anais do auditório

Candidato a animador

A não candidatura que promoveu Luciano Huck das tardes de sábado para as de domingo na Globo

Ana Clara Costa
17jun2021_16h15
Quando Lula voltou ao páreo, a candidatura de Huck levou um banho de água fria. “Ele precisava de um certo nível de certeza de ir ao segundo turno para sair candidato”, diz um de seus aliados
Quando Lula voltou ao páreo, a candidatura de Huck levou um banho de água fria. “Ele precisava de um certo nível de certeza de ir ao segundo turno para sair candidato”, diz um de seus aliados FOTO: ADRIANO VIZONI/FOLHAPRESS

Era setembro de 2017, e o apresentador Luciano Huck recebeu em sua casa, no Joá (Zona Oeste do Rio), duas figuras proeminentes do DEM: o então prefeito de Salvador, ACM Neto, e o então ministro da Educação, Mendonça Filho. O bate-papo aconteceu num momento de rumores fortes sobre as intenções de Huck em relação ao Planalto, e a expectativa dos políticos era sair dali com uma promessa de filiação, o que não aconteceu. Sobre aquele episódio, Huck fez dois comentários. “O Neto está com a gente. É um cara muito bacana. No futuro, se alguma coisa for rolar, o DEM vai junto”, vaticinou a um grupo de conselheiros céticos às boas novas. Huck também contou que fez um alerta à dupla de políticos com quem tanto simpatizara: disse que o Brasil precisava de gente nova, de renovação, de “tirar essas dinastias que estão há séculos no poder”. Neto leva o nome do avô, o cacique baiano Antônio Carlos Magalhães, e Mendonça é filho de José Mendonça Bezerra, político pernambucano que atravessou três mandatos como deputado estadual e oito como federal.

O traquejo político do apresentador pode ter se aprimorado no decorrer dos últimos quatro anos, em que esteve sempre prestes a lançar-se como candidato. Mas não foi o suficiente para tornar a carreira pública mais convidativa que o posto de maior prestígio nos domingos da Globo. Huck o assumirá a partir de 2022. Em sua primeira renúncia à política, em 2017, ele levou poucos meses para tomar a decisão em virtude das pressões vindas da emissora, que precisaria afastá-lo o quanto antes da programação caso a candidatura fosse confirmada. Na segunda, foram mais de dois anos de banho-maria até o comunicado da última terça-feira, no programa Conversa com Bial

A oficialização de sua entrada no lugar do apresentador Fausto Silva não era bem uma novidade quando ele decidiu contá-la, há cerca de quinze dias, numa conversa por vídeo, a um grupo restrito de conhecidos. Com o semblante pouco entusiasmado, Huck disse que assinaria o novo contrato com a emissora e arrematou que não achava necessário um comunicado público sobre sua decisão de abandonar a política, já que nunca havia se colocado abertamente como candidato.

As tratativas com a Globo começaram tão logo a emissora anunciou a saída de Fausto Silva, em janeiro deste ano. Em dezembro de 2020, um mês antes, Huck deu um jantar para cerca de vinte pessoas em sua casa, apesar da pandemia, e pela primeira vez verbalizou a um grupo mais extenso a intenção de se candidatar. “Tô trabalhando para ser candidato”, disse ele, segundo um dos presentes, que tem acompanhado os passos do apresentador e o aconselhado nos últimos anos. Nesse período, Huck passou também a conversar com um dos estrategistas políticos de Mauricio Macri, o consultor Marcos Peña, que foi chefe de gabinete no governo do ex-presidente argentino. Mas as conversas sempre ficaram no campo informal, conforme confidenciou à piauí outro interlocutor do apresentador. “O Luciano sempre falou com muita gente, só que as conversas eram individuais, ele não dividia tudo. Justamente porque sua candidatura não existia em termos oficiais, ele não queria criar muitos vínculos entre as pessoas com quem conversava. Não queria criar grupos, nem nada parecido. Não dividiu, por exemplo, as coisas que conversou com o Peña.”

Pouco mais de um mês depois do anúncio de Fausto Silva, Huck recebeu outras informações consideradas definitivas. Quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin anulou as condenações de Lula relacionadas à Lava Jato, o apresentador imediatamente foi abastecido com pesquisas que já contemplavam Lula como candidato, e o cenário que viu foi desanimador. Segundo números apurados em março, embora seu desempenho no segundo turno contra Jair Bolsonaro fosse melhor do que todos os nomes testados, suas chances de passar do primeiro turno diminuíam significativamente com a entrada de Lula no páreo. Os números ainda eram preliminares, porque a decisão do STF havia sido recém-publicada, mas, naquele momento, foram um balde de água fria tanto para Huck como para os entusiastas de sua candidatura. Um deles, que acompanhou de perto aqueles dias, explicou à piauí o cerne da questão: “Ele precisava de certo nível de certeza de ir ao segundo turno para sair candidato. Ele queria a certeza de um espaço garantido, pois abandonaria uma carreira também garantida. Ele sabia que, se passasse na primeira etapa, as chances de vitória seriam grandes devido à alta rejeição dos principais nomes. Mas é difícil ter esse tipo de certeza um ano antes de uma eleição.”


