questões cinematográficas

Danado de Bom – talento, inspiração e humor

Filme em cartaz em sete capitais brasileiras mostra a vida do compositor pernambucano João Silva

Eduardo Escorel
27jul2017_20h32
Longa-metragem da cineasta pernambucana Deby Brennand é o mais completo sobre a vida do compositor João Silva, parceiro de Luiz Gonzaga
Longa-metragem da cineasta pernambucana Deby Brennand é o mais completo sobre a vida do compositor João Silva, parceiro de Luiz Gonzaga

Parceiro de Luiz Gonzaga, João Silva (1935–2013) não alcançou em vida notoriedade equivalente à do Rei do Baião. Danado de Bom pretende sanar essa injustiça e, nesse sentido, o primeiro longa-metragem da cineasta pernambucana Deby Brennand é bem-sucedido. A lamentar, apenas, ter chegado aos cinemas com atraso, quatro anos após a morte de seu personagem principal.

Outros registros com propósito idêntico de resgatar do anonimato o compositor pernambucano estão disponíveis no YouTube, como, entre outras, o documentário de curta-metragem dirigido por Dewis Caldas e o programa de Rolando Boldrin, na TV Cultura, exibido em maio de 2013. Mas, mesmo sem ser o único, Danado de Bom é, sem dúvida, o mais completo e a produção de maior vulto dedicada a João Silva.

Em Danado de Bom o espectador é apresentado a um manancial de talento, inspiração e humor, extremamente simpático, emérito contador de causos que, segundo consta, compôs mais de duas mil músicas. Ao ir trabalhar com Luiz Gonzaga, João Silva declarou ter descoberto “que o povo queria alegria, música alegre, para dançar”. E forró, para ele, é sinônimo de alegria.

O fato de ser iletrado não o impediu de associar palavras e fazer versos livremente, criando imagens mentais de viés amalucado com alusões despudoradas e, por vezes, preconceituosas, próprias do vocabulário e da criatividade popular.

Exemplo de imaginação delirante é o baião Pagode Russo, cuja origem Silva explicou em uma gravação de 2012:

“Quando nós fomos numa beira de praia, nessas paradas da fita dar problema, tinha dois cossacos, de saia, que eles têm uma saia, né? É o russo, é o russo. Eu sei lá. É um europeu aí. E lá veio ele com aquele saiote e com uma gaita aqui de lado. De sandália havaiana, os dois, eram dois, dois russos. Acho que é? Se não é, vocês me desculpe. E aí, eu digo: ‘Gonzaga, olha quem vem ali atrás, Gonzaga.’ Quando Gonzaga olhou, disse: ‘Ôche! E aquilo é…’ Eu digo: ‘É homem, macho, machão, macho.’ ‘Não brinca. É danado?’ ‘É macho, machão.’ Aí eu digo: ‘Agora, o engraçado não é isso não, Gonzaga. Tu já pensou eu e tu, nós dois lá no Sertão com essa sainha?’ ‘Primeiro que a gente não entrava na cidade de Exu.’ Nem entrava na cidade, de Exu. E eu digo: ‘E minha tia não me dava o cafezinho quando eu ia lá.’ E aí, eu disse: ‘Pois é. Gonzaga, vamos prestar homenagem a esse povo?’ E eu digo: ‘Eu já tenho a ideia: pagode russo.’ (Depoimento disponível aqui.)

A letra de Pagode Russo, na primeira pessoa do singular, relata um sonho: “Ontem eu sonhei que estava em Moscou/Dançando pagode russo na boate Cossacou/[…]” e no último verso, imaginando o cossaco dançando de saia, a fantasia do poeta consagra o duplo sentido: “Vem cá cossaco, cossaco dança agora/Na dança do cossaco, não fica cossaco fora [com-o-saco-fora].”

Iniciadas em 2007, as gravações de Danado de Bom foram feitas em três etapas, ao longo de oito anos. Retomadas em 2011, acabaram sendo concluídas após a morte de João Silva, em 2015. Registradas no começo em fitas MiniDV, esse suporte foi mantido nas etapas seguintes da produção, nas quais foram feitas também filmagens em película 16 mm. O resultado fotográfico obtido – um dos pontos altos do filme – tem grande uniformidade e a finalização de cor, com predomínio de tons magenta e amarelo, forma um todo visual unitário em que imagens de origens diferentes parecem ter todas a mesma procedência.

É conhecida a advertência da sabedoria popular e da mitologia para o perigo de queimar os pés ao refazer os próprios passos em sentido contrário ou de lançar o olhar para trás. Ainda assim, foi o que a jovem diretora Brennand propôs ao veterano compositor Silva – voltar a Arcoverde, cidade natal do compositor, no Sertão de Pernambuco. Ele ter morrido antes do filme ficar pronto adquiriu, desse modo, inevitável conotação simbólica.

Repelindo por princípio a tristeza, Danado de Bom apenas tangencia o que não é róseo na vida de Silva. Brennand evita deliberadamente ir além da superfície ao tocar no seu lado sombrio, ao qual ele mesmo faz menção e que trazia estampado no rosto. Silva chega a admitir ter sido prejudicado demais pela bebida e ser o culpado “por não saber amar”. Relembra a namorada da juventude que ficou em Arcoverde quando ele foi “ser artista” no Rio de Janeiro. Conta, no programa de Rolando Boldrin, que ao reencontrá-la teria tentado puxar assunto, “como diz o malandro, bico doce, por que a lua não sai de dia, aquela conversa besta”, mas ela não disse uma palavra e foi embora sem se despedir. Essa é a origem de Nem se Despediu de Mim, que Luiz Gonzaga gravou e da qual, 30 anos depois, a moça quis cobrar direitos autorais por ser a história dela: “Nem se despediu de mim/Nem se despediu de mim/Já chegou contando as horas/Bebeu água e foi-se embora/Nem se despediu de mim/Te assossega coração/Esse amor renascerá/Vai-se um dia mais vem outro/Aí então, quando ele voltar/Quebre o pote e a quartinha/Bote fogo na tamarinha/Que ele vai se declarar.”

*

Danado de Bom estreou em abril de 2016 na mostra O Estado das Coisas do Festival É Tudo Verdade, e foi premiado pouco depois no 20º Cine PE. Mesmo assim, foi obrigado a esperar mais de um ano até finalmente ser lançado há quatro semanas. Prazos como esse, impostos a muitos filmes brasileiros recentes para conseguirem ao menos ser exibidos no circuito comercial, são sintoma de que nem tudo vai tão bem quanto os desavisados apregoam. A repercussão na mídia das exibições nos festivais e dos prêmios recebidos se esvai e o filme chega aos cinemas envelhecido.

Já apresentado em treze estados, Danado de Bom está em exibição esta semana no Rio e em Recife, Brasília, Aracaju, Palmas, Salvador, Porto Alegre e com estreia marcada em Niterói. Prova, pelo menos, de que o produtor e o distribuidor se empenharam a fundo para que o filme tivesse existência digna, mesmo se o resultado de bilheteria não venha a ser expressivo. Além da demora, o circuito é formado na maior parte por salas pequenas, e poucas sessões são oferecidas por dia, o que não favorece êxito comercial.

Sábado, quando assisti a Danado de Bom na única sessão do dia, havia doze pessoas na sala de 32 lugares. Ocupação de 37,5%. Nada mau para a quarta semana em cartaz. Mas são poucos, muito poucos espectadores, o que parece indicar a existência de inadequação ao mercado exibidor desse gênero de documentário dedicado a traçar o perfil de um músico, como tantos que têm sido feitos.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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