questões do império

Como desacreditar uma eleição

Enquanto Trump incita eleitor a votar duas vezes, gigantes da internet tentam sair da paralisia para prevenir fraudes digitais

Letícia Duarte
10set2020_11h25
Intervenção de Paula Cardoso sobre foto de Evan El-Amin_Shutterstock

O alerta veio em forma de textão no Facebook.

Em uma mensagem de 121 linhas, o CEO da companhia, Mark Zuckerberg, compartilhou na quinta-feira passada sua apreensão sobre o risco de caos nas eleições americanas, agendadas para 3 de novembro, em meio à pandemia do novo coronavírus. “Também me preocupa que, com nossa nação tão dividida e os resultados da eleição podendo levar dias ou até semanas para serem apurados, possa haver um risco maior de agitação civil em todo o país”, disse, ao anunciar medidas para conter campanhas de desinformação e manipulação eleitoral na plataforma, como a restrição de anúncios políticos na semana que antecede à votação. 

Zuckerberg não está sozinho. Há mais de um ano, o Facebook e outros gigantes da tecnologia, como Google, Microsoft e Twitter, têm se reunido periodicamente com agências de inteligência do governo americano, incluindo o FBI, para discutir ameaças digitais à integridade das eleições. Quando o grupo foi formado, a principal meta era evitar a repetição dos escândalos de 2016, como a interferência russa no processo. De lá para cá, problemas internos aumentaram a lista de preocupações, como os ataques do presidente Donald Trump ao sistema de votação. 

No mesmo dia em que o CEO do Facebook reconhecia publicamente riscos ao sistema democrático (“Essa eleição não vai ser habitual. Nós todos temos a responsabilidade de proteger nossa democracia”), Trump recomendou a eleitores que votassem duas vezes – pelos correios e presencialmente – para testar o sistema de votação. Por incentivar a fraude e “violar políticas de integridade cívica e eleitoral”, Trump teve posts ocultados pelo Twitter. Antes disso, a rede já havia ocultado outras postagens do presidente por “afirmações enganosas que poderiam desencorajar pessoas a votar”, como seu tuíte dizendo que caixas de correio utilizadas em votação por correspondência não são higienizadas contra o coronavírus.



Doze pontos atrás do candidato democrata Joe Biden nas pesquisas de opinião, Trump elegeu o voto por correspondência como seu alvo preferencial na campanha. Sim, você já viu esse filme, quando Jair Bolsonaro lançou suspeitas sobre as urnas eletrônicas na campanha presidencial de 2018 no Brasil. Trump vem usando suas redes sociais para, sem provas, disseminar suspeitas de fraude eleitoral e tentar desacreditar o processo, como um antídoto para contestar resultados em caso de eventual derrota.  

O voto pelo correio não é uma novidade no sistema de votação americano, mas neste ano a opção deve atrair adesão recorde, como alternativa para reduzir aglomerações nos centros de votação. Uma pesquisa conjunta realizada em julho por Harvard e outras três universidades americanas revelou que 41% dos entrevistados considera “bastante provável” o voto a distância em 2020, quase o dobro dos 21% que o fizeram em 2016. O aumento na demanda deve retardar a apuração dos resultados, o que  alimenta as especulações sobre o destino da eleição. 

A preocupação é tanta que analistas americanos têm se debruçado sobre o que chamam de “cenários do pesadelo” eleitoral, projetando variações de caos e instabilidade pós-eleição. Na versão mais leve, a apuração se arrasta por semanas e a disputa de narrativas sobre o vencedor e supostas fraudes na contagem criam tensão nas ruas e nas redes sociais. Nas mais dramáticas, Trump se recusa a deixar o poder (em entrevista à Fox News em julho, ele se negou a dizer se aceitaria uma derrota: “Tenho que ver”), o resultado da eleição vira um longo imbróglio jurídico e a democracia americana se vê ameaçada pela descrença de ambos os lados no processo eleitoral. 

“O problema é bem mais profundo do que quem vai ganhar a eleição”, disse à piauí Sinan Aral, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e autor do livro The Hype Machine: How Social Media Disrupts Our Elections, Our Economy, and Our Health–and How We Must Adapt (A Máquina de hypes: como as mídias sociais abalam nossas eleições, nossa economia e nossa saúde – e como devemos nos adaptar, em tradução livre). Num cenário de tanta polarização e campanhas de desinformação minando a eleição, ele avalia que todos saem perdendo. “O maior problema é que esses ataques enfraquecem nossa confiança na democracia.” E lembra que os problemas vão bem além das eleições de novembro, ou das fronteiras americanas. Em seu livro, ele cita o Brasil como um dos países ameaçados por campanhas de desinformação, observando que o país foi alvo de monitoramento pelo Facebook durante as eleições de 2018. “Não é um problema dos Estados Unidos, é um problema global.” 

Frente a isso, ele avalia que as respostas dadas até agora pelas empresas de tecnologia são pífias. “Não há uma tentativa sistemática ou abrangente de impedir a interferência eleitoral, são políticas pontuais”, analisa. Como exemplo, Aral comenta a decisão do Facebook de suspender novos anúncios políticos na semana anterior à da eleição. “Não vai mudar nada no contexto orgânico das fake news.”  

