questões de saúde

Cortes atrasam pesquisa sobre chicungunha

Em Laboratório da UFRJ, trabalho de mapeamento genético do vírus esbarra na falta de recursos; equipe alertou sobre novas doenças

Raphael Kapa
29maio2019_11h47
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE RAPHAEL KAPA

No Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, o pesquisador Fábio Limonte tem uma função específica: é o único da equipe de cerca de vinte pessoas dedicado exclusivamente a estudar o vírus da chicungunha para tentar entender por que as sequelas da doença, como dores físicas nas juntas, perduram por meses nos pacientes. A pesquisa é coordenada pelo professor e geneticista Amilcar Tanuri, chefe do laboratório. Este semestre, outros dois pesquisadores se juntariam ao grupo e passariam a atuar no mapeamento genético do vírus. Mas o professor Tanuri foi informado de que a nova dupla do seu laboratório está entre os 3 474 bolsistas que tiveram auxílios cancelados pelos cortes de verbas realizados pelo Ministério da Educação (MEC).

De janeiro a abril de 2019, houve 12 mil novos casos confirmados de chicungunha no Brasil, com três mortes e outros 24 mil casos prováveis da doença. O total é abaixo do registrado no mesmo período de 2018. Na cidade do Rio, a doença recrudesceu este ano, com 13.918 casos, mais que os 10.700 do ano passado. 

Nos últimos três anos, o Laboratório da UFRJ analisou 279 amostras de vírus, média de 93 por ano, em um trabalho voltado exclusivamente para a chicungunha. Foi desta forma que identificou no Rio a presença do mayaro, um vírus “primo” da chicungunha, que migrou da Amazônia para o Sudeste. Agora seria o momento de aumentar o número de amostras para acompanhar migrações, mutações ou o surgimento de novos vírus. Devido aos cortes nas bolsas, o ritmo de trabalho do laboratório foi reduzido, e a média de análises caiu. “Hoje só fazemos 40% do que poderíamos”, afirma Tanuri. Pesquisas científicas não terminam do dia para a noite. Os efeitos dos cortes terão longa duração, tal como as sequelas da chicungunha, mais uma das arboviroses transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.

O contingenciamento de recursos para as universidades federais foi anunciado pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, no final do mês de abril. Segundo o ministro, que citou inicialmente três universidades (UnB, UFF e UFBA) como afetadas pela medida, a justificativa é de que eram locais de balbúrdia. Depois a decisão foi estendida a todas as instituições federais, com cortes de, em média, 30% das verbas de custeio, destinadas à limpeza, manutenção e segurança. Mas os cortes também atingiram a Capes, agência que financia bolsas a pesquisadores que atuam em laboratórios como o da UFRJ.

Segundo o professor Tanuri, o trabalho poderia ser otimizado, mas com um só pesquisador é impossível. “Com três bolsistas faríamos o trabalho desejável. Enquanto um analisaria uma amostra, outro já estaria preparando novas análises e por aí vai. Atrasamos em meses o que poderia ser feito em semanas”, afirma. A previsão para o futuro não é das melhores. “Ficamos com apenas um bolsista para essa pesquisa de chicungunha. Quando terminar o período da bolsa, se continuar com os bloqueios atuais, ou se realoca de outra pesquisa ou ela para.”

Para quem está em casa, com as dores pelo corpo, não parece, mas dois pesquisadores a menos no laboratório reduzem concretamente a chance de descobrir se a pessoa tem chicungunha ou um vírus aparentado. O laboratório trabalha na parte da vigilância, etapa que vem antes mesmo da prevenção na área da saúde. De acordo com 21ª Assembleia Mundial da Saúde, em 1968, que se dedicou especialmente ao tema, a vigilância é a “coleta sistemática e o uso de informação epidemiológica para o planejamento, implementação e avaliação do controle de doenças”. É por meio de trabalhos rotineiros como o do laboratório que governos são alertados sobre possíveis surtos de vírus, suas características e como deve ser feita a prevenção. Com menos pesquisadores, a equipe investiga menos e forçosamente emite menos alertas. Trabalhos sobre chicungunha publicados pelo grupo trazem menos dados novos e mais releituras de levantamentos antigos.

O espaço do laboratório forma um labirinto de três andares, todo dividido em pequenas ilhas de trabalho onde cerca de vinte pesquisadores, entre professores e universitários, se esbarram e fazem fila para utilizar o maquinário que ainda funciona. O mais disputado deles é o que chamam de “fluxo”, uma estação de trabalho em que o pesquisador consegue manipular o vírus com segurança. Existem três deles no local, e cada um comporta dois pesquisadores. Somente um está funcionando, o que atrasa o trabalho de manipulação e análise de amostras. A análise de uma única amostra pode demorar horas com um único pesquisador na estação. Sem alternativa, outros trabalhos ficam parados.

