questões de saúde

De máscara no ônibus lotado

No distrito paulistano onde a taxa de mortes por Covid-19 mais acelera, sobra gente no transporte público e faltam hospitais

Camille Lichotti
12maio2020_16h39
Ilustração de Carvall

Na última sexta-feira, 8 de maio, Luana de Santana saiu de casa às seis da manhã para trabalhar. Ela é educadora em um abrigo para crianças e adolescentes em São Mateus, distrito vizinho a São Rafael, onde mora – ambos são parte da periferia Leste da cidade de São Paulo. Luana não pode fazer home office, pois seu trabalho, além de essencial, é presencial – ela tem de ir até o abrigo, cuidar da higiene e das atividades das crianças e auxiliar na organização da casa. Naquela manhã, Luana não conseguiu carona e precisou esperar por um ônibus que em vinte minutos a deixaria no trabalho. O ônibus veio lotado. Tão lotado que ela precisou entrar pela porta de trás do veículo. A única coisa que fazia Luana lembrar que a cidade estava em quarentena por causa da epidemia de Covid-19 eram as máscaras que ela e os outros passageiros usavam no rosto. Fora isso, do transporte cheio às lojas abertas, tudo parecia normal. Naquele dia (8), o índice de isolamento na cidade de São Paulo foi de 46% – o menor desde que as medidas de distanciamento começaram a ser implementadas, no dia 24 de março. Com a implementação nesta segunda-feira (11) do rodízio de veículos mais restritivo na cidade,a lotação dos transportes públicos tende a piorar. 

Luana trabalha doze horas por dia, em dias intercalados. “No começo da quarentena as ruas estavam mais vazias”, conta Luana. Agora, ela observa pontos de ônibus cada vez mais cheios, lojas de roupas e móveis abertas e bares lotados. “As pessoas estão anestesiadas”, explica. Isso acontece justamente em um momento crítico para a periferia. No final de abril, dos dez distritos com maior taxa de mortes por Covid-19 a cada 100 mil habitantes, cinco eram na Zona Leste. Na última semana do mês, a taxa de morte que mais acelerou foi a do distrito de São Rafael – o crescimento chegou a 7% por dia. Na semana anterior, era um crescimento de 1% por dia. No último dia 30, São Rafael tinha 15,7 mortes por Covid-19 a cada 100 mil habitantes. Um mês antes, no dia 28 de março, a prefeitura notificou as duas primeiras mortes do distrito. Nesse curto período de tempo, a taxa de mortes por 100 mil habitantes já ultrapassou as de homicídios e acidentes de trânsito de todo o ano de 2017, somadas. Apesar de não ter um número muito alto de casos – o que pode esconder uma realidade muito pior graças à subnotificação e à falta de testes – o ritmo de crescimento das mortes na região de São Rafael é preocupante, principalmente quando se leva em conta a infraestrutura de saúde local. 

Com cerca de 160 mil habitantes, São Rafael é um distrito de classe média e média baixa. As construções são majoritariamente horizontais, com casas contíguas e ruas sinuosas. A população é equivalente à de São Caetano do Sul, município da região metropolitana de São Paulo, a cerca de 11 km de São Rafael. Enquanto São Rafael não tem sequer um hospital no distrito, São Caetano tem sete, e um foi transformado em hospital de campanha para tratar exclusivamente pacientes de Covid-19. No dia 23 de abril, São Rafael tinha 86 casos da doença, entre confirmados e suspeitos. São Caetano tinha 612. Uma semana depois, no dia 30, São Rafael tinha 25 mortes e São Caetano, 23. Ou seja, mesmo com menos casos de Covid-19, o número de óbitos no distrito da Zona Leste já era maior. As últimas informações das mortes em cada distrito são do dia 30 de abril e foram fornecidas pela Prefeitura de São Paulo. A assessoria da prefeitura informou à piauí que não tem dados atualizados e não publicará mais boletins semanais – que, diferentemente dos boletins diários, mostram os casos e mortes separados por distrito. A partir de agora, esse tipo de informação só estará disponível a cada duas semanas.

Até o dia 30 de abril, São Mateus, onde Luana trabalha, era o terceiro distrito com maior número absoluto de mortes, 72. Ficou atrás somente de Brasilândia, com 103, e Sapopemba, região próxima à São Rafael que já tinha 101 mortes. O ritmo da doença é diferente na periferia, e a doença é mais letal nas regiões mais pobres – embora ainda não seja possível afirmar que as regiões mais ricas já atravessaram totalmente a crise. O Alto de Pinheiros, distrito de classe média alta da Zona Oeste, tinha, até o dia 30, a sexta maior taxa de mortes por 100 mil habitantes da cidade, 48,8. Isso é quase sete vezes a taxa de homicídios e acidentes de trânsito de todo o ano de 2017 somadas. E nada garante que os bairros vizinhos estejam imunes a uma segunda onda de contágio e mortes. 

