emissões é 2005.

O cálculo do potencial de redução das emissões brasileiras foi feito pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo e apresentado na quarta-feira (3/11) durante um evento paralelo da COP26. Azevedo é o coordenador do SEEG, um sistema que calcula as emissões anuais do Brasil de gases do efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global, de forma independente das estimativas oficiais feitas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Quando soube que o Brasil aderira ao compromisso de acabar com o desmatamento anunciado durante a conferência, o engenheiro florestal resolveu fazer a conta do impacto que isso teria nas emissões brasileiras.

De acordo com os dados do SEEG, no ano passado o Brasil emitiu 2,16 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, dos quais praticamente 1 bilhão de toneladas vieram do desmatamento. No entanto, como por outro lado as florestas absorveram 635 milhões de toneladas de CO₂, o saldo líquido de emissões é de 1,5 milhão de toneladas de CO₂eq. Em seu cálculo, Azevedo tirou do total de emissões o volume correspondente ao desmatamento. “Quando você tira a perda florestal, as emissões de todo o resto estão diminuindo nos últimos anos”, disse ele à piauí.

O resultado do cálculo, quando se eliminam as emissões por desmatamento e se mantém o volume de CO₂ capturado da atmosfera pelas florestas, são emissões líquidas de 525 milhões de toneladas de CO₂eq. Esse número é, aproximadamente, o que o Brasil emitirá em 2030 caso de fato acabe com o desmatamento. “Isso é uma redução de 65% em relação a 2020, ou de 78% em relação a 2005”, disse Azevedo. “Essa poderia facilmente ser a nossa meta. Que outro país do mundo pode reduzir 78% das suas emissões?”

Apesar disso, no novo compromisso firmado durante a COP26, o Brasil anunciou que cortaria as suas emissões em 50% até 2030 em relação a 2005, além de afirmar que acabaria com o desmatamento ilegal. Essa meta aumentou o percentual de cortes de 43% que havia sido anunciado em 2015 e reiterado no ano passado. O cálculo feito por Azevedo mostra que o país perdeu a oportunidade de anunciar uma meta ainda mais ambiciosa – e capitalizar em cima disso.

 

No entanto, para zerar o desmatamento, conforme o Brasil se comprometeu a fazer, é preciso combater de fato a devastação florestal. Para isso, é preciso adotar uma política ambiental que vá na direção oposta à que tem sido conduzida pelo governo de Jair Bolsonaro. Com o relaxamento da fiscalização e a oposição do presidente às multas ambientais, o desmatamento subiu 47% nos dois primeiros anos de sua gestão.

A despeito dos compromissos firmados em Glasgow, o presidente e seus ministros não deram nenhum sinal concreto de que tenhamos chegado a um ponto de inflexão. “Não há nada na política ambiental do governo Bolsonaro que indique que eles vão mudar”, disse Suely Araújo, ex-presidente do Ibama, em outro evento da programação da COP26. Araújo projeta que 2022 será um ano de “contenção de danos”, para que se evite uma perda florestal ainda maior. “O próximo governo é que vai aplicar tudo o que estamos negociando em Glasgow.”

Perguntei a Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente, que participou da mesa em que Azevedo apresentou seu cálculo, se temos motivos para crer que o Brasil vai zerar o desmatamento, conforme prometeu em Glasgow. Teixeira lembrou que o compromisso ao qual o país se juntou é apenas uma declaração intencional. “Isso significa que você tem que ter vontade política e apresentar depois como pretende agir, e isso o Brasil não fez”, afirmou.

Teixeira notou, por outro lado, que a sociedade civil brasileira mostrou maturidade ao se articular para lidar com a ausência de governo na área ambiental. “Se o Brasil tiver vontade política séria, chegaremos a 2030 em um cenário mais interessante não só do ponto de vista econômico, mas também geopolítico, e nesse caso a declaração de florestas passará a ser um ativo de soft power para o país.”

* A hospedagem do repórter em Glasgow foi financiada pelo Instituto Clima e Sociedade.

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