questões da desinformação

Desbancados e desmascarados

Contra a ciência e as recomendações sanitárias, conteúdos falsos sobre uso de máscaras se espalham nas redes sociais

Plínio Lopes
23jul2020_12h24
Ilustração de Paula Cardoso

Com o cenário composto apenas por uma parede branca e um calendário, o influenciador digital Rodrigo Polesso vestiu uma camiseta bege com gola V, colocou um fone de ouvido e se sentou em frente a um microfone profissional para gravar um vídeo criticando o uso de máscaras contra o novo coronavírus. Na filmagem, afirmou que a proteção não tem eficácia porque as partículas de saliva expelidas por pessoas infectadas seriam menores do que os poros da máscara. Publicado no Instagram em 23 de junho, o vídeo acumulava mais de 31 mil visualizações apenas naquela rede social até sexta-feira, 17 de julho.

O Comprova – coalizão que reúne 28 veículos de comunicação (inclusive a piauí) para verificação de boatos – mostrou que os argumentos de Polesso são falsos. O uso correto de máscaras, segundo a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde, é uma das formas de evitar a propagação do novo coronavírus. E Polesso é só um dos porta-vozes de uma onda de propagadores de conteúdos falsos nas redes sociais para tentar desacreditar a máscara como prevenção eficaz contra o vírus. De 14 de abril a 17 de julho, o Comprova analisou oito conteúdos falsos ou enganosos sobre máscaras que, somados, alcançaram pelo menos 3 milhões de visualizações.

A onda antimáscaras é alimentada por pessoas com formações diversas, que vão desde influenciadores digitais e youtubers até médicos e lideranças religiosas. Os responsáveis pelos conteúdos não parecem ter uma articulação entre si. As publicações são diversas e circularam em diferentes momentos da pandemia. Em comum, atraem para os autores engajamento e seguidores em suas contas nas redes sociais. Uma das estratégias utilizadas por sites que produzem desinformação é justamente aumentar o número de visualizações e, com isso, aumentar o número de anunciantes nas páginas.

Embora nenhum político seja citado, o movimento antimáscara acaba sendo estimulado quando lideranças aparecem sem o uso do equipamento de proteção. É o caso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que circulou diversas vezes por Brasília sem máscara durante a pandemia. Ele chegou a ser obrigado a utilizar a máscara pela Justiça, mas a decisão foi derrubada dias depois. No começo de julho, o presidente almoçou com o embaixador dos Estados Unidos, Todd Chapman, e quatro ministros brasileiros – todos sem máscara. Dias depois, Bolsonaro foi diagnosticado com Covid-19.



A primeira onda de conteúdos falsos sobre máscaras acusou a China e outros países de contaminarem máscaras com o novo coronavírus. Ainda em abril, no começo da pandemia, uma publicação fez uma montagem utilizando um vídeo do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, para afirmar que máscaras importadas da Índia e da China estariam infectadas. Os autores do vídeo, que não foram localizados pelo Comprova, utilizaram imagens de uma entrevista coletiva da organização, mas gravaram uma narração nova e substituíram pelo áudio original. Em nota, a própria OMS afirmou que não emitiu nenhum alerta sobre a importação de máscaras. 

Ainda no mesmo tom acusatório de contaminação das máscaras, um líder religioso, que se identifica como Pastor Robson, gravou um vídeo afirmando que máscaras de proteção contaminadas estariam sendo distribuídas pelo sistema de saúde em cidades da Baixada Santista, em São Paulo. No dia seguinte, ele apagou a gravação e afirmou que a suposta contaminação não era verdadeira. De acordo com a assessoria de imprensa do pastor, ele “se confundiu” ao se basear em informações que recebeu de um grupo no Facebook.

A segunda onda de informações falsas e enganosas sobre máscaras ocorreu entre maio e julho, apontando problemas de saúde associados às máscaras. Um vídeo gravado por um youtuber e outros dois vídeos gravados por dois médicos (aqui e aqui) afirmavam que a utilização de máscaras prejudicaria a respiração, fazendo com que as pessoas respirassem mais dióxido de carbono (CO2) e que isso tornaria o sangue mais ácidos – e, portanto, diminuiria a imunidade dos utilizadores. Um texto que listava “17 conselhos sobre a pandemia” também chegava à mesma conclusão. Os quatro conteúdos tiveram, juntos, mais de 2 milhões de interações. 

Em um dos conteúdos, o médico João Carlos Luiz Vaz – que já foi candidato a deputado federal pelo PSDB em 2014 e 2018 – afirmava que o uso prolongado da máscara não teria eficácia no combate ao novo coronavírus e tornaria o sangue mais ácido e “um meio propício e ideal para o vírus”. Especialistas ouvidos pelo Comprova afirmaram que Vaz está “completamente errado”. “Os poros das máscaras, mesmo não sendo visíveis, permitem as trocas gasosas. O indivíduo que está protegido com máscara não vai inalar seu próprio gás carbônico”, disse Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. Procurado pelo Comprova, o médico afirmou que o que ele diz no vídeo é opinião dele. “Tenho 49 anos de profissão, doutorado na Alemanha, não estou para discutir com ninguém. Cada um que aprenda”, disse Vaz.

Por fim, a terceira onda de desinformação identificada pelo Comprova duvida da própria eficiência das máscaras. Ela começou com o vídeo publicado por Polesso e, desde então, o projeto vem monitorando novas peças de desinformação. 

Os argumentos da turma dos antimáscara não se sustentam cientificamente. A afirmação de Polesso sobre tamanho dos poros, por exemplo, não faz sentido porque o processo de filtragem das máscaras não depende unicamente disso – existem vários processos físicos envolvidos. “É um fenômeno multifatorial, que tem a ver com o tamanho das partículas, velocidade das partículas, tipos de tecidos usados, a características desses tecidos e também as cargas [elétricas] das partículas e dos materiais das máscaras”, explicou o pesquisador Carlos Zárate-Bladés, do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina.

