questões turísticas

De braços cruzados na Guanabara

Sem renda na pandemia, guias de turismo dependem de cestas básicas para sobreviver

Luiza Ferraz
22jun2020_17h16
Intervenção de Paula Cardoso sobre foto de Bebel Lisboa.

Dos últimos meses do ano passado até o Carnaval, a guia turística Maria Izabel Germano, 65 anos, só aparecia no apartamento onde mora, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, para dormir. A alta temporada de turismo na cidade não permitia descanso nem rotina. Não fosse Gabigol, seu poodle de um ano e meio, o conjugado em que ela mora ficaria sempre vazio. “Às vezes saía de casa às seis da manhã e só voltava às dez da noite”, lembra. Foi assim até o dia 15 de março, quando ela foi ao aeroporto deixar um grupo de turistas que havia levado num passeio até Búzios. Desde então, com o decreto estadual de 19 de março, que instituiu a suspensão do transporte intermunicipal e de atividades com a presença de público, como atrações turísticas, além de outras medidas diante do avanço da Covid-19 no Brasil, a vida corrida virou quase monótona, e passeios, só com Gabigol. O turismo teve queda de 52,7% no mês de abril em comparação a março. Já em comparação ao mesmo mês do ano anterior, a queda foi ainda mais brusca, de 65,8%. Os dados são da Pesquisa Mensal de Serviços, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 

Depois de um mês de isolamento social, a mudança também apareceu no extrato bancário de Maria Izabel, que é guia turística no Rio há 16 anos. Sem economias que pudessem mantê-la, Bebel, como prefere ser chamada, se viu sem dinheiro até para comprar itens básicos, como comida. “Eu fazia o que me pediam, mas normalmente era aquela coisa de sempre: Corcovado, Pão de Açúcar, Jardim Botânico, Roda Gigante, Maracanã e por aí vai”, explica. As opções estão dentro do roteiro que os guias chamam de “Full Day”, um dia inteiro na cidade, com oito horas de duração – programa mais contratado pelos turistas. Também foi, por outros vinte anos, guia internacional. Durante esse período, viajava para outros países pela agência de turismo Queensberry.

Sem trabalho na pandemia, a guia diz que a maior parte de suas despesas tem sido paga pelo seu único irmão. Ela também se cadastrou no programa federal de auxílio emergencial de 600 reais, que recebeu em abril e usou para pagar contas pendentes. “Eu tive que cortar tudo, suspendi a tevê a cabo, a proprietária do apartamento diminuiu o aluguel pela metade”, conta. Ela ainda conseguiu, assim como outros guias turísticos, duas cestas básicas fornecidas pela Liga Independente dos Guias de Turismo do Rio de Janeiro (Liguia) aos profissionais que recorreram à associação em busca de ajuda. De acordo com o presidente da Liguia, Arnaldo Bichucher, todos receberam duas cestas para garantir a alimentação básica por mais de um mês, uma vez que não há previsão de quando a situação irá melhorar.

“Cachorro está sendo a melhor coisa nessa época, porque sendo guia você trabalha doze horas por dia. Mas, de repente, se vê sozinha no apartamento, no meu caso um microapartamento. Ele me faz muita companhia”, diz enquanto brinca com Gabigol – cujo nome é uma homenagem a um dos jogadores do time de futebol do qual é fã, o Flamengo. O pet também recebeu doação: um pacote de 3 kg de ração, doado por uma amiga de longa data.



Para ser considerado guia de turismo no Brasil, é preciso fazer o registro no Cadastur, cadastro dos prestadores de serviços turísticos vinculado ao Ministério do Turismo. De acordo com Bichucher, o país tem cerca de 25 mil guias, e 34% deles estão no estado do Rio. Quando se fala em guias de turismo em atividade, o número cai. De acordo com estimativas da associação, ele gira em torno de 3.500, sendo que 2 mil desses não têm outra fonte de renda.

