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Calamidade e bênção – Sergio e Epstein 

Cinemateca Francesa libera acesso a preciosidades de seu acervo

Eduardo Escorel
15abr2020_10h24

Em matéria de calamidade, estamos bem servidos – além de um presidente da República irresponsável, a mortandade causada pela pandemia aumenta dia a dia de forma exponencial, atingindo proporção imprevista de pessoas fora dos grupos de risco. 

Ao saber que Sergio estrearia em 17 de abril na Netflix e que eu poderia ter acesso antecipado ao filme, fiquei interessado. Afinal, nesta hora em que o Itamaraty está entregue a um ministro que desmerece as melhores tradições da Casa, assistir à trajetória de um personagem da estatura de Sergio Vieira de Mello (1948-2003) prenunciava uma experiência cinematográfica estimulante. Diplomata da Organização das Nações Unidas, Sergio, como era chamado, trabalhou a partir da década de 1970 no Alto Comissariado para os Refugiados em missões humanitárias e de preservação da paz, e foi alto comissário para os Direitos Humanos a partir de 2002. 

Dias depois, porém, ao assistir a Sergio, no qual Wagner Moura faz o papel principal com a entrega e o empenho habituais, embora pareça não ter sido dirigido, fiquei acabrunhado e resolvi não escrever sobre o filme em respeito à memória do diplomata – morto num atentado terrorista em Bagdá, ele merecia tratamento melhor ao ter sua trajetória profissional encenada. A intenção dos responsáveis pelo projeto, dirigido por Greg Barker, a partir do roteiro de Craig Borten, pode ter sido boa, mas, como o dito popular adverte, o inferno está cheio de iniciativas bem-intencionadas. No caso, o resultado demonstra mais uma vez, entre tantas outras, o alto grau de banalização de que o cinema é capaz. Só resta lamentar que roteiro e direção tenham sido entregues a profissionais americanos mal qualificados para a tarefa de fazer esse filme de ficção baseado em pessoas e eventos reais. 

Há, porém, alternativa sobre o mesmo tema, disponível também na Netflix, que vale a pena assistir, dirigida, por ironia, pelo mesmo Greg Barker. É o documentário de longa-metragem homônimo produzido pela HBO, em 2009, baseado na biografia de Sergio Vieira de Mello, Sergio: One Man's Fight to Save the World, de Samantha Power, publicada em 2008, e editada no Brasil com o título O Homem que Queria Salvar o Mundo, em 2009 (um capítulo, publicado na edição 21 da piauí, está disponível em https://piaui.folha.uol.com.br/materia/um-milhao-de-flashes/). 

 

Sérgio Vieira de Mello

 

Depoimentos, imagens de arquivo e algumas encenações da precária operação resgate posterior ao atentado, em 2003, alternam-se da forma usual em filmes americanos desse tipo, servindo para apresentar Sergio e recuperar sua trajetória profissional. Algumas entrevistas traçam o perfil do personagem e compõem poderoso relato do que ocorreu logo após o ato terrorista do qual ele foi uma das vítimas – em especial as de Samantha Power e Carolina Larriera, noiva do diplomata, além das de William Von Zehle, técnico em emergências médicas, e Andre Valentine, bombeiro e paramédico, que chegaram até onde Sergio estava soterrado e tentaram salvá-lo. 

Depois de ter desistido de comentar em maior detalhe a versão ficcional de Sergio, recebi notícia que considerei uma verdadeira dádiva nestes tempos calamitosos. A partir do dia 9 de abril, às 15h30 (hora de Brasília), a Cinemateca Francesa passaria a oferecer diariamente acesso gratuito, através do seu serviço de streaming, a títulos da plataforma de suas coleções de filmes, chamada “Henri”, de Henri Langlois – “modo de lembrar que se os grandes filmes da história do cinema podem ser assistidos hoje no computador e em VOD, é porque Langlois e alguns outros começaram por salvá-los do lixo, antes de programá-los, incansavelmente, sem se preocupar com modas e o transcurso do tempo.” (release disponível em https://www.cinematheque.fr/henri/

Dentre as várias plataformas que passaram recentemente a oferecer acesso gratuito aos seus serviços de streaming, cada uma com seu perfil próprio de ofertas, reunindo de maneira geral filmes já exibidos no circuito de salas de cinema, e, em alguns casos, lançando também títulos inéditos, o que a Cinemateca Francesa oferecerá são, nas palavras do release, “pepitas desconhecidas do patrimônio cinematográfico [...] prosseguindo sua missão de difundir e propiciar descobertas”. Esta é uma oportunidade excepcional para acessar e assistir a domicílio clássicos restaurados. 