Às pesquisas e às negociações com a Globo, somaram-se outros fatores político-partidários. Muito próximo do deputado Rodrigo Maia e de ACM Neto, Huck se frustrou com o desmanche da aliança entre DEM, PSDB e MDB para a eleição do presidente da Câmara. Embora um pleito majoritário para a presidência da República nada tenha a ver com uma eleição interna do Congresso, Huck confidenciou a alguns de seus interlocutores o desânimo com o fato de os partidos não conseguirem se unir em torno de um nome, o que só aumentou sua insegurança. A retirada do apoio do DEM à candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP), articulada por Maia, dinamitou a costura política contrária a Arthur Lira (PP-AL), que terminou vitorioso com 302 votos, muitos deles vindos de tucanos e democratas. O ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, um dos principais conselheiros de Huck, defendia com convicção a tese de uma costura política entre esses partidos em torno de uma candidatura única em 2022, com o apresentador como cabeça de chapa. Hartung também se frustrou com o episódio. Mas, a quem o questionava, dizia que ainda era muito cedo para se ter qualquer certeza sobre as próximas eleições presidenciais e que, se o pleito dependesse apenas de aliança política para a Câmara e o Senado, Michel Temer teria partido para a reeleição. O político capixaba, até o último minuto, era um dos únicos que dizia acreditar que Huck se lançaria. 

Enquanto no entorno do apresentador as reuniões sobre planos de futuro foram se tornando raras devido à crescente certeza de que ele não se candidataria, Huck manteve sua imagem no foco político. Na última semana de março, atendeu a um convite de um ultrarrestrito grupo de banqueiros para uma conversa por vídeo sobre seus planos na política. O apresentador não se intimidou com o tamanho do patrimônio dos presentes e manteve o discurso de que estava “aberto”, praticando sua “cidadania ativa”. Semanas depois, o mesmo grupo recebeu o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta, este sim alardeando aos quatro ventos sua vontade de subir a rampa presidencial, embora seus números nas pesquisas não sejam animadores. 

Em abril, Huck assinou o manifesto pró-democracia proposto por Mandetta, dos quais foram signatários apenas presidenciáveis, como o próprio ex-ministro, Ciro Gomes, João Amoêdo, Eduardo Leite e João Doria. No grupo de WhatsApp criado por Mandetta para organizar o manifesto, chamado “Polo Democrático”, o apresentador sempre levava mais tempo que os demais para responder as mensagens, alegando que discutiria os pontos com alguns de seus auxiliares. Quando o texto finalmente veio a público, foi questionado por um de seus conselheiros sobre a razão de ter assinado, tendo em vista as poucas chances de lançar-se na corrida. Respondeu que o fez porque Mandetta havia pedido e não deu mais explicações. Naquele momento, até as emas do Alvorada já sabiam que não dividiriam o teto com a família Huck, mas o apresentador ainda participou de uma live com Ciro, Doria, Leite e Fernando Haddad para discutir política. Questionado sobre a live no programa de Bial, disse que não sairá do debate público, a despeito de sua decisão por continuar na tevê.


Durante a pandemia, foram raras as conversas com o grupo do movimento Agora, ao qual Huck se associou em 2017 em sua busca por “renovação”. O mesmo ocorreu com o Renova, centro de formação de lideranças políticas criado pelo empresário Eduardo Mufarej, que recebeu apoio do apresentador. A ausência lançou dúvida entre os organizadores a respeito do real interesse de Huck em participar da política. Além do Agora, outros movimentos de renovação, como o Acredito e o Livres, passaram a orbitar em torno do apresentador, e seu sumiço das discussões ao longo do último ano acabou colocando todos em compasso de espera. “Até o ano passado, nossas expectativas estavam depositadas nele. Mas esse silêncio e a falta de participação prejudicou a agenda de todos os movimentos, que poderia ter avançado se houvesse alguma definição, mesmo sendo a definição de que ele não se candidataria”, afirmou um membro do Agora.

Em setembro de 2019, antes da pandemia, Luciano Huck deu um jantar em sua casa no intuito de aglutinar esforços em torno de uma aliança política. Gostava de dizer que estava “conversando com todo mundo” e considerava essas conversas um primeiro passo para a construção de uma base que sustentasse seu nome. Embora Huck não dissesse que seria candidato, aquele período foi classificado por quem o acompanhava como o de maior entusiasmo com a política. Ele chamou para o jantar Fernando Henrique Cardoso, Rodrigo Maia, Roberto Freire, Armínio Fraga, Eduardo Leite, entre outros. Enquanto todos ainda estavam em pé, na etapa dos aperitivos, Freire lançou uma provocação. Sugeriu a FHC reeditar a aliança que o elegeu presidente em 1994, composta por PSDB, PTB e DEM (então PFL), além do partido de Freire, o Cidadania, que em 1994 se chamava PPS e apoiou Lula. Fernando Henrique tomou a palavra e foi taxativo. Olhando para Huck, disse: “Não. É você que precisa decidir e nos informar.” O apresentador não falou nada e deu um sorriso desconcertado. Quase dois anos depois, veio a resposta.

Todos os entrevistados desta reportagem pediram que seus nomes fossem mantidos em sigilo para evitar desentendimentos com seus grupos políticos ou não colocar em xeque a relação com Huck.

Ana Clara Costa (siga @anaclaracosta no Twitter)

Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época

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