Com as restrições de circulação e o fechamento dos pontos turísticos, quem não tinha reserva financeira, assim como Bebel, ficou sem dinheiro. Para socorrer esses profissionais, a Liguia redigiu um projeto de lei que garantia a eles uma renda de um salário mínimo enquanto durasse a pandemia, e que poderia ser prorrogável por mais três meses. A proposta foi aglutinada a projetos de lei de outras categoria que tratavam do mesmo tema e sancionada pelo governador do estado, Wilson Witzel. A lei nº 8858/2020 foi publicada no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro no dia 4 de junho. Mas ainda precisa ser regulamentada para que o pagamento comece a ser feito.

“A lei não é uma medida econômica, ela é uma medida sanitária porque é uma maneira de evitar que esse guia saia na rua para conseguir o mínimo. Uma cesta básica é um paliativo porque acaba, então a renda mínima é para suprir essa situação”, explica o presidente da Liguia. Até sexta (12), a associação tinha distribuído cerca de mil cestas básicas. No mesmo dia, abriram uma nova listagem de pessoas aptas a recebê-las, e mais de cem profissionais se candidataram.  “Por dia, são dezenas de pessoas ligando para a gente”, conta.

Segundo ele, a Liga Independente dos Guias de Turismo do Rio de Janeiro foi a primeira no país a redigir um projeto de lei para garantir um auxílio aos profissionais. Desde então, Bichucher faz uma reunião semanal com presidentes de associações independentes de outros estados para auxiliá-los em processos semelhantes ou iguais. “Hoje, já temos projeto de lei que é uma cópia do nosso, isso porque autorizamos, em pelo menos metade dos estados da federação”, diz.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro começa a se preparar para a retomada das atividades turísticas. No sábado (6), o governo lançou o programa “Rio de Janeiro Turismo Consciente”. Trata-se de um selo que atesta se uma atividade segue os padrões sanitários impostos pela Secretaria de Saúde. Funciona da seguinte maneira: o prestador de serviço deve realizar um cadastro no site do programa, onde terá acesso ao manual com critérios que deve seguir para obter o selo. A partir desse cadastro, ele se compromete, por meio da autodeclaração, a seguir as normas sanitárias vigentes. Nessa mesma página, turistas têm acesso a todos os estabelecimentos e serviços cadastrados. Apesar de não existir uma fiscalização que garanta previamente o cumprimento das regras, segundo o secretário de Turismo, Otavio Leite, ela pode ocorrer em caso de denúncia, que pode ser feita pelo site.

Ainda segundo o secretário, não há cronograma para a flexibilização das atividades turísticas. “Não faz sentido esperar reabrir para começar esse processo. Nós estamos antecipando e planejando para que, tão logo as portas se abram, o turista tenha opções recomendáveis e com credibilidade”, afirma. Apesar do curto tempo de vida, o programa já conta com mais de 1 mil inscritos – no momento, todos estão de portas fechadas em razão das restrições em vigência no estado para conter a pandemia de Covid-19. A pasta ainda está no meio do embate para a regulamentação da lei que beneficia, entre outras categorias, os guias turísticos. Não há previsão de quando isso deve ocorrer. 

Sem trabalho e diante da incerteza da sua vida financeira, a guia turística aposta na solidariedade e nos auxílios do governo. Apesar da crise, Bebel tenta olhar o lado positivo. “Eu ainda não consigo imaginar como vai ser o retorno, mas acho que vai voltar aos poucos. Não acho que vá ser aquela mesma rotina intensa mas, aos poucos, a gente vai voltar”, diz, confiante. Enquanto isso, ela anseia pela reabertura do seu lugar favorito na cidade: o Corcovado. O morro abriga a estátua do Cristo Redentor, um dos pontos turísticos mais famosos do mundo. Mas também é onde a guia turística se sente em casa. “Eu sinto muitas saudades. Assim que abrir, eu vou lá. Mesmo sem passageiro”, afirma.

Luiza Ferraz (siga @lz_ferraz no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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