questões manuscritas

Deodoro desabafa com Floriano

Nesta carta de 21 de Agosto de 1890, dirigida a Floriano Peixoto, uma das mais contundentes e irônicas da correspondência conhecida entre os dois grandes líderes militares dos primórdios da República, marechal Deodoro da Fonseca deixa transparecer claramente seu aborrecimento.

Pedro Corrêa do Lago
29out2013_17h22

A República foi proclamada em 15 de Novembro de 1889 de maneira tão atabalhoada que o chamado Governo Provisório, chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, teve de tentar reorganizar toda uma administração e uma enorme burocracia composta na sua maior parte por fiéis servidores do Imperador. Ainda que muitos funcionários tenham se apressado em renegar suas antigas convicções monarquistas, os militares que acabavam de assumir o poder deveriam substituir a maior parte dos cargos de confiança. Isso naturalmente criava tensões consideráveis e a irritação do velho marechal Deodoro era constante. Nesta carta de 21 de Agosto de 1890, dirigida a Floriano Peixoto, uma das mais contundentes e irônicas da correspondência conhecida entre os dois grandes líderes militares dos primórdios da República, Deodoro deixa transparecer claramente seu aborrecimento:

Floriano, estou convencido de que todos procuram contrariar-me: mais uma cagalhada.
Na ordem do dia nº 90 vem a nomeação do alferes Carlos Baptista de Oliveira ,que é arregimentado, para oficial de ordens do comandante da Escola Militar.
Viva o ministro da Guerra
Viva o ajudante general
Viva o carnaval.
21 de agosto
O amigo velho,
Deodoro
PS.: Depois de amanhã passarei telegrama ao governador do Ceará fazendo recolher o alferes.


 Clique na carta para ampliá-la

Por motivos hoje esquecidos, a nomeação do alferes contrariava frontalmente os desígnios de Deodoro, talvez por tratar-se de algum desafeto. Em todo caso, ao atribuir a culpa da nomeação ao ministro da Guerra, Deodoro isenta Floriano, seu vice-presidente e compartilha com ele com grande franqueza sua frustração no exercício do poder. Muito além da palavra chula, é evidentemente a expressão “Viva o carnaval” que soa particularmente significativa, pois revela a profunda consciência que tinha o Marechal Deodoro, nove meses depois da proclamação da República, da ampla confusão que reinava na nova administração pública brasileira.



Pedro Corrêa do Lago

Pedro Corrêa do Lago é mestre em economia pela PUC - Rio. Foi autor do blog questões manuscritas no site da piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

Foro de Teresina #134: Sem vacina, sem Trump, sem nada

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Consórcio de checagem de fatos é indicado ao Nobel da Paz

Presente em 51 países, entre eles o Brasil, Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN) recebeu a nomeação nesta quinta-feira (21)

A queda do padre youtuber

Marcos de Miranda é afastado da Igreja após denúncia de que infringiu o celibato e tem um filho de 2 anos. Ele nega a acusação

“O mundo em torno de mim está se desfazendo”

Jornalista que vive no Amazonas há trinta anos descreve o colapso dos hospitais manauaras durante a segunda onda da pandemia

Vacina em causa própria

Veterinário que comanda o Departamento de Imunização do Ministério da Saúde inclui a própria categoria na fila prioritária de vacinação contra a Covid-19

A epidemia particular das prisões

No Brasil, suicídios são quatro vezes mais comuns nas cadeias do que fora delas; famílias de presos lutam para que Estado se responsabilize pelas mortes

Pesadelo em Manaus

Mais trinta mil mortos pela Covid em apenas trinta dias. Quem é o responsável por essa tragédia?

Mais textos
1

O lobby da capivara

Como nasce um emoji

2

121

5

Sobrou para o PSTU

Agremiação trotskista com apenas dois vereadores não escapou da fúria contra os partidos, mas já faz planos para o pós-revolução

6

How do you do, Dutra?

É mais arriscado [e divertido] ir de São Paulo ao Rio de carro do que remar da África a Salvador

7

A semana no site da piauí

O "início do namoro" entre Mão Santa e Bolsonaro, as investidas do procurador Carlos Fernando contra os críticos da Lava Jato e outras histórias

8

Quixote venceu

Memórias e dúvidas metafísicas de um torcedor do Galo diante da glória

9

Um pierrô apaixonado

As melhores marchas do carnaval do Rio de Janeiro sucederam-se na boca do povo ao longo das décadas de 1920 a 1950, para fixar-se em seguida na memória de todos os cariocas, mesmo aqueles para quem o carnaval será sempre apenas um feriado. Repetidas ao infinito nas rádios, cantadas nas ruas e nas casas, muitas das marchinhas mais populares tornaram-se imortais.