depoimento

Cercados pelas chamas

Uma família encurralada em casa por um incêndio no Cerrado

Ana Carolina Calabró Queiroga
18set2020_17h07
Crédito: Ana Carolina Calabró Queiroga | Intervenção de Paula Cardoso

No sábado, dia 12 de setembro, vários focos de incêndio se espalharam pela Serra da Moeda, em Minas Gerais, atingindo uma área de preservação ambiental. A administradora Ana Carolina Calabró Queiroga, de 45 anos, tem uma casa na região, onde a família costuma passar os fins de semana. Ela narra como se viram cercados pelas chamas, sem ter como fugir.

Em depoimento a Luiza Ferraz

 

A construção, uma casa grande, feita de madeira, fica a 70 km de Belo Horizonte, no município de Moeda, em Minas Gerais. É a nossa casa de campo, minha e do meu marido. Moramos na capital mineira, mas quase todo final de semana pegamos o carro e vamos até lá, para relaxar um pouco e curtir a natureza. O terreno faz parte de um condomínio privado, cercado por uma área de preservação ambiental. No cenário montanhoso à volta, a vegetação é típica do Cerrado. 

Pegamos a estrada na quinta-feira, dia 10, já de noite. Outras cinco pessoas, entre familiares e amigos, iam conosco. No caminho, pela janela do carro, não dava para perceber nada de diferente, mas, ao chegar, o caseiro nos avisou que havia focos de incêndio por perto. 



Na manhã de sexta, dia 11, avistamos a fumaça e as primeiras chamas, ao longe. Pareciam se concentrar na entrada do condomínio, que fica a mais ou menos 10 km da nossa casa. Chamamos os bombeiros – e logo descobrimos que muitas outras pessoas, em toda a região, tinham feito a mesma coisa. Os pedidos eram muitos, e eles não conseguiriam nos atender de imediato. Por sorte o condomínio tem brigadistas. Foram eles que se ocuparam do incêndio, que atingiu duas casas perto da portaria. Passaram o restante do dia tentando apagar as chamas. 

No sábado, dia 12, no final da manhã, recebemos uma boa notícia. As chamas que tinham dado trabalho para os brigadistas na véspera haviam sido controladas. Mas o alívio durou pouco, porque logo em seguida percebemos uma nova coluna de fumaça, dessa vez na Serra de Moeda, que fica logo atrás da nossa casa. 

Eram vários pontos, muitos focos de incêndio. A fumaça só aumentava. Continuamos atentos, preocupados com o fogo, que não parava de crescer por trás da serra. No começo da tarde, entrei em contato de novo com os bombeiros. Queria saber se um helicóptero ou alguma aeronave poderia sobrevoar o local. Havia muita fumaça, e parecia importante tentar ao menos saber a extensão e a gravidade do incêndio. Os bombeiros disseram que haviam recebido outros chamados, e que já estavam na região. Da nossa casa dava para ver que o fogo, por trás da montanha, só aumentava. De repente as chamas surgiram do lado de cá do morro, não muito distante de nós. Eram quatro da tarde quando o incêndio ultrapassou o cume e passou a ser visível do lado de cá da serra. Menos de duas horas depois, ele chegaria ao pé da minha residência. 

Ainda às quatro, assim que ficou claro que o incêndio vinha em nossa direção, corremos até a portaria para pedir ajuda. Ligamos também para o prefeito da cidade. Enquanto as chamas desciam a serra, a prefeitura mandou dois caminhões-pipa para o condomínio: um deles ficou parado na entrada, o outro seguiu em frente, atravessando a propriedade, que é extensa e em grande medida desocupada, com muitos lotes vagos. Na parte final do condomínio, para onde se dirigiu o segundo caminhão pipa, só havia uma família e uma casa ocupada naquele momento: a nossa.

O caminhão pipa ficou então estacionado na frente da nossa casa, enquanto continuávamos a acompanhar o movimento das chamas. Os brigadistas, que também tinham vindo nos ajudar, tentaram nos acalmar. “O fogo vai chegar aqui, mas vai chegar de uma forma que a gente vai conseguir conter, pode ficar tranquila”, um deles me disse. “Nós vamos resguardar as nossas vidas e a sua casa”, insistiu. Ao que eu respondi: “Olha, a minha prioridade são as nossas vidas.” 

Estávamos em família, sete pessoas, incluindo a minha sogra, de 83 anos. Com o fogo já muito perto, decidimos que não havia alternativa a não ser tirá-la dali. Pedimos ao meu cunhado que pegasse o carro e fosse embora com ela, levando também uma amiga que tinha vindo passar o fim de semana conosco. Mas, quando eles tentaram sair, o fogo surgiu de onde ninguém esperava, pela parte mais alta do lote, atravessando a estrada e impedindo a passagem. Estávamos cercados. Tudo aconteceu numa questão de minutos. Se meu cunhado tivesse saído um pouco antes, acho que teriam ficado presos, encurralados, porque lá na frente também tinha outro foco que já atravessava a estrada.