Aral fala com a autoridade de quem liderou um dos estudos mais abrangentes sobre a disseminação de notícias falsas na internet. Ao lado de dois colegas do MIT, ele analisou o histórico de 126 mil mensagens compartilhadas por mais de 3 milhões de pessoas ao longo de dez anos no Twitter, de 2006 a 2017, num estudo publicado na revista Science em 2018. A conclusão é que notícias falsas se disseminam seis vezes mais rápido do que as verdadeiras. Um tuíte falso, por exemplo, tem 70% mais chances de ser retuitado. E, ao contrário do que se pensa, não são os robôs os principais responsáveis por espalhar as falsidades. “Os robôs aceleraram a disseminação de notícias verdadeiras e falsas na mesma proporção, do que se deduz que os humanos são os maiores responsáveis pela disseminação dramática de notícias falsas”, assinalam os autores no relatório da pesquisa. 

Entre as medidas recomendadas pelo pesquisador às plataformas, estão desmonetizar páginas que propagam conteúdos falsos e excluir notícias falsas dos mecanismos de busca. Aral diz que serviços de fact-checking e rotulação de notícias falsas também ajudam, mas chama atenção para um efeito colateral de ações pontuais. “Quando você rotula algo como falso, as pessoas assumem que os conteúdos não rotulados são verdadeiros.” 

 

Em meio às tensões crescentes, o Facebook promete agir para ampliar a vigilância sobre os posts dos candidatos e firmou uma parceria com veículos de imprensa, como a agência Reuters, para fornecer resultados oficiais sobre a apuração eleitoral. “Se algum candidato ou campanha tentar declarar vitória antes que os resultados sejam divulgados, adicionaremos um alerta à sua postagem informando que os resultados oficiais ainda não foram publicados, direcionando as pessoas aos resultados oficiais”, escreveu Zuckerberg em seu post. 

Apesar da menção genérica a “algum candidato”, a iniciativa responde a um temor crescente de que o presidente Trump use as redes sociais para proclamar prematuramente sua reeleição, sem esperar pela contagem dos votos por correspondência. O cenário foi projetado pela consultoria democrata Hawkfish, que na semana passada alertou para o risco de uma “miragem vermelha” (cor associada aos republicados) em 3 de novembro, já que números iniciais devem indicar uma vantagem de Trump na apuração. “Na noite da eleição, nós vamos ver Trump em uma posição mais forte do que ele atualmente terá”, projetou o CEO da Hawkfish, Josh Mendelsohn, em entrevista ao programa Axios on HBO.

Um dos motivos é que mais eleitores republicanos pretendem comparecer às urnas pessoalmente e terão seus votos contabilizados antes. Em uma enquete da Universidade Monmouth, 72% dos entrevistados democratas responderam que consideravam votar por correspondência, enquanto apenas 22% dos republicanos assinalaram a opção. Outro estudo, realizado na Universidade de Ohio, em 2013, ajuda a entender por que Trump teme os votos pelo correio. Desde 2000, os democratas têm se saído melhor à medida que os votos tardios são contabilizados, o que frequentemente tem contribuído para uma virada de candidatos democratas.

Em meio às projeções de caos, a diretora de privacidade do consumidor do Centro para Internet e Sociedade da escola de Direito da Universidade de Stanford, Jennifer King, acredita que o maior desafio é sair do “modo de pânico” para repensar o uso das redes sociais e seus impactos na democracia no longo prazo. Para ir além de medidas que parecem “enxugar gelo”, ela acredita que serão necessárias mudanças estruturais. “É literalmente impossível para as plataformas monitorar tanto conteúdo produzido diariamente”, argumentou, em entrevista à piauí. Como alternativa, King sugere a limitação do número diário de postagens de cada usuário nas redes sociais. Caso a mudança fosse implementada, os usuários seguiriam livres para expressar suas opiniões em outros canais, mas perderiam a vitrine privilegiada que as plataformas mais populares oferecem – o que, segundo King, ajudaria a reduzir o fluxo da desinformação e facilitaria a remoção de conteúdos falsos. “Nos acostumamos com essa ideia de que as redes sociais são um espaço aberto e infinito para postarmos o que quisermos, mas será que não está na hora de questionar isso?”, pergunta. 

O futuro também preocupa Aral. No seu livro The Hype Machine, o autor avisa que tudo o que já sabemos sobre fake news e interferência eleitoral até o momento, por mais assustador que pareça, ainda pode ser considerada a “boa notícia” da história, já que o pior ainda está por vir. “Estamos na beira de uma nova era de mídia sintética que alguns temem que nos levará ao fim da realidade”, escreve. O próximo capítulo será o alastramento das deep fakes, com o uso de inteligência artificial para falsificação de discursos em vídeo. “Se é preciso ver para crer, a nova geração de fake news ameaça nos convencer mais do que qualquer fake news que já tenhamos visto até agora”, alerta. Se o cenário eleitoral de 2020 parece caótico, tudo indica que as definições de pesadelo estão prestes a serem atualizadas. 

 

Letícia Duarte (siga @leticiaduarte no Twitter)

Jornalista, foi repórter do jornal Zero Hora. Mora em Nova York e é mestre em Política e Global Affairs pela Universidade de Columbia.

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