questões migratórias

Bye, bye, Venezuela

Em meio à crise, um terço dos venezuelanos quer deixar o país; jovens e escolarizados são os mais insatisfeitos, aponta Gallup

Yasmin Santos
05fev2019_17h55
INTERVENÇÃO DE ISABELA DA SILVEIRA EM FOTO DE MARCELO CAMARGO / AGÊNCIA BRASIL

Um país com dois presidentes, hiperinflação e desabastecimento em supermercados, farmácias e postos de combustíveis. Com a proximidade de um colapso em sua terra natal, ao menos um a cada três venezuelanos gostaria de deixar o país – são cerca de 8 milhões de pessoas ou 36% da população. É o que aponta um estudo realizado pelo Gallup, instituto norte-americano de pesquisa de opinião. Entre os venezuelanos de 15 a 29 anos, a proporção ultrapassa a metade, chegando a 51% dos entrevistados. Se os jovens rejeitam o país, assim também o fazem os adultos mais escolarizados. Se pudessem, ao menos quatro a cada dez venezuelanos com ensino médio (43%) ou superior completo (41%) mudariam permanentemente para outro país – justamente os grupos que “mais podem fazer pelo futuro da Venezuela”, apontaram os pesquisadores. Acima dos 50 anos e com escolaridade baixa, os índices são menores, de 17% e 22%, respectivamente.

Imersa em uma profunda crise econômica e política que culminou na disputa entre Nicolás Maduro e o autoproclamado presidente Juan Guaidó e em protestos violentos pelo país, a população vem perdendo as esperanças, aponta o instituto. Pesquisas feitas pelo Gallup ao longo dos últimos três anos mostram que a proporção de habitantes insatisfeitos tende a crescer.

Entre 2013 e 2017, a insatisfação com o próprio país apresentou praticamente uma reta de crescimento entre os venezuelanos. O segundo maior salto se deu entre 2013 e 2014, logo após o primeiro ano de mandato de Nicolás Maduro. Antes de Maduro assumir, 12% afirmavam querer deixar o país. Desde a primeira vez em que tomou posse, o número de insatisfeitos chegou a atingir 41% da população em 2017.

Além da falta de alimentos e medicamentos, a crise persistente na Venezuela se reflete em um aumento na sensação de insegurança de seus habitantes. Como mostrou reportagem da piauí em junho, apenas 17% dos venezuelanos se sentiam seguros no próprio país em 2017 – no Brasil, eram 31%. É neste contexto que milhões querem deixar o país permanentemente. A ONU estima que 3 milhões de pessoas deixaram a Venezuela desde 2015. O número, que corresponde a 10% da população, pode aumentar ainda mais até o final do ano. A estimativa da organização é de que 5 milhões de venezuelanos serão emigrantes até dezembro. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 31 mil venezuelanos viviam no Brasil em 2018, um aumento de 3.000% em relação a 2015, quando eram apenas 1 mil cidadãos daquele país.

 

Vivendo neste contexto de caos social, a República Bolivariana segue na contramão da América Latina. Até 2010, como aponta um estudo do Pew Research Center do fim de janeiro, a Venezuela não aparecia no ranking dos países latino-americanos com o maior e mais rápido crescimento de emigração. A partir de então, o país uniu-se a Honduras, República Dominicana, Guatemala e Costa Rica, grupo que passou a liderar a pesquisa. Como o índice de Honduras representa, na verdade, uma queda acentuada em relação aos anos 90 e início dos anos 2000, a Venezuela aparece como a principal responsável pelo crescimento total de 7% da emigração latino-americana entre 2010 e 2017. É a primeira vez, nas últimas três décadas, que o aumento percentual global (17%) ultrapassa a América Latina.

Nos anos 90, o crescimento de emigrantes latino-americanos ou caribenhos alcançou o índice de 58%, e liderava as pesquisas. Na década seguinte, caiu continuamente. Agora, aponta a pesquisa, quem lidera o ranking é o Oriente Médio e norte da África, com um crescimento contínuo, há quase duas décadas, que chega a 38%. Os dados contrastam com a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que insiste em construir um muro na fronteira com o México – justamente quando a imigração de latinos ao seu país está em declínio, sem que ele fizesse qualquer interferência.

*

Errata: A primeira versão deste texto afirmava que o maior salto na porcentagem de insatisfação dos venezuelanos (10%) foi entre 2013 e 2014, após o primeiro ano de mandato de Nicolás Maduro. A informação está incorreta. Como mostra o gráfico, o maior crescimento (13%) foi entre 2015 e 2016, durante a crise do governo Maduro.

Yasmin Santos (siga @yasminsmp no Twitter)

Repórter da piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

Maria vai com as outras #1: Poder

A prefeita Márcia Lucena e a delegada Cristiana Bento contam como exercem o poder em profissões quase sempre ocupadas por homens

Foro de Teresina especial: aguarde

O programa, que contou com a participação da jornalista Maria Cristina Fernandes, foi gravado ao vivo durante o evento que reuniu os melhores podcasters do país

Entre gargalhadas, cotidiano e estratégia: os podcasts de humor

Linguagem politicamente incorreta e medo da repetição estão entre as preocupações dos realizadores 

Em podcasts jornalísticos, muito planejamento e pouco improviso

Produção diversificada e roteiro bem construído ajudam a resumir informação e análise

Um podcast pra chamar de seu: os temas de cada tribo

Futebol, feminismo e história motivam conteúdos produzidos para grupos específicos; para realizadores, nem todo patrocínio é bom

Podcast, um novo modelo de negócio

Mesa de abertura da segunda edição do evento discutiu estratégias de financiamento 

Acompanhe a transmissão ao vivo da segunda Maratona Piauí CBN de Podcast

Encontro está sendo transmitido em áudio e em vídeo nos sites e redes sociais da piauí e da CBN

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos

Foro de Teresina #64: A fritura de Moro, a expulsão de Frota e o acordo de Itaipu

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Mais textos
1

A vovó fashion

Uma influencer e seus looks ousados

2

A imprevidência chilena

Elogiado por Bolsonaro e Guedes, regime de capitalização implantado no Chile tem aposentadoria média inferior ao salário mínimo

3

Acordo de WhatsApp para manter Frota no PSL não resiste a canetada de Bolsonaro

Bancada selou em grupo de aplicativo permanência do deputado, que acabou expulso depois de criticar Eduardo; outros parlamentares devem ser enquadrados

4

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos

5

Foro de Teresina #64: A fritura de Moro, a expulsão de Frota e o acordo de Itaipu

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

6

O pit bull do papai

Os tormentos e as brigas de Carlos Bolsonaro, o filho mais próximo do presidente

7

Um novo epílogo para Eike Batista

Investigação que levou empresário de volta à cadeia mostra como ele enganou investidores e manipulou preço das ações

8

Operação zangão

O combate ao furto de abelhas no interior de Minas Gerais

9

Por que João Gilberto é João Gilberto

Diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta, ao violão, legado do inventor da bossa nova; veja os vídeos