colunista

Cedros-do-líbano e cinema – história de resistência

Que o atual governo tenha serenidade suficiente para tratar o cinema brasileiro com respeito

Eduardo Escorel
24jul2019_08h03

Plantados por volta de 1760, três cedros-do-líbano do antigo castelo de Roissy, 25 quilômetros ao norte de Paris, têm mais de cem anos quando é realizada, em dezembro de 1895, a primeira sessão pública do Cinematógrafo Lumière com ingressos a 1 franco.

Trinta e três espectadores comparecem ao salão indiano, pequena sala com cerca de cem cadeiras do Grand Café, no nº 14 do boulevard des Capucines, para assistir a dez filmes dos irmãos Auguste e Louis Lumière, com a duração total de cerca de vinte minutos. O primeiro a ser exibido é A Saída da Fábrica Lumière em Lyon, de 45”, filmado meses antes.

Em pouco tempo, mais de duas mil pessoas passam a se aglomerar diariamente na entrada do Grand Café. Algumas brigas irrompem e a polícia é obrigada a intervir para serenar os ânimos. Os espectadores reagem com estupor diante do que chamam de imagens animadas. Para um jornalista “quando pudermos fotografar seres queridos, não mais imóveis, mas em movimento, em ação, fazendo gestos familiares, movendo os lábios para falar, a morte deixará de ser absoluta”.

Três anos depois da estreia do Cinematógrafo Lumière em Paris, o anúncio de uma filmagem da baía de Guanabara é publicado na imprensa carioca. Em 1899, há notícia de um filme “posado”, como eram chamados os de ficção. A partir de 1900, a produção de pequenos registros documentais e encenados cresce ano a ano, no Brasil, chegando a número expressivo a partir de 1908-09.

Nas décadas seguintes, os cedros-do-líbano de Roissy continuam firmes em seu lugar, enquanto o cinema se torna a arte por excelência do século XX em âmbito mundial. Ter produção cinematográfica própria se torna aspiração de países periféricos que desejam se integrar ao pequeno grupo das grandes potências.

Dizem que o presidente da França de 1969 a 1974, Georges Pompidou (1911-1974), teria notado os cedros-do-líbano ao sobrevoar de helicóptero a área onde estava sendo construído o aeroporto Paris-Charles de Gaulle, e exigiu que o traçado das futuras autoestradas e da linha férrea de acesso poupassem duas dessas árvores. A terceira, mais distante, não seria afetada.

O fato é que as duas árvores continuam lá, em 1982, na beira da autoestrada A1, no acesso ao aeroporto, quando o futuro do cinema volta a ser posto em questão. Apocalípticos haviam recebido o filme sonoro, a partir de 1927, e a televisão, a partir dos anos 50, como ameaças à sobrevivência da linguagem cinematográfica. Temores renovados em 1982, quando surge a câmera de vídeo profissional portátil da Sony e gravações em fita magnética de meia polegada começam a substituir a película.

A cada novo invento técnico que, além de alterar o modo de produção e difusão de filmes, afeta a rentabilidade do negócio, sentenças de morte são decretadas. Mas, assim como os cedros-do-líbano de Roissy, o cinema persiste, mesmo depois do predomínio do registro e da edição digital que mudaram, sem dúvida, a própria natureza da imagem cinematográfica, assim como alteraram a chamada “experiência fílmica” que passou a ocorrer diante de múltiplos dispositivos à luz do dia.

No 35º Festival de Cannes, em 1982, Wim Wenders pede a dezesseis diretores e diretoras que falem sobre a crise do cinema e suas possibilidades de sobrevivência. No filme Quarto 666, antes dos comentários filmados no Hotel Martinez, Wenders mostra o mais majestoso dos dois cedros-do-líbano de Roissy. “Deve ter ao menos 150 anos”, ele diz em off. E completa: “[O cedro] tinha visto o início da fotografia e toda a história do cinema, ao qual poderá muito bem sobreviver.” Assinala, dessa maneira, o valor do que se preserva e permanece em face de novidades muitas vezes efêmeras. Mas aos entrevistados, entre outras questões, Wenders pergunta: O cinema “em breve será uma forma de arte defunta?”

cedros-do-líbano e cinema

Para Jean-Luc Godard, o primeiro entrevistado, morrer “não é mau. É um momento. Eu vou morrer. Será que minha arte vai morrer? […] É preciso partir. Isso é bom. Tanto melhor”, diz ele, lacônico e objetivo, como de costume.

Romain Goupil, líder do movimento estudantil em maio de 1968, recebeu naquele ano por Morrer aos 30 Anos (1982) a Câmera De Ouro, dada no Festival de Cannes ao melhor filme de diretor estreante, e o Prêmio da Juventude, dado no mesmo festival. Ele diz à câmera de Wenders ter impressão “que o cinema tal como o conhecemos vai, de fato, morrer. Ao fazer Morrer aos 30 Anos, de tempos em tempos achava que tudo aquilo era a pré-história… que trabalhava com elementos pré-históricos. Quer dizer: o som, as duas pistas, a relação com o processo do laboratório, tudo que se passa em torno do suporte de película me dava a impressão de algo de muito, muito pesado, muito complicado, com relação ao desejo de contar uma história”.

Ana Carolina, participando da mostra Un Certain Regard do festival com Das Tripas Coração (1982), declara que “aqui eu, de repente, posso perceber que o autor cinematográfico desaparece e que a linguagem e a pesquisa não são tão interessantes assim. Eu não sei o que mais eu poderia dizer, mas gostaria de deixar bem claro que o cinema eletrônico não me interessa. E acho que não interessa ao verdadeiro artista, absolutamente”.

