questões do consumo

Compras que desmancham no ar

Durante a pandemia, denúncias de golpes em falsos leilões virtuais aumentam nove vezes em relação ao semestre anterior

Luiza Ferraz
11ago2020_17h17
Ilustração: Carvall

Depois de um ano e meio de planejamento, a estudante de direito Roberta Diniz, de 24 anos, decidiu comprar um carro. Antes de o estado de São Paulo entrar em quarentena por causa do novo coronavírus, ela se despencava de Pirituba, na Zona Norte da cidade, às 5h30 da manhã, para a Vila Olímpia, onde trabalhava, e de lá para a faculdade, na Bela Vista, ambos na Zona Sul da cidade. Diariamente, passava cerca de quatro horas no trajeto de ida e volta. Sonhava com um Hyundai HB20 prata de segunda mão – metade dos 60 mil reais cobrados por um novo. No fim de março, trabalhando e estudando de casa, procurou o carro na internet para acompanhar as variações de preço. No dia 25, num site de buscas, clicou no primeiro link encontrado: um igual ao que ela queria, mas em leilão online e mais barato, 15 mil reais.

Roberta economiza parte do salário desde que começou a trabalhar, aos 18 anos. Tinha o dinheiro. Quando viu a oferta do carro, ficou aliviada, mas também ressabiada. Quem a tranquilizou quanto ao preço foi sua chefe, que comprara uma casa em um pregão online. “Ela falou que os preços em leilões eram realmente bons e podiam chegar a 60% do valor original. Achei que seria uma ótima oportunidade apesar da quarentena, porque depois acredito que eu vá precisar de um carro”, conta.

Para confirmar que o leilão não era falso, acessou o site por vários dias. Continuava funcionando, e surgiam lances pelo carro, um de 15.200 e outro de 15.300 reais. Mas havia um alerta: o leilão seria encerrado no dia 16 de abril. Dez dias antes disso, ela deu seu lance, de 15.500 reais. Era sua primeira vez num leilão. Em um pregão online, os interessados se cadastram no site do leiloeiro e têm até determinada data para darem os seus lances. No dia e hora marcados, o leilão é fechado, e quem tiver oferecido o maior valor fica com o bem. “Joguei o nome do site do leilão numa plataforma de pesquisa de reputação de empresas e parecia estar tudo certo. Vi reclamações normais, como alguém que tinha comprado uma casa e tinham coisas dentro, carro com documento atrasado, mas eram reclamações que eu via sobre outros sites. Então isso não me deixou preocupada”, relata. 

No dia 7 de abril, 24 horas depois do lance, Roberta recebeu a ligação de um homem que se identificou como Ricardo. Ele disse que o valor proposto por ela tinha sido aprovado e que o leilão seria fechado antes do previsto. “Estava escrito no site que só fecharia no dia 16, mas ele disse que resolveu encerrar porque tinha gostado do lance que eu dei”, conta. Preocupada, ela disse que precisava pensar melhor e perguntou até quando poderia dar uma resposta. Ricardo disse que esperaria até o dia 13. Caso ela desistisse, ele reabriria o leilão e manteria a data de encerramento original, mas disponibilizou um número de WhatsApp para ela entrar em contato se tivesse alguma dúvida. Dois dias depois, ela enviou mensagem perguntando se era possível ver o carro pessoalmente. Solícito, Ricardo ligou para ela e explicou que, por causa da pandemia, não seria viável e que o valor deveria ser transferido antes para o carro ser levado de uma vez e diminuir a possibilidade de contaminação. “Ele foi muito convincente. Apresentou dados sobre o número de casos do coronavírus, a questão do contágio… Disse que, se eu tocasse no carro antes de comprar e desistisse, poderia prejudicar outras pessoas além de a mim mesma”, lembra.



Desconfiada, Roberta ligou para algumas concessionárias, perguntando se poderia ver um carro pessoalmente. A resposta foi parecida: visitas estavam sendo evitadas por causa da pandemia. No dia 13 de abril, uma segunda-feira, resolveu fechar o negócio e, dois dias depois, transferiu 15 mil reais, com desconto no pagamento à vista, para uma conta bancária cujo titular também se chamava Ricardo. Combinou de buscar o carro no dia 18, pela manhã. Animada, ela e um amigo pegaram a estrada até a cidade de Porto Ferreira, no interior de São Paulo, e chegaram ao local em duas horas, às 11 horas da manhã.