Até ontem, dia 11 de maio, a cidade de São Paulo concentrava 28.089 casos e 2.305 óbitos, segundo o boletim diário da prefeitura. As UTIs estão com uma taxa de ocupação de 82%. Segundo os dados fornecidos pela assessoria da Secretaria de Saúde, o hospital de campanha do Pacaembu já está com 71% dos leitos ocupados. O hospital de campanha do Anhembi está com 30%. 

Na semana passada, Luana ficou sabendo pelo Facebook de mais uma morte no seu bairro – por enquanto, só conhecidos distantes adoeceram. “Mas eu sempre espero o pior”, conta. Para ela, as coisas não vão melhorar tão cedo. Como precisa sair de casa e, consequentemente, se expõe à contaminação, ela deixa a filha de 4 anos na casa da mãe, em quarentena. Na sua quebrada, Luana diz não ver medidas de apoio à população por parte do poder público. “Parece que dificultam de propósito”, desabafa. A única campanha de conscientização é feita nos postos de saúde, com cartazes e orientações. Segundo Luana, são movimentos praticamente imperceptíveis. As pessoas que precisam de alguma renda para sobreviver continuam a sair de casa. Mas às vezes também saem sem necessidade. Ao voltar do trabalho na última sexta-feira, o vizinho estava dando uma festa. Luana contou cerca de quinze pessoas reunidas. “Aqui na periferia as pessoas já estão acostumadas com essas tragédias”, diz. “Isso já não afeta mais.”  



Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

Na estrada da agonia

Sem UTIs suficientes contra Covid, cidades do interior sofrem para transferir pacientes para capitais - que também estão lotadas

A polícia não pode tudo

Decisão do STJ obriga policial a gravar em áudio e vídeo autorização do morador para entrar numa casa

Foro de Teresina #140: A variante Bolsonaro

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Na piauí_174

A capa e os destaques da edição de março

Luz no Fim da Quarentena: A melhor vacina

A vacina da Pfizer tem aprovação definitiva da Anvisa e os melhores resultados em campanhas de vacinação ao redor do mundo; o que falta para ser aplicada no Brasil?

Depois da festa, o pior da Covid

Rio Grande do Sul vive momento mais grave da pandemia, com mais jovens internados e a chegada da variante P.1; hospital aluga contêiner para corpos

Mais textos
1

Bloqueio – caminhoneiros em greve

Incertezas retratadas no documentário são referência para entender as mudanças políticas no país

3

Greve de PMs no Rio faz violência despencar 40%

UPP - Com um efetivo menor de policiais militares nas ruas do Rio de Janeiro, os índices de criminalidade despencaram. Foram registradas quedas expressivas de interceptação truculenta de meliante sem camisa (65%), tapas na cara de playboy da Zona Sul (44%) e sacode em camelô (39%). Padarias e bares comemoraram a brusca diminuição do número de viaturas exigindo arrego. O comércio paralelo de cafezinhos caiu 87%. "A greve da PM é um passo importantíssimo para o processo de pacificação da cidade", explicou José Mariano Beltrame.

4

Duelo na selva

Os ingleses se preparam para ir a Manaus

5

STF afasta Nacional-URU e Corinthians volta à Libertadores

ARENA BRASÍLIA - Após suspender o mandato do deputado Eduardo Cunha, o plenário do STF iniciou o julgamento de novos casos.

6

Ciro queima pontes com o Exército

Cúpula militar reage à declaração do candidato de que general Villas Bôas “pegaria uma cana” por falar de política; de “bom quadro”, pedetista vira “insensato”

7

Em protesto contra Feliciano, Lula divulga foto beijando o espelho

ID - Ávido por se reconciliar com sua porção militante, enrustida desde que assumiu o poder em 2003, o ex-presidente em exercício Luiz Inácio da Silva postou no instagram uma foto contra o pastor Marco Feliciano. "Nunca antes na história deste país um presidente emérito havia beijado um trabalhador nordestino de origem pobre na boca", escreveu. Em seguida, associou o beijo na boca ao sucesso de seu governo e disse que ele é o pai do smak!

9

Seymour Hersh e o massacre de My Lai

Em 1969, a Guerra do Vietnã se arrastava por 14 anos e ainda contava com o apoio da maioria dos americanos. Naquele ano, o jornalista Seymour Hersh recebeu de uma fonte sigilosa a informação de que um oficial do exército americano seria julgado como responsável pelo massacre de civis em uma aldeia no Vietnã.

10

O candidato enjaulado

Há três décadas, um macaco disputou eleições em um Brasil conflagrado – poderia ser hoje