Mas talvez seja Michelangelo Antonioni (1912-2007), com 70 anos na época, quem responde à questão de Wenders de maneira mais lúcida e pragmática: “É verdade que o cinema corre perigo de morrer, mas é preciso considerar outras coisas. […] Nós devemos procurar nos adaptar àquela que será a exigência do espetáculo do futuro […] Provavelmente, todas essas transformações ocorrerão e não nos restará nada a fazer senão nos adaptarmos. […] Eu creio que […] não será, afinal, tão difícil nos transformarmos em homens novos mais bem adaptados às novas tecnologias. É isso tudo que eu tinha a dizer.” Em 1985, Antonioni sofreu um derrame e perdeu a fala. Ainda assim, conseguiu fazer mais dois filmes antes de morrer aos 94 anos.

Vinte e cinco anos depois da filmagem de Quarto 666, os cedros-do líbano de Roissy continuam em seu lugar, quando Gustavo Spolidoro propõe a Wenders que ele fique diante da câmera no quarto de um hotel em Porto Alegre. O diretor alemão se vê, então, na mesma situação de seus colegas quando os filmou em 1982 e aproveita a oportunidade para reavaliar o pessimismo do passado, reafirmando a crença no valor do que permanece:

“[…] o cinema sobrevive a nós. O filme [Quarto 666] sobreviveu ao Michelangelo [Antonioni], e agora este filme aqui [De Volta ao Quarto 666] vai sobreviver a mim. […] Na época em que Quarto 666 foi feito [1982] éramos todos pessimistas. O futuro do cinema não nos parecia bom. […] De fato, quando eu penso o quão pessimista era nossa previsão em 1982, é incrível que o cinema tenha se mantido tão bem. Ele não só ultrapassou nossas mais altas expectativas no período posterior, nos anos 90 e hoje no século XXI, mas saiu sozinho do buraco em que se encontrava. O cinema está mais vivo do que nunca. […] Quanto ao futuro do cinema, eu não tenho medo algum, muito pelo contrário. Eu invejo os jovens que hoje podem começar a fazer filmes, sua liberdade, suas possibilidades ainda não descobertas, advindas da tecnologia. Acredito que nós apenas arranhamos todo o potencial da tecnologia digital. […] Eu me alegro com todos os filmes que me demonstram que o cinema pode ser completamente redescoberto, e sempre pode haver descobertas e redescobertas. Naquela época, nós pensamos que o vídeo, a televisão, iriam destruir a linguagem do cinema. Aconteceu exatamente o contrário. […] O cinema está novo, como sempre foi, pois as pessoas precisam do cinema.”

“As pessoas precisam do cinema” – quero crer que isso seja verdade. Não sei se Wenders teve notícia de que um dos dois cedros-do-líbano de Roissy foi abatido entre o final de maio e início de junho deste ano. Com setenta por cento do tronco degradado, “a árvore histórica estava doente”, conforme declarou a empresa de engenharia ADP (Aeroportos de Paris), responsável pela construção e administração do aeroporto Paris-Charles de Gaulle. Os primeiros sinais de alerta haviam sido dados em 2012 e 2017 com a queda de dois galhos invadidos por cupins.

“É preciso partir. Isso é bom. Tanto melhor”, Godard disse a Wenders em 1982. Mas o próprio Godard realizou mais de vinte filmes desde aquela época e hoje, aos 88 anos, permanece ativo. Se a sala escura perdeu sua exclusividade como lugar onde se pode assistir a filmes, produção, distribuição e exibição permanecem ativas. A linguagem do cinema, por sua vez, praticada de forma ampla e diversificada em todo o mundo, apesar do predomínio de banalidades, continua servindo para realizar filmes de valor.

Ao receber a notícia de que um dos dois cedros tinha sido cortado, o historiador de Roissy, Henri Houmaire, pensou que tivesse sido o mais bonito dos dois. Soube depois que fora o outro. Segundo ele, “a árvore abatida era perto demais da linha dos trens regionais de Paris. Muitos de seus galhos tinham sido suprimidos ao longo dos anos. Eu lamento que não se tenha tido mais consideração por essa árvore quando foi construída a plataforma aeroportuária”.

O cedro-do-líbano que fascinou Wenders recebeu, em 2005, o prêmio Coup de cœur (Amor à primeira vista), dado pelo júri da Jornada Internacional das Florestas. Continua firme, no mesmo lugar, visto diariamente por milhares de pessoas que passam por ele. Nada indica que esteja ameaçado e vá deixar de acompanhar a produção cinematográfica francesa, em primeiro lugar, e também a de grande parte do mundo.

O fluxo de filmes brasileiros diante do cedro-do-líbano Amor À Primeira Vista é antigo. Será interrompido outra vez? Esperemos que o atual governo tenha serenidade suficiente para tratar o cinema brasileiro com respeito, reconhecendo seus méritos e dialogando sobre suas deficiências com vozes experientes e respeitáveis do setor. Acima de tudo, é imperativo evitar política de terra arrasada, a partir de decisões impulsivas, sem fundamento, que paralisem a atividade. Por sua história e suas realizações, nossa atividade cinematográfica deve ser tratada com a consideração que faltou ao cedro-do-líbano abatido.

Na beira da autoestrada tem um cedro-do-líbano/Tem um cedro-do-líbano na beira da autoestrada/Tem um cedro-do-líbano/Na beira da autoestrada tem um cedro-do-líbano” chamado Amor à Primeira Vista, que aguarda novos filmes brasileiros. “Nunca me esquecerei desse acontecimento/Na vida de minhas retinas tão fatigadas/Nunca me esquecerei que na beira da autoestrada/Tem um cedro-do-líbano/Tem um cedro-do líbano na beira da autoestrada/Na beira da estrada tem um cedro-do-líbano” (com meu agradecimento e minha homenagem a Carlos Drummond de Andrade).

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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