questões europeias

Campanha do medo limita extrema direita na Espanha

Pesquisador analisa vitória de socialistas e aponta dificuldade de replicar quadro em outros países

Mauricio Moura
29abr2019_11h48
Em Madri, a comemoração pelos resultados dos socialistas nas urnas - FOTO: Divulgação/PSOE

O sol há de brilhar mais uma vez” são os primeiros versos de Juízo Final, sucesso de Élcio Soares e Nelson Cavaquinho na voz de Clara Nunes. Nas eleições nacionais espanholas de 2019, o que testemunhei em Madri foi o ressurgimento do PSOE (partido socialista local) do presidente Pedro Sanchez, que atingiu 28,7% dos votos. Fazia dez anos que os socialistas não tinham um resultado tão positivo. A narrativa principal da campanha do PSOE se pautou em dois pilares: a estabilidade política e a contenção da extrema direita. O partido buscou se apresentar como o bastião da moderação perante os eleitores. Por outro lado, o xadrez político pós-eleitoral está mais para fúria que para moderação.

Primeiro porque o PSOE passou longe de atingir o mínimo de deputados para formar um governo majoritário (governar sem recorrer a uma coalizão). Fizeram 123 deputados e são necessários 176 (de um total de 350). Caso decidam se coligar ao PODEMOS (partido de esquerda mais radical, que obteve 42 cadeiras no parlamento), somariam 165 – ainda insuficiente. Teriam então de buscar o apoio dos partidos catalães pró-independência e dos nacionalistas bascos para formar um governo. Algo nada simples para quem pretende governar pregando a união da Espanha. O tema da Independência da Catalunha teve um amplo protagonismo na campanha e expõe feridas históricas de difícil solução.

Em segundo lugar, houve um avanço real da extrema direita representada pelo VOX. Desde o fim da ditadura franquista, um partido com ideias tão radicais (antifeminista, anti-separatismo e anti-imigração) não tinha uma representação relevante no Parlamento. Dito isso, não houve a “onda” de extrema direita como muitos analistas europeus ventilavam. O VOX não teve a mesma musculatura de seus pares na França, Alemanha, Itália e Áustria, por exemplo. Cogitou-se um VOX com cinquenta deputados e acabaram elegendo apenas 24. As primeiras análises apontam que a grande participação dos eleitores – 75,8% de comparecimento (quase dez pontos percentuais a mais que 2016) – e a campanha de medo contra a extrema direita anestesiaram o efeito VOX.

Se o VOX cresceu, o Partido Popular (PP) implodiu. O PP governava a Espanha até deixar o poder em maio de 2018, e somente elegeu 66 deputados (tinha 137 até ontem). Por muito pouco não ficou atrás do Ciudadanos, partido de centro-direita recentemente lançado ao quadro nacional. O PP deve passar por uma grande reformulação depois do pior resultado de sua história.

Portanto, o quadro político espanhol emergido das eleições não é nada trivial. Essa combinação que reúne cinco grupos políticos relevantes (com o surgimento do VOX) e partidos locais/nacionalistas com representação propicia um cenário político que dificilmente pode se projetar ou replicar em outros pleitos eleitorais.

Para completar, os eleitores voltam às urnas no dia 26 de maio na Espanha para eleições europeias, autonômicas e municipais, e isso é um elemento adicional na complexidade do xadrez. Do dia 28 de abril, lembraremos que o PSOE voltou a brilhar. Todavia, e pelos motivos citados acima, ainda é cedo para dizer que essa eleição foi o Juízo Final da extrema direita na Europa e no mundo.

Mauricio Moura

É fundador do IDEIA Big Data e professor da Universidade George Washington

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