Partículas maiores, de pelo menos um micrômetro, viajam em linha reta e, mesmo que passem pelos poros, irão se chocar com as fibras das máscaras, que possuem várias camadas. Partículas menores que um micrômetro estão sujeitas ao movimento browniano – princípio físico que faz com que a trajetória das partículas seja aleatória e não em linha reta – responsável por fazer com que elas se choquem com as fibras das máscaras. Por fim, partículas ainda menores são atraídas por campos eletrostáticos presentes nos materiais das máscaras. Por isso, é importante que elas tenham, pelo menos, três camadas e sejam feitas com diferentes materiais – a recomendação é da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

No vídeo, Polesso citou diversos artigos científicos que, segundo ele, comprovariam a ineficácia das máscaras. O Comprova leu todos os trabalhos e verificou que eles não afirmam isso. Na verdade, o influenciador tirou de contexto alguns e deixou de lado outros aspectos dos artigos. Ao comentar um trabalho randomizado feito no Japão e publicado em 2009, sobre a capacidade das máscaras de reduzir a incidência de resfriados entre profissionais de saúde, Polesso afirmou que “o uso de máscara não demonstrou nenhum potencial benefício nos sintomas do resfriado ou no potencial de ser infectado por um resfriado”. Porém, deixou de exibir a frase seguinte do artigo que ressaltava ser “necessário um estudo maior para estabelecer definitivamente se não há menos risco em não usar máscara”. Estudos citados por Polesso eram antigos e nenhum era específico sobre o novo coronavírus. Estudos mais recentes já mostraram o poder de filtragem das máscaras.

O Comprova consultou especialistas e diversos artigos que referendaram a recomendação das autoridades sanitárias sobre a eficácia das máscaras. Elas não atrapalham a respiração e tampouco diminuem a imunidade das pessoas. O infectologista Jean Gorinchteyn, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, de São Paulo, explicou que as máscaras filtram gotículas e partículas, mas permitem a troca de ar. “Os poros não evitam a passagem do ar, são filtros, filtram partículas. Os gases têm tamanho muito menor e conseguem passar”, ressaltou o médico. Em entrevista ao Comprova, o médico e diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Antônio Carlos Bandeira explicou que as máscaras funcionam como um anteparo para o vírus. Ele destacou que o uso das máscaras se torna essencial na medida em que pessoas assintomáticas, ou com sintomas leves da doença, também transmitem o vírus. Segundo ele, “o uso de máscara previne a possibilidade de o indivíduo contaminado, mesmo que ele não saiba [que está infectado], de aerossolizar partículas, porque essas partículas vão ficar presas na porção interna das máscaras”. 

Na segunda-feira, 20 de julho, Polesso apagou o vídeo das redes sociais. Procurado pelo Comprova, Polesso afirmou que seu vídeo se baseia em evidências e não em sua opinião sobre o assunto. Segundo ele, o fato de a “OMS [Organização Mundial da Saúde] dizer algo não significa que este algo é verdadeiro ou baseado em evidências”. 

A OMS recomenda o uso de máscaras como parte da estratégia para parar a transmissão do vírus. A entidade afirma que o uso de máscara por si só não é suficiente para fornecer um nível adequado de proteção contra a Covid-19. Por isso, recomenda também que se mantenha uma distância mínima de um metro de outras pessoas, se lave constantemente as mãos e que se evite tocar o rosto ou a própria máscara. 

Desde abril, o Ministério da Saúde recomenda o uso de máscaras caseiras para que as pessoas se protejam do novo coronavírus. Segundo a pasta, para que as máscaras caseiras sejam eficientes como uma barreira física, elas precisam ter pelo menos duas camadas de pano e cobrir totalmente a boca e o nariz, além de ser justas ao rosto, sem deixar espaço nas laterais. Outra recomendação é para que sejam de uso individual, não podendo ser compartilhadas com outras pessoas. O ministério cita tecidos como algodão, tricoline e TNT como opções para confecção dos equipamentos.

O médico e pesquisador Carlos Zárate-Bladés, da UFSC, reforça que é importante que as máscaras tenham, pelo menos, camadas de tecidos diferentes, como recomenda a Organização Mundial da Saúde.“Que os tecidos sejam diferentes para que consigamos ter uma trama fechada, mas que permita respiração e que consigamos ter uma máscara que atue não unicamente por um só mecanismo”, afirma. A utilização correta das máscaras é muito importante para a efetividade de seu uso. As máscaras também devem ser feitas de tecidos que sejam facilmente laváveis e que tenham uma duração mais longa. A recomendação da Anvisa é para que as máscaras sejam utilizadas por, no máximo, três horas e depois sejam lavadas com água e sabão, álcool 70 ou em uma solução com água sanitária. “Você pode ter a máscara mais perfeita do mundo, projetada de diversas formas e testada, mas o mais importante é o uso que a pessoa faz dela: o bom uso implica em não tocar na máscara, lavar corretamente, saber retirá-la, saber colocar”, reforça Zárate-Bladés.

*

As verificações citadas no texto foram feitas pela equipe do Comprova, com participação de jornalistas dos seguintes veículos: Estadão, Rádio BandNews FM, SBT, Nexo, Jornal do Commercio, Folha de S. Paulo, UOL e revista piauí. Você pode acessar todas elas no site do Projeto Comprova: https://projetocomprova.com.br/

Plínio Lopes (siga @Plluis no Twitter)

Repórter freelancer, trabalhou na Agência Lupa e é especializado em jornalismo de dados e fact-checking

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