Os primeiros títulos tornados disponíveis, um a cada dia, a partir de quinta-feira passada (9/3), e que continuam acessíveis, foram filmes de Jean Epstein (1897-1953) – La Chute de la Maison Usher (A Queda da Casa de Usher, 1928), baseado no conto de Edgar Allan Poe; La Glace à trois faces (O Espelho de Três Faces, 1927), baseado no conto de Paul Morand, de 1925; Le Tempestaire, “um mago que, segunda uma crença antiga, tem o poder de comandar os elementos naturais” (1947). No elenco, os pescadores e guardiões do farol de Belle-Île-en-Mer, ilha ao largo da costa da Bretanha.

Vendo no computador os dois primeiros títulos, feitos há quase um século, e o outro um pouco mais recente, todos em cópias restauradas com recursos digitais, chama especial atenção a consciência de Epstein no final da vida do caráter efêmero de todo filme. Em Nascimento de uma linguagem, texto escrito a partir de uma conferência feita no Museu do Homem, em 1947, incluído em Esprit de Cinéma, publicado em 1955, ele afirma que “a existência de um filme só é menos efêmera que a de uma bolha de sabão. E, desde já, as histórias e as estéticas do cinema começam a apresentar o defeito inevitável de serem construídas com base em conjecturas (“se diz”), em testemunhos que o leitor não pode conferir, em juízos impossíveis de refazer objetivamente, em uma autoridade estabelecida pela pura tradição, pela lenda. Sem dúvida, podemos ainda, às vezes, rever alguns dos filmes antigos. Mas, primeiro, em que estado se encontram agora essas obras? E em qual estado de espírito estão os espectadores diante delas?” 

Quando Epstein se preocupa com as condições em que esses filmes antigos estão, não pensa “apenas na erosão do filme, na ferrugem dos valores fotográficos, nas lacunas no roteiro original, na desintegração do ritmo primitivo da obra. Essa decrepitude material já seria suficiente para impedir uma apreciação justa, mas o filme também está sujeito a outro envelhecimento, mais sério e quase mais rápido”, ele escreve. 

Jean Epstein

 

Para Epstein, “o simbolismo de uma imagem é de tal modo produto exato de uma série de detalhes plásticos que ela possui um significado rigorosamente especial, quase incapaz de variações. A riqueza descritiva da imagem fornece – gostemos ou não – um retrato minucioso, físico e espiritual, da época em que o filme nasceu. Modas, tiques, slogans, modismos, maneiras de assassinar e modos de apertar as mãos, nuances de sentimentos e estilos de beijos, tudo carrega um milésimo inefável. E, de ano em ano, esses sinais que são datados demais são desvalorizados, perdem valor monetário, pelo próprio movimento da vida, pela incessante evolução das maneiras, pelo progresso da técnica. Assim, de um filme, o ritmo se transforma em um movimento brusco; a poesia se torna ingenuidade; o drama se transforma em uma paródia burlesca. Qualquer trabalho cinematográfico está, por sua própria natureza, fadado a uma degradação e uma reversão de valores de uma rapidez e fatalidade das quais não há exemplo entre as outras artes e técnicas de expressão.” 

Epstein deixa claro que para ele “não podemos nunca conhecer de verdade um filme a não ser no original. Ou seja, depois de alguns anos, nos é dado apenas o direito de desconhecê-lo. E temos que nos perguntar o que as jovens gerações de espectadores, que conhecem apenas fragmentos de grandes filmes antigos em condições fora de moda, manchados e mortificados, podem adivinhar do brilho da vida, da força de novidade, do poder de convicção que essas imagens antigas irradiaram por um instante.” (traduzido do francês por minha conta e risco) 

Quero crer, apesar do que ele escreveu, que Epstein ficaria satisfeito ao saber que a beleza de seus filmes está sendo apreciada quase um século depois graças à Cinemateca Francesa. 

A partir de domingo, passou a ser possível assistir também ao documentário de média-metragem Um Pequeno Monastério na Toscana, raridade de Otar Iosseliani lançada em 1988; Abril (Avril, 1961), também de Iosseliani; e Sol (1988), de Pierre Clémenti, em que o ator “conta sua vida de boemia com melancolia”. Aproveitem, vejam essa eclética amostra inicial e, a partir de quarta-feira, a cada dia, um novo filme.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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