No endereço combinado, só havia um galpão fechado. Apesar da pandemia, muitas pessoas estavam na rua e ela perguntou se alguém tinha visto um homem de calça jeans e camiseta estilo polo na cor vermelha, como o vendedor disse que estaria vestido. “Moro aqui faz muito tempo e esse galpão sempre esteve fechado”, disse um vizinho. O amigo desconfiou: “Acho que a gente caiu em um golpe.” Mas ela ainda não tinha desistido e resolveu ligar para Ricardo. “Perguntei onde ele estava, e ele falou ‘você é muito trouxa, perdeu o dinheiro, caiu em um golpe e viajou à toa, gastou mais dinheiro ainda.’ E aí caiu minha ficha, realmente tinha sido tudo muito fácil”, lembra.

Ainda em Porto Ferreira, foi até a delegacia mais próxima e registrou um boletim de ocorrência. Fez o mesmo ao chegar em São Paulo. Já em casa, fez algumas buscas na internet e encontrou a empresa do leilão online, mas a verdadeira. Descobriu que comprara num site falso, com endereço clonado a partir do site real. Ligou para o número de contato da empresa verdadeira e disse que tinha caído em um golpe. “Eles falaram que isso já acontecia muito e acreditavam que iria aumentar na pandemia, porque as pessoas não podiam frequentar um leilão presencial. Eles falaram que aquele endereço nunca tinha sido deles, pediram desculpas, disseram que a culpa não era deles, mas que não tinha o que fazer”, conta. A Polícia Civil está investigando o caso para, a partir da conta bancária na qual foi feito o depósito, localizar o golpista.

Um estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) mostrou que 61% das pessoas aumentaram o volume de compras online durante o período de isolamento social. Esse aumento chega a mais de 50% para quase metade das pessoas. Com a mudança de cenário, aumenta também o número de golpes e reclamações. Dados da Associação da Leiloaria Oficial do Brasil (Aleibras), que reúne os maiores leiloeiros de veículos do país, mostram que as denúncias sobre falsos sites de leilão cresceram 794% no primeiro semestre deste ano em comparação aos seis meses anteriores, de 2019. Fundada em 2018, a associação não recebia um número de denúncias significativo até meados do ano passado, quando começou a contabilizar. A associação já contabilizou 481 sites fraudulentos este ano, mais que os 431 encontrados em 2018 e 2019 juntos. “Recebíamos em média de quatro a cinco mensagens por dia, mas isso já chegou a mais de cinquenta agora na pandemia, todas de pessoas relatando contato ou negócios com sites falsos”, afirma o presidente da Aleibras, Vicente de Paulo Albuquerque Costa Filho. A maior parte dos golpes, segundo ele, envolve motos e carros. “Existem poucas falsificações com imóveis. Eu pelo menos nunca vi. A maioria é com veículo, porque é o sonho das pessoas e porque ninguém deposita um valor de um imóvel sem ver pessoalmente, fora que é um preço mais elevado”, diz.

Segundo dados do Procon de São Paulo, o número de reclamações relacionadas a compras na internet no primeiro semestre deste ano mais do que triplicou em comparação ao mesmo período do ano passado. Nos primeiros quinze dias de 2020, foram feitas 25.631 reclamações ao órgão, número que se aproxima dos primeiros seis meses de 2019 e é superior ao segundo semestre de 2018 – quando foram relatados 21.054 problemas. A maior parte é em relação à não entrega ou demora na entrega de um bem.

Apesar dos golpes, ele afirma que as pessoas têm procurado mais a modalidade na hora da compra. “Mesmo tendo quase cem anos de existência, infelizmente pouca gente conhece o leilão, é uma atividade muito distante no Brasil, enquanto faz parte do dia a dia de pessoas no mundo todo. Vemos com bons olhos o aumento da procura, mas nos preocupamos em o quanto as pessoas estão suscetíveis a golpes cibernéticos”, explica.

“Se você me perguntar quantos estão no ar hoje, eu não consigo dizer, porque a cada hora  descobrimos um novo site”, diz Eduardo Jordão Boyadjian, presidente, há dez anos, do Sindicato dos Leiloeiros do Estado de São Paulo. Segundo ele, em comparação com o ano passado, o número de denúncias  aumentou. “É o dia inteiro. Sempre orientamos as pessoas a não comprarem carro, por exemplo, sem visitar. Mas, com a pandemia, as visitas estão impedidas. Antigamente, eles enrolavam quando uma pessoa pedia para visitar, mas agora eles arrumaram a desculpa para isso, de que as visitas estão suspensas”, afirma.