Crédito: Ana Carolina Calabró Queiroga

 

Aí começou aquela correria: buscávamos baldes, meu marido veio com uma mangueira, meu cunhado também, o caminhão pipa, e tome de jogar água, molhando tudo que dava ao redor da casa. A vegetação queimava, as chamas eram gigantes. Nós estávamos preocupados com a frente da casa e com uma das laterais, mas, quando vimos, o fogo estava vindo por cima, por essa parte mais alta do terreno. O caminhão manobrou, indo naquela direção, para ajudar a debelar o fogo. O incêndio já consumia tudo do outro lado, e também no fundo da casa. Eu fico até emocionada: foi aquela coisa de a gente correr e tentar fazer algo pela natureza, sabe? Dói você ver aquilo tudo destruído, pegando fogo. É um lugar muito bonito. 

Quando a gente começou a tentar conter o incêndio, a minha preocupação, além de resguardar todos ali, era com a natureza em volta – e também com a minha casa, que é de madeira. A gente foi tentando jogar água, o caminhão pipa jogava água para todos os lados, enquanto os brigadistas abafavam o fogo e as chamas que estavam mais próximas. Até que, afinal, conseguiram controlar o incêndio, pelo menos no nosso terreno. Da mesma forma que o fogo vem muito rápido, ele vai muito rápido também. Havia agora uma nova preocupação: a casa de uma vizinha, dois lotes abaixo da nossa. Eu vi aquele fogaréu se movendo e falei para o meu marido: “A casa da Maura está pegando fogo, agora a gente tem que ir para lá.” Só que não era possível sair, a estrada estava cercada. O pessoal do caminhão pipa avisou: “Não podemos ir lá agora, precisamos esperar.” Só um pouco mais tarde conseguiram descer. 

Foi um pânico, uma cena de filme. Algo que eu nunca achei que fosse vivenciar. Já era noite, umas sete e meia, quando a gente conseguiu apagar o fogo de verdade. Depois os bombeiros vieram avaliar a casa, falaram que a gente não estava em perigo e que não tinha como pegar fogo mais. Mas nem tinha mais o que queimar, de toda forma: sobrou só uma parte da grama em volta, e uma hortinha que tínhamos conseguido preservar. A vegetação ao redor foi toda embora. O meu lote tem 3 hectares e foi tudo embora. Os danos não eram só no meu terreno: do condomínio todo, 80% estava queimado. 

Foram cenas horrorosas. Teve uma hora que eu realmente achei que a gente fosse morrer, porque ficamos cercados pelo fogo: o caminhão estava de um lado, o fogo estava de outro. De noite, ninguém conseguiu dormir. Quando amanheceu, no domingo, fui dar uma volta no lote, para ver o que tinha sobrado. Chorei muito ao pisar naquela cinza fofa, vendo meu pé afundar. Voltei para casa com a perna suja de cinzas, toda preta. Aquilo me doeu muito, porque a gente tinha um carinho enorme, um cuidado com aquilo ali. Nós nos preocupávamos em fazer reflorestamento, comprávamos mudas de plantas típicas do Cerrado. Aí vem uma bola de chamas e acaba com tudo em poucas horas. Isso sem falar nos animais. Eu vi pássaro morto, fiquei arrasada. A gente já tinha visto incêndios nessa região, inclusive no condomínio, mas não nessa proporção.

Casa de Ana Carolina com área queimada em volta | Crédito: Ana Carolina Calabró Queiroga

Tudo indica que foi criminoso, porque foram vários focos simultâneos, em diversos pontos. Você percebe que foi proposital. Eu fico imaginando que monstro é capaz de fazer uma coisa dessas. É muito triste. 

Entre nós, ninguém se machucou. A casa ficou com muita fuligem, e as roupas tinham cheiro de queimado. Senti também a garganta, que ficou bem irritada, e os meus olhos. Foram uns dois ou três dias assim, parecendo que eu estava com dor de garganta. A minha pele ficou toda ressecada, meus lábios como se estivessem queimados de frio, a pele nos cantos da boca descascando – acho que porque ficamos muito próximos do calor das chamas. A nossa salvação mesmo foram os brigadistas, e esse caminhão pipa. Se não fossem eles, teria acontecido o pior.

Ana Carolina Calabró Queiroga

Coordenadora do Pérolas de Minas, grupo de apoio a mulheres em tratamento de câncer de mama.

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