Igualdades

Desligando vidas

Lianne Ceará, Daniel T. Ferreira e Renata Buono
24maio2021_11h10

Documento central na vida do brasileiro, a carteira de trabalho virou um marcador da tragédia do país na pandemia. Mede o sobe e desce do emprego formal, mas também conta, com números, histórias de pessoas desligadas do trabalho porque morreram. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) compilados pelo Pindograma mostram que, em março deste ano, o número de brasileiros desligados por morte dobrou em relação a fevereiro. Os números não indicam a causa da morte. Mas permitem saber que, no ano da pandemia, recepcionistas morreram mais que médicos, e motoristas de ônibus e caminhão, tanto quanto técnicos de enfermagem. Os dados de desligamentos por morte no ano pandêmico se referem ao período de abril de 2020 a março de 2021; os do período pré-pandemia consideram a média mensal dessas ocorrências de janeiro de 2015 a março de 2020. Confira no =igualdades desta semana:

Em fevereiro de 2021, período de alta da segunda onda da Covid, os desligamentos por morte totalizaram 5,7 mil; em março, um mês após, o número dobrou e atingiu seu ápice – 10,6 mil.

Antes da pandemia, no período de janeiro de 2015 a março de 2020, a média mensal de brasileiros desligados por morte era 4.361. Durante a pandemia, de abril de 2020 a março de 2021, saltou para 6.059.

A Covid também deixou os profissionais mais velhos ainda mais vulneráveis. Em março de 2021, para cada desligamento por morte de pessoas com menos de 30 anos, eram oito de pessoas com 50 anos ou mais – 705 profissionais com menos de 30 anos foram desligados por morte, enquanto os mais velhos totalizaram 5.529.

Na linha de frente, os desligamentos por morte de recepcionistas da área da saúde cresceram mais que os dos próprios médicos. Para cada dez médicos que morriam antes da pandemia, passaram a morrer 16,6; entre os recepcionistas do setor de saúde, a cada dez que morriam antes da pandemia, passaram a morrer 17,4.

Longe da linha de frente da doença e perto das estradas, motoristas de ônibus e de caminhão viram crescer na pandemia os desligamentos por morte. Nesses grupos, esse tipo de ocorrência aumentou tanto quanto entre técnicos e auxiliares de enfermagem – a média de desligamentos por morte das duas profissões cresceu cerca de 80% após a pandemia.

O desligamento por morte atingiu mais os instrutores de autoescola que as outras categorias de professor. Após a pandemia, média de instrutores desligados porque morreram aumentou 100%; entre outros professores, 60%.

Na Região Norte do Brasil, a média de desligamentos por morte entre profissionais de saúde cresceu duas vezes mais que na Região Sul. Enquanto no Norte o desligamento de profissionais da saúde aumentou 172% em comparação ao período antes da pandemia, no Sul, o aumento foi de 38%.

Lianne Ceará (siga @lianneceara no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Daniel T. Ferreira (siga @pindograma no Twitter)

É editor-chefe do Pindograma, site de jornalismo de dados, e estudante de História na Universidade de Stanford.

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

leia mais

Últimas Mais Lidas

Como dois e dois são cinco

Duas tevês, dois celulares e cinco alunos que desaprenderam: a rotina, os temores e os sonhos de uma família após um ano de ensino remoto por causa da Covid

Da facada ao soluço

Com internação de Bolsonaro, apoiadores bolsonaristas nas redes repetem script: ação coordenada, pedidos de oração e lembrança do “milagre” de 2018

Morte e vida no mesmo documento

No ano em que a pandemia confrontou os brasileiros com a ameaça de morrer, número de testamentos foi recorde no país

Foro de Teresina #159: Militares blefam, civis pagam pra ver

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Tropa de desiguais

Diferença salarial média entre a base e o topo das Polícias Militares chega a quinze vezes; alguns estados pagam o dobro que outros a policiais da mesma patente

Mais textos