questões cinematográficas

Cinema político – o risco da obsolescência

Crítico escreve carta aberta aos cineastas brasileiros: “Falhamos por omissão”

Eduardo Escorel
11out2018_17h12

A sensação de fracasso é particularmente dolorosa, em momentos graves como este, no qual um candidato recebeu 49 milhões de votos no primeiro turno, 18 milhões a mais do que o segundo colocado, e poderá vir a ser eleito presidente da República.

O mal-estar provém não apenas do candidato ser quem é – deputado federal tosco, grosseiro, autoritário, moralista, que aclama a tortura, aplaude a ditadura e ameaçou fuzilar adversários, aliado dos ruralistas e da bancada da bala –, como se semelhante perfil não bastasse, mas resulta também do fato de milhões de eleitores, representando 46% dos votos válidos, terem manifestado preferência pelo candidato com características inadequadas para o cargo que pretende ocupar.

Falhamos, em primeiro lugar, por omissão. Nosso cinema não mantém, de forma geral, interlocução efetiva com o público, o que leva à inexistência do elo vital que seria sua razão de ser. Além disso, os raros filmes recentes a lidarem com temas políticos, em particular os que tratam do impeachment de Dilma Rousseff, não passam de pregações para convertidos, deixando por isso mesmo de abordar aspectos cruciais do seu tema.

Independente de serem contra ou a favor do processo que resultou na perda do mandato da ex-presidente da República, esses filmes oscilam entre postura menos (O Processo) ou mais acentuadamente militante (Já Vimos Esse Filme, Impeachment Brasil: do Apogeu à Queda e Impeachment, o Brasil Nas Ruas), os dois últimos sendo manifestações assumidas de proselitismo. Por ser baseado na observação estrita dos eventos, o que ocorre com O Processo é mais constatar do que revelar, conforme comentamos aqui no site.

Ao se limitarem a reafirmar suas próprias convicções arraigadas, sem maior esforço para compreender o que se passa à volta, os realizadores desses documentários restringem o alcance que eles poderiam ter, pois passam a se dirigir apenas aos que compartilham de antemão suas posições – assim, divididos entre contra e pró, esses filmes acabam se cancelando uns aos outros.

O que O Processo e os dois filmes que tiveram lançamento restrito mais recente (Já Vimos Esse Filme e Impeachment, o Brasil Nas Ruas) parecem confirmar é a obsolescência de um modelo de cinema político cuja premissa é defender posição pré-definida com intenção persuasiva típica da propaganda e publicidade.

Lançados entre um e dois anos depois do processo de impeachment, O Processo, Já Vimos Esse Filme e Impeachment, o Brasil Nas Ruas perderam sua atualidade e poder de influenciar nos acontecimentos, conforme pretendiam. O único que parece ter escapado dessa sina e preservado alguma eficácia, é Impeachment Brasil: do Apogeu à Queda, por ter se antecipado aos demais. Publicado no YouTube em abril de 2017 por Brasil Paralelo, teve mais de 500 mil visualizações até o início deste mês de outubro.

Panfleto vergonhoso de 76’, feito com imagens de péssima qualidade saqueadas de outros documentários, reportagens, e do filme Antonio Gramsci – Os Dias do Cárcere (1977), de Lino del Fra, Impeachment Brasil: do Apogeu à Queda é conduzido por narração peremptória em voz off e mais de vinte entrevistados, entre outros, Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé, Ronaldo Caiado, Onyx Lorenzoni e Francisco Abrunhosa, ativista do movimento Avança Brasil, que acusa Fernando Henrique Cardoso de ter começado “a implantar o comunismo no Brasil” [sic].

O mesmo elenco atua em Impeachment, o Brasil Nas Ruas que inclui trechos das mesmas entrevistas e é, ao menos em parte, versão mais curta, mas igualmente sectária, de Impeachment Brasil: do Apogeu à Queda, que termina com um plano da rampa de acesso ao Palácio do Planalto. Pouco antes, um entrevistado conclui: “O resumo é esse: daqui para frente, agora, é que a gente vai precisar ter uma estratégia que pouca gente ainda está pensando.” Agora, já sabemos qual é essa estratégia até aqui bem-sucedida – conquistar o coração e as mentes da maioria dos eleitores.

Resguardamos para outro post o retardatário Excelentíssimos, exibido no Festival de Brasília encerrado em 23 de setembro, também dedicado ao impeachment, mas com estreia marcada só para 22 de novembro.

Nossa omissão, mencionada parágrafos acima, fica evidente quando percebemos que nenhum filme se contrapôs às acusações e críticas feitas em Impeachment Brasil: do Apogeu à Queda. O dogmatismo, presente também em O Processo e Já Vimos Esse Filme, embora em menor grau, omite o que realmente importava fazer – um ensaio crítico sobre os descaminhos do PT no poder da perspectiva da própria esquerda.

Vistos com atraso de dois anos em relação à ocorrência dos fatos que abordam, o anacronismo desses filmes fica acentuado. Diante da eleição presidencial em curso, o impeachment em si passou a ser um episódio secundário e Dilma Rousseff se tornou uma figurante da história, posição ratificada pela derrota de sua candidatura ao Senado.

Fica claro que O Processo e Já Vimos Esse Filme erraram o alvo quando passaram ao largo da rejeição ao PT expressa na eleição de outubro de 2016, quando a presença mais expressiva do partido ficou reduzida a três estados, Acre, Bahia e Pernambuco, indicando tendência comprovada este mês no primeiro turno da eleição presidencial.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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