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Como foi feita a capa da piauí

Pequena história da primeira edição do ano

08jan2026_00h18

Entre os nossos leitores, há uma expectativa mensal que se resume numa frase: “Qual será a capa da piauí?” Todos os meses, a revista publica algum trabalho artístico na sua capa, que pode ser uma sugestão do artista ou uma encomenda da Redação. Às vezes, a ideia nasce, cresce e chega às bancas e às redes exatamente como foi pensada desde o início. Outras vezes, a ideia morre em seguida e é substituída por outra. Em outros casos ainda, nem a segunda ideia resiste: vem uma terceira opção e assim sucessivamente. É o processo normal até que a capa certa seja encontrada.

 

Para fazer a primeira capa do ano de 2026, a diretora de arte da piauí, Cecilia Marra, encomendou ao ilustrador Vito Quintans uma imagem que refletisse as decisões desastrosas que o Congresso Nacional vinha aprovando até entrar em recesso: uma infestação de ratos no Parlamento. Como a revista gosta da autorreferência, a capa deveria remeter à da edição de junho de 2025, na qual dezenas de bois caminham em direção ao Congresso. Foi publicada quando os senadores afrouxaram as regras do licenciamento ambiental, abrindo mais espaço para exploração agropecuária na Amazônia.

 

 

 

A encomenda da capa dos ratos foi feita na sexta-feira, 12 de dezembro, já que o fechamento estava previsto para o dia 18 de dezembro. Na manhã de segunda-feira, dia 15, um esboço bastante avançado chegou à direção da revista. Uma vez aprovado, Quintans, que desenha no computador com os programas Photoshop e Krita, refinou seu trabalho até o dia seguinte. Na imagem, os ratos apareciam entrando no Congresso, exatamente como o rebanho de gado da capa de junho. Em conversa entre o diretor de Redação, que fica no Rio de Janeiro, e a diretora de arte, que está baseada em São Paulo, chegou-se à conclusão de que era preciso desorganizar um pouco a rataria, com uns bichos entrando e outros saindo no Congresso. Em um novo esboço, enviado à Redação na noite de terça, Quintans, que trabalha em Belo Horizonte, introduziu o movimento de uma infestação. Uns ratos caminhavam sobre a cúpula menor do edifício do Congresso, que fica voltada para baixo, onde está o Senado; outros se acumulavam sobre a cúpula maior, voltada para cima, da Câmara.

 

No dia seguinte, quarta-feira, dia 17, os principais elementos da capa estavam todos no lugar certo. Faltava apenas povoar mais o espaço da página, calibrando bem o tamanho dos bichos. No início da tarde, Quintans aprontou outra versão, com o acréscimo de alguns detalhes. No fim da tarde, a Redação recebeu a capa em sua forma final, depois das idas e vindas de praxe. Com a aprovação da Redação, o artista, com seu trabalho concluído, fez as malas e embarcou num voo para Campina Grande, na Paraíba, onde passaria as festas de fim de ano. Como raramente acontece, a capa estava pronta um dia antes do prazo. Missão cumprida, sem transtornos.

 

 

 

Eis que a mesma ideia de uma rataria tomando o Congresso começou a circular por aí. De início, timidamente. Mas o Congresso havia aprovado o projeto da dosimetria, reduzindo as penas dos condenados por tentativa de golpe, e a imagem de ratos subindo a rampa começou a aparecer com mais frequência, em protestos de rua, nas redes sociais. Na quinta-feira de manhã, dia do fechamento da capa, a imagem corria o risco de ficar banalizada, comprometendo o efeito-surpresa. Era preciso trocar, mas o prazo de entrega da capa para a gráfica estava em cima. A Redação fez uma proposta para a gráfica: inverteria o formato habitual do fechamento. Em vez de mandar os últimos textos na sexta-feira, mandaria tudo com antecedência, deixando a capa para a sexta. A gráfica, que fica em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, topou.

 

Quintans, que viajara com a capa aprovada, foi novamente acionado. “A capa caiu”, avisou Cecilia Marra, a diretora de arte. “Vamos ter que trocar a imagem. De onde você está é possível desenhar?” Era possível. Mas logo surgiu um problema. Quintans havia levado um notebook, mas na memória do aparelho não havia o arquivo completo dos pincéis eletrônicos que costuma usar. Por sorte, o ilustrador encontrou um pacote de pinceis que havia feito há tempos e nem lembrava. “O que foi ótimo porque passei a ter novos velhos pinceis”, diz ele. Assim, sua estação de trabalho estava operante.

 

Às pressas, Quintans fez um esboço da primeira ideia em 45 minutos – uma maquete do prédio do Congresso jogada numa lata de lixo reciclável. Como poderia ser interpretada por alguns como uma defesa do fechamento do Congresso apesar da palavra “reciclável”, a ideia não resistiu nem 45 minutos. Entre as novas sugestões, estava o edifício do Congresso Nacional em ruínas, diante de um gramado destruído. Era outra forma de mostrar o desserviço do Congresso com o país e suas instituições. Às 16h53, na corrida contra o tempo, chegou um esboço avançadíssimo, quase pronto. Na nova imagem, a ausência de movimento humano servia à perfeição para demonstrar o desolador estado de abandono do prédio.

 

 

 

Mas a ausência de gente, ou de ratos, eliminava o dinamismo que a cena requeria. Afinal, as decisões do Congresso não são tomadas por fantasmas da política, ao contrário. Uma outra sugestão parecia mais promissora – embora fosse muito trabalhosa para ser confeccionada em tempo tão curto. Propunha que numerosas equipes de dedetização e desratização desembarcassem no gramado do Congresso com a missão de fazer uma limpeza geral. De certo modo, voltava-se à proposta da infestação de ratos, mas agora com um ganho em originalidade e sutileza. Entre todas as opções, Quintans preferia a capa dos dedetizadores e, mesmo faltando menos de 24 horas para o novo prazo do fechamento e mesmo sendo uma ideia mais complexa, disse que conseguiria fazer essa arte a tempo.

 

Em sua estação de trabalho improvisada, Quintans arregaçou as mangas. Na noite de quinta-feira, a ideia ainda estava apenas no esboço, mas a página do índice da revista, onde sempre aparece o título atribuído à capa, precisava ser enviada à gráfica, conforme o combinado. O primeiro esboço de Quintans era tão promissor que se podia apostar que a capa das equipes de dedetização vingaria. Então, deu-se o nome: Operação Controle de Pragas. Quintans trabalhou a noite toda.

 

 

Uma versão mais acabada chegou à direção da Redação na manhã de sexta. Começou então o ritual de aprimorar detalhes: o gramado tinha um tom de verde que poderia se confundir com o uniforme dos dedetizadores; era preciso que as pessoas estivessem mais dispersas, com alguns grupos mais coesos, acentuando o espírito da faina. As vans deveriam ter um logotipo, ainda que discreto, identificando que se tratava de um serviço de combate à infestação de ratos. Às 16h07, Quintans mandou a versão final.

 

O checador João Felipe Carvalho começou então a checagem do desenho, como se faz habitualmente. Percebeu que a logomarca estampada nas laterais das vans não estava uniforme – em umas, o rato aparecia olhando para a frente do veículo; em outras, olhava para a traseira. Seria preciso refazer o desenho já estourando o prazo para o fechamento? Não, não era preciso: a logo em que o rato olhava para frente estava sempre na lateral esquerda das vans. E a outra, sempre na lateral direita. Pronto: a imagem não continha um erro de lógica. E, enfim, a direção já podia mandar à gráfica a capa que, agora, neste início de janeiro de 2026, está diante dos leitores