A pesquisa de chicungunha é só uma das vinte frentes de estudos abrigadas no laboratório. Dessas, metade está parada, afetada por sucessivos anos de perda de verbas. “Das mais de vinte frentes que temos aqui, mais ou menos dez foram reduzidas drasticamente. Na verdade, tocadas com força, estamos entre três e quatro”, afirma Tanuri, professor de genética da UFRJ. Ainda estão ativas, embora reduzidas, pesquisas ligadas a resistência a medicamentos para o HIV, o efeito do zika vírus em fetos e, justamente, a duração das sequelas da chicungunha. Estudos sobre dengue, febre amarela, um novo vírus achado no Rio, o mayaro e sobre HTLV, “primo do HIV” perderam verba e tiveram de ser paralisados ou interrompidos.

Logo na entrada do laboratório, o freezer principal, onde deveria ser guardado o material genético de pesquisas, traz um aviso de que não pode ser utilizado. O mesmo recado pode ser visto em outros equipamentos. O freezer queimou após uma pane por causa de um pico de luz no prédio. O equipamento deixou de funcionar, tudo que estava dentro descongelou e ficou inutilizado – inclusive o material orgânico usado nas pesquisas sobre zika e microcefalia. Material que foi obtido em coletas nacionais em 2016, quando, em pleno surto de zika, a equipe do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ agiu em parceria com cientistas franceses que já tinham estudado a doença uma década atrás. O convênio só foi possível porque os pesquisadores da França mantêm o material orgânico de suas pesquisas seguro e organizado, e disponibilizaram informações para os brasileiros. Os dados foram usados nas pesquisas sobre o vírus e sua relação com outras doenças, como o aparecimento de microcefalia em bebês cujas mães tiveram zika na gravidez. Dois pesquisadores do laboratório, Tanuri e Rodrigo Brindeiro, coordenaram o trabalho apresentando o sequenciamento completo do genoma do zika. O resultado foi publicado na Lancet, uma das publicações científicas mais importantes do mundo.

Com a pane do freezer, várias etapas da pesquisa terão que recomeçar do zero. O episódio é reflexo da perda de recursos ao longo dos anos, e o orçamento da UFRJ ficará ainda mais apertado com o contingenciamento anunciado pelo MEC, cortando 41% da verba de custeio, utilizada para limpeza, energia e segurança. “Está cada vez pior. Estamos vivendo um retrabalho. Quando o freezer quebrou, perdemos todo o material biológico dentro dele. É um mês para voltar a como estávamos. Além disso, o material de trabalho é caro e foi descartado. Isso tudo faz demorarmos para responder à sociedade”, afirma Tanuri em sua sala de menos de quatro metros quadrados, sentado no sofá e apoiando sua mão em uma edição da obra Origem das Espécies de Darwin que está no encosto do móvel.

A tal resposta à sociedade de que fala Tanuri tem uma peculiaridade: se oferecida, não costuma ganhar notoriedade; quando negligenciada, porém, causa transtornos. O retorno de um laboratório como o da UFRJ para a sociedade se dá em duas frentes: a primeira é a própria produção científica, com dados e alertas remetidos a gestores em saúde; a segunda é a criação de espaços dentro da universidade que servem para difundir o conhecimento produzido. Um exemplo é a “Rede Zika Paulo de Goés”, criada em 2016, da própria UFRJ, que funcionou como uma espécie de central de informações sobre a doença.

No Brasil, laboratórios de pesquisa raramente têm pesquisadores que não são professores. Estudantes de graduação, mestrado e doutorado atuam nas pesquisas como assistentes e recebem bolsas para isso. Os recursos têm origens diferentes, da Capes, que é vinculada ao MEC, e do CNPq, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações. Só na UFRJ foram 65 bolsas cortadas na pós-graduação, envolvendo mestrados, doutorados e pós-doutorados.

os cortes se misturam com os antigos. A curva de queda no orçamento da UFRJ evidencia perdas ao longo dos últimos anos. Em 2014, o orçamento (em valores corrigidos) seria de 582 milhões de reais, mas só 487 milhões foram liberados. Em 2019, não se sabe o quanto será liberado para a instituição, mas a previsão orçamentária é de 361 milhões de reais. Uma perda de mais de 200 milhões de reais até então. Logo após as passeatas pela educação no dia 15 de maio, o ministro Weintraub usou sua conta no Twitter para avisar que vai trazer “boas notícias” sobre o contingenciamento. Em números ou em chocolates, elas ainda não apareceram. “A situação, que já está ruim, pode se tornar insustentável. No ano passado, tivemos 37 indícios de incêndio que foram debelados pela brigada voluntária. Isso aqui podia virar um Museu Nacional. A principal causa de incêndio são os aparelhos de ar-condicionados, por causa da fiação que nós temos”, conta Brindeiro. “É a tempestade perfeita. A universidade é cara. Mas experimenta a ignorância. É mais cara”, conclui Tanuri.

 

Raphael Kapa

Raphael Kapa é jornalista e professor. Foi repórter da Lupa entre 2015 e 2016. Hoje, ministra as oficinas de checagem do projeto LupaEducação.

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