anais do atraso

Cortes de Bolsonaro emperram pesquisa para deter câncer incurável no cérebro

Sem bolsas federais, pesquisadora aprovada em primeiro lugar na UFRJ atrasa estudo sobre vírus da zika como arma contra tumor

Bernardo Esteves
05set2019_11h29
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO A PARTIR DE FOTO DE ACERVO PESSOAL

O corte de bolsas de pesquisa anunciado pelo Ministério da Educação no começo da semana vai retardar o início de um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que investigará uma arma promissora contra um tumor de cérebro: o vírus da zika. A biomédica Gabriella Pinheiro Alves de Freitas, pesquisadora que pretende investigar em seu doutorado a segurança do novo tratamento – etapa imprescindível para que ele possa ser testado em pacientes humanos –, receberia uma das 5 613 bolsas cortadas nesta semana (se a conta incluir outros cortes anunciados pelo governo Bolsonaro desde o começo do ano, já são quase 12 mil bolsas a menos).

Análises preliminares realizadas pela equipe do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e por outros grupos de pesquisa indicaram que o vírus é capaz de matar células de glioblastoma, o mais comum e agressivo tipo de tumor de cérebro. Não há cura conhecida para esse tipo de câncer, e os pacientes sobrevivem em média de catorze a dezoito meses depois do diagnóstico. O tratamento indicado pode incluir a cirurgia para retirada do tumor, radioterapia e quimioterapia. “Mas é meramente um paliativo”, disse a bióloga Patrícia Garcez, líder do grupo da UFRJ que estuda o tumor. “Há mais de dez anos não tínhamos novidades no tratamento do glioblastoma.” 

A novidade é o vírus da zika – o mesmo que causou a epidemia em 2016 e deu origem a uma geração de crianças com microcefalia contraída no útero das mães. Garcez contou que outros grupos já fizeram testes pré-clínicos bem-sucedidos em culturas de células e em animais, mas falta se certificar se o tratamento é seguro para pacientes humanos e definir a dose adequada para os testes. Era isso que Gabriella Freitas pretendia fazer durante o doutorado. “Precisamos do trabalho dela para seguirmos para os ensaios clínicos”, disse a orientadora.

Freitas já tinha estudado células de glioblastoma no mestrado em ciências morfológicas pela UFRJ, feito com bolsa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), agência de fomento vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Defendeu sua dissertação na última semana de agosto e se preparava para emendar com o doutorado – passou em primeiro lugar no exame seletivo para seu programa de pós-graduação, avaliado com nota máxima pelo Ministério da Educação (MEC).



A doutoranda receberia durante quatro anos uma bolsa de 2 200 reais da Capes, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, agência vinculada ao MEC. Na segunda-feira (02/09), Freitas entregou os papéis para formalizar o recebimento da bolsa; no dia seguinte, recebeu da coordenação o anúncio de que o benefício tinha sido cancelado. “Eu estava empolgada para continuar a pesquisa, porque temos resultados promissores”, disse a pesquisadora. Nesta semana ela pretendia desenhar os primeiros experimentos, para executá-los na semana seguinte. “Agora vai ser tudo pausado.”

Patricia Garcez, a orientadora de Freitas, é a líder de um dos grupos de pesquisa brasileiros que uniram forças para comprovar que os casos de microcefalia eram de fato provocados pelo vírus zika. Os resultados foram publicados na Science, uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo, num artigo assinado por dez pesquisadores da UFRJ, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e da Universidade de Campinas. Dos dez autores, seis eram financiados por bolsas de doutorado e pós-doutorado pagas pela Capes ou pelo CNPq.

“Só conseguimos os avanços na pesquisa sobre o vírus zika porque tínhamos as pessoas certas na hora certa”, disse a bióloga. A pessoa certa, no caso atual, é Freitas, a integrante do grupo com a expertise necessária para determinar a segurança do tratamento contra o tumor de cérebro. Garcez terá que treinar outro aluno caso ela se afaste, e tão cedo não poderá dar início aos experimentos. “O projeto vai sofrer muito se perdermos a Gabriella, vai demorar muito mais.”

A estudante perdeu sua única fonte de renda, no meio de sua formação – uma jornada de dez anos (quatro de graduação, dois de mestrado e quatro de doutorado). “Infelizmente a bolsa é o salário do jovem pesquisador no Brasil”, disse Freitas, que ainda não sabe como vai se manter. A estudante quer seguir fazendo pesquisa, mas precisará encontrar alguma forma de sustento se não tiver bolsa. “Não tem como trabalhar de graça.” A doutoranda continua a frequentar o laboratório da UFRJ. Sua última bolsa de mestrado, referente a agosto, caiu no começo do mês.

Na avaliação do físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, o corte de bolsas na Capes e no CNPq pode afetar a produtividade científica do país no curto prazo. “Isso talvez a gente já comece a sentir daqui a dois ou três anos”, disse Davidovich. Mas haverá também impactos de longo prazo, continuou. “Sem bolsas de iniciação científica para a graduação, os estudantes deixarão de ser atraídos para a pesquisa.”

O físico tem ido a Brasília se encontrar com parlamentares e representantes do governo para defender mais recursos para ciência e tecnologia. Nesta quinta-feira (05/09), falará em nome dos cientistas numa audiência pública sobre o corte de bolsas na Comissão de Educação do Senado. Davidovich está preocupado também com o orçamento apresentado pelo governo para 2020, que prevê “cortes violentos” de recursos para ciência e tecnologia em órgãos como a Capes, o CNPq e a Embrapa. “Se esse orçamento vingar, vai ser o apagão da ciência”, afirmou. “Não vejo como o Brasil vai sair da recessão dessa forma.”

Procurada pela piauí para comentar o corte, a Capes afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que as bolsas em vigor estão mantidas e que “a medida representa uma economia de 37,8 milhões de reais em 2019, podendo chegar a 544 milhões de reais nos próximos quatro anos”.

Numa carta assinada por setenta pesquisadores, a Coalizão Ciência e Sociedade afirmou que, “em momentos difíceis, cabe aprender com outras sociedades que, diante de crises econômicas e sociais, asseguraram e mesmo elevaram o investimento em ciência e tecnologia, o exato oposto da política que se executa no país”.

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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