Jordão explica que as pessoas precisam estar atentas a alguns detalhes antes de fazer o pagamento ou participar de um leilão. Quase todos os sites falsos terminam em “.com” em vez de “.com.br”, o que significa que eles não são registrados no Brasil. Isso dificulta a atuação da polícia no rastreamento dos responsáveis por aquele domínio. Segundo ele, alguns ainda tentam uma abordagem mais similar: colocam “.com/br”. Também é preciso notar os dados que constam na conta que irá receber o dinheiro do leilão. Esses sites costumam dizer que a conta é de um “responsável financeiro autorizado pelo leiloeiro” quando, na verdade, isso não é permitido. 

Para tirar a prova, Jordão afirma que é recomendado buscar o nome do profissional listado no site em questão na plataforma da junta comercial daquele estado e, se ele existir, entrar em contato com para confirmar a procedência do leilão e do site visitado. “Muita gente escapa fazendo isso”, diz ele. Além disso, também é possível checar se esse site já foi considerado falso. A Aleibras tem uma plataforma chamada Leilão Seguro em que qualquer um pode acessar uma lista com mais de novecentos sites falsos e, inclusive, fazer uma denúncia. Eles também emitem o Selo Leilão Seguro, que garante a legitimidade daquele operador de leilões. A lista pode ser acessada na mesma plataforma. Em breve, o site também deve abarcar páginas com falsos leilões no Instagram e no Facebook.

A leiloeira Ana Claudia Frazão já passou por essa situação ao menos cinco vezes, mas do outro lado do balcão. Ela, o pai, e o irmão são sócios na Frazão Leilões, no mercado desde 1980. “Em alguns casos, a pessoa usava o endereço do meu escritório como sede, mas colocava outro telefone e e-mail. As pessoas compravam iludidas com aquele preço promocional e abaixo do valor de mercado. Mas depois percebiam que o bem não chegava ou não conseguiam mais contato e procuravam no Google pelo nome do leilão, mas encontravam o nosso site oficial porque o falso já havia sido apagado”, explica. Segundo ela, o que costuma acontecer é o seguinte: a pessoa ou a quadrilha cria um site, escolhe um nome que costuma imitar o de algum leiloeiro oficial, cria anúncios que podem ser iguais aos de algum leilão que esteja em andamento de fato, investem massivamente em propaganda no buscador por alguns dias e esperam as vítimas.

“Eles tentam iludir de uma forma que a pessoa liga para perguntar o endereço e eles confirmam, pedem o nome do leiloeiro e confirmam e, muitas vezes, anunciam veículos que realmente existem, mas que estão no pátio de outros leiloeiros. Só que a pessoa leiga chega em um pátio enorme, diz que foi ali para ver o carro, o funcionário mostra porque o carro existe e está em leilão, mas no site verdadeiro. Eles dão uma veracidade para a informação. A vítima vê o bem fisicamente e não percebe que no pátio da empresa está escrito, por exemplo ‘Sodré Santoro’ e que ele está comprando no site de nome ‘Frazão Leiloeiro’”, diz. No ano passado, uma vez, uma pessoa foi ao seu escritório levar comprovantes de pagamentos de mais de 30 mil reais e exigindo o bem em questão. Apesar de negar que o pagamento tenha sido feito para ela, a pessoa insistiu, como quem não acreditava no que estava acontecendo.

Em outro momento, um homem foi até lá e não ficou satisfeito com a resposta de que o dinheiro não havia sido pago a eles. Ele pegou o telefone, ligou para o número que havia lhe aplicado o golpe, disse para ela que estava na linha com Ana Claudia Frazão e que aquele endereço estava correto. “Eu falei para ele que esse era o meu nome, mas ele falou que eu estava tentando enganá-lo. Eu precisei pegar o meu registro profissional e mostrar quem eu era”, lembra. 

O golpe sofrido por Roberta, a compradora do HB20, mudou a sua forma de lidar com o ambiente virtual. “Eu era a rainha da coisa inútil, mas não sou mais. Via alguma coisa na internet e já queria comprar, fazia sem problema algum”, lembra. Traumatizada, desistiu das compras online. Apesar disso, espera conseguir alcançar os autores do golpe e contribuir para que menos pessoas sejam vítimas como ela foi.

Luiza Ferraz (siga @lz_ferraz no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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