tempos da peste

Desiguais até na infelicidade

Entre os 40% mais pobres da população brasileira, sensação de bem-estar geral caiu mais; para os 20% de renda mais alta, sentimento é de que a vida até melhorou

Amanda Gorziza
22jun2021_16h02
Ilustração de Carvall

A gaúcha Escarlen Moch, de 34 anos, trabalhou durante nove anos no setor financeiro de um pensionato em Porto Alegre. Com o início da pandemia e a interrupção das aulas presenciais, grande parte dos estudantes que alugavam quartos no local voltaram para suas casas, o que fez diminuir drasticamente a renda do estabelecimento. Em janeiro de 2021, Moch foi demitida. Os gestores alegaram problemas financeiros da instituição.

Pega de surpresa, Moch enviou currículo para diversos locais durante os seis meses seguintes, mas ainda não conseguiu emprego. “Ser demitida, precisar enviar currículos e observar que há poucas vagas tem me deixado mais nervosa e ansiosa. Tem dias em que é desanimador”, desabafa. Até conseguir novo emprego, o dinheiro da rescisão e algumas reservas financeiras a auxiliam a pagar as contas diárias. “Eu com certeza estaria mais feliz agora se estivesse trabalhando.”

Escarlen Moch: emprego perdido e falta de perspectiva – Foto: Arquivo pessoal

 

A diminuição de postos de trabalho durante a pandemia gerou uma perda de bem-estar generalizada na população brasileira. Esse sentimento difuso relatado por Moch, o desânimo, a falta de perspectiva de trabalho, afetou diretamente o que os especialistas definem como “sentimento de felicidade”. Pesquisa do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social) mostra que os brasileiros estão mais infelizes durante a pandemia – o índice de felicidade, que era de 6,5 pontos em 2019, baixou para 6,1 em 2020 a sensação de satisfação com a vida presente. Os dados são do Gallup World Poll, que mede, em uma escala de 0 a 10, a felicidade em quarenta países com base em perguntas sobre a satisfação com a vida e emoções diárias.

Para o diretor da FGV Social e coordenador do estudo, Marcelo Neri, a pandemia influenciou na diminuição da taxa nacional de felicidade. “Estamos vivendo uma tragédia, as pessoas estão com a sobrevivência ameaçada e perderam entes queridos”, afirma. Mas até na felicidade o Brasil é desigual – a queda na sensação de satisfação ocorreu principalmente entre os 40% mais pobres da população. Antes da Covid-19, a taxa de felicidade nesse grupo chegava a 6,3; baixou para 5,5 durante a pandemia, ou seja, caiu 13%. Já entre os 20% mais ricos, houve um ligeiro aumento na felicidade, de 6,8 para 6,9. Entre os extremos de renda da população brasileira, a diferença no nível de satisfação com a vida, que era de 8% em 2019, subiu para 25,5% no ano seguinte. 

 

Diferente de Moch, que durante a pandemia se sente infeliz devido à perda do emprego e à instabilidade financeira, um jovem cearense vivencia o sentimento contrário. Vinícius Negreiros, de 22 anos, descobriu sua vocação em meio à epidemia. Estudante de publicidade e propaganda, acabou se distanciando do curso e encontrou uma nova paixão: ser cabeleireiro. Conseguiu um emprego na área mesmo em um período turbulento do avanço da Covid-19 no país. “Estou extremamente feliz e não me arrependo das minhas escolhas. Se eu não estivesse trabalhando, eu estaria em casa apenas estudando e correndo menos risco de contrair a Covid-19, mas não estaria passando por esse aprendizado e experiência no mercado de trabalho.” 

De estudante a cabeleireiro: trabalho novo fez Vinícius Negreiros se sentir mais feliz mesmo durante a pandemia – Foto: Arquivo pessoal

 

Além do efeito da pandemia, as questões trabalhistas e o desemprego também influenciaram na queda do índice de felicidade. A renda média per capita do trabalho do cidadão brasileiro, incluindo tanto trabalho formal quanto informal, caiu 11,3% na pandemia em relação ao primeiro trimestre de 2020, e atingiu 995 reais. Esse foi o índice mais baixo da série histórica e ficou pela primeira vez abaixo de 1 mil reais. Mais de 80% da queda de renda se dá pela perda de ocupação da população. Segundo Neri, esta é uma crise atípica, porque, em geral, o trabalho informal aumenta em momentos de instabilidade. Mas esse movimento diminuiu devido à necessidade do isolamento social que a pandemia impôs. 

Entre os 50% mais pobres, a queda de renda foi quase duas vezes maior – 20,9%. E a desigualdade salarial aumentou. O índice de Gini, que mede a concentração de riquezas, passou de 0,642 no primeiro trimestre de 2020 para 0,674 no mesmo período em 2021, o pico da série histórica. Quanto mais perto de 1 fica o índice, maior a desigualdade. “É uma dupla perda, a média de renda cai como nunca caiu nas séries históricas e a desigualdade de renda do trabalho sobe como nunca subiu durante a pandemia”, diz Neri. Além disso, o bem-estar social, conceito que considera prosperidade e igualdade da população, caiu 19,4% por causa da redução da renda média e do aumento da desigualdade.

A pesquisa da FGV Social mostra que o Brasil normalmente se situa bem no ranking mundial de felicidade. Mesmo diante de cenários adversos, a população geralmente era otimista em relação ao futuro. “Tínhamos mais alegria que dinheiro no bolso”, afirma Neri. Entretanto, durante a pandemia, seja no mercado de trabalho, seja na felicidade, o país chegou aos menores níveis da série histórica.

Como na história de Moch, o cenário da pandemia no país e a perda de emprego agravaram emoções pontuais, como nervosismo e ansiedade. Essa foi uma tendência nacional, pois sentimentos como estresse, preocupação, tristeza e raiva aumentaram mais entre os brasileiros do que na média entre os outros quarenta países pesquisados. Por exemplo, a ideia de preocupação (medida por uma pergunta que indaga sobre os sentimentos da pessoa na véspera da pesquisa) subiu de 56% em 2019 para 62% em 2020 entre os brasileiros com 15 anos ou mais.

Com o avanço da vacinação no Brasil, o marcador de felicidade deve voltar a subir, de acordo com Neri. Se a imunização tivesse sido mais rápida, teria poupado a infelicidade máxima de muitas famílias que estão sofrendo com as sequelas desse período. “No curto prazo, a pandemia vai deixar uma série de cicatrizes e marcas permanentes, e na felicidade das pessoas também.”

Amanda Gorziza (siga @amandalcgorziza no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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