questões cinematográficas

Domingo – um dia especial

Filme paga preço alto ao ser lançado agora, quando expectativa de “nova era” se mostrou ilusória

Eduardo Escorel
16out2019_08h00

Depois de assistir a Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, fica claro que o filme se passa em um único dia, excetuada a festa de 15 anos no encerramento. Não é uma data qualquer, mas 1º de janeiro de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse da Presidência da República. A passagem da faixa presidencial e outras etapas do ritual, vistas na tevê ou ouvidas pelo rádio, formam um dos eixos da narrativa, ainda que em segundo plano, entremeadas às atribulações familiares da matriarca Laura (Ítala Nandi), sempre preocupada em reafirmar sua autoridade. No sítio malconservado onde ela se reúne com os filhos, noras e netos, no entanto, ninguém dá sinal de estar muito interessado nas cerimônias que estão transcorrendo em Brasília.

Caso pairasse alguma dúvida quanto ao dia preciso em que Domingo é situado, uma entrevista de Lucas Paraizo, autor do roteiro, seria esclarecedora: “As esferas pública e privada se cruzam [no filme] numa espécie de vaudeville num dia histórico do Brasil (a posse do Lula em 2003) que culmina com um final que ressignifica a história” (Blog P de Pop, Rodrigo Fonseca, 1/10).

Sendo assim, qual a razão de o título do filme ser Domingo se a posse de Lula foi numa quarta-feira, conforme bem lembrou Sérgio Alpendre em sua crítica na Folha de S. Paulo (6/10)? Para Alpendre, a troca do dia da semana “talvez dê uma ideia do nível de alienação dos personagens”, hipótese que me parece difícil demonstrar. É pacífico que se trata do dia em que Lula toma posse na Presidência. Laura, sempre meio alheia a tudo, surpreende-se com a chegada do professor de tênis de Bete (Camila Morgado), sua espevitada nora: “Professor de tênis? Hoje é domingo!” “Hoje é sábado. Dia da minha aula”, Bete replica. “Odeio quando sábado parece domingo”, comenta Nestor (Augusto Madeira), filho de Laura e marido de Bete. “Mas afinal, hoje é sábado ou é domingo?”, pergunta Laura sem obter resposta.

Deixar o dia da semana no ar seria mais legítimo se o roteiro não estabelecesse um vínculo estrito entre o enredo e a posse do presidente da República, em 2003. Buscando explicação para a incongruência entre o título e a ocorrência do fato histórico, perguntei à diretora e ao diretor qual a razão do filme se chamar Domingo se a reunião familiar ocorre no dia da primeira posse de Lula que caiu em uma quarta-feira.

As respostas que recebi foram meio desconcertantes. Para Linhart, “foi uma licença poética de Lucas Paraizo, o autor [do roteiro]. Para aquela família, todo dia é domingo, dia de descansar”. Longe de mim pretender inibir a liberdade de expressão de Paraizo, mas não identifico no filme nenhum sinal de que todo dia é dia de descanso para a família de Laura. Afinal, 1º de janeiro, como todos sabem, é feriado, dia de repouso.

Barbosa, por sua vez, estendeu-se mais: “Domingo se refere ao dia de descanso, mas a ação se passa num sábado em que os empregados estão trabalhando. Um sábado com cara de domingo. Como numa peça de Tchekhov, os personagens da casa-grande estão inertes – eles querem sair daquele lugar mas não conseguem. Quando o roteirista Lucas Paraizo decidiu contextualizar o filme no dia da primeira posse do presidente Lula, uma quarta-feira, ele manteve o título e o dia da ação, contribuindo para essa confusão temporal, que é também tema do filme – quando estamos? A montagem do filme sugere essa interseção temporal o tempo todo: como as cenas são filmadas em plano-sequência (todas, exceto uma), cada corte dá um passo para trás, criando pequenas interseções temporais com a cena anterior. Essa repetição fica evidenciada na montagem do apagão, em que vemos a mesma luz caindo e depois voltando através de múltiplos pontos de vista, sugerindo uma circularidade do tempo. Esse Domingo significa também o dia seguinte, o que está por vir, o anúncio de uma nova era.”

Quer dizer então que Domingo se passa em um sábado? Muito bem, assunto resolvido. Se o diretor assim entende, e Paraizo confirma na entrevista citada, quem sou eu para discordar. Não creio, porém, que a explicação de Barbosa seja satisfatória. Tratando-se de uma família burguesa, o fato dos empregados estarem trabalhando não exclui a possibilidade de tudo ocorrer no Dia do Senhor. Quanto à “confusão temporal” ser “tema do filme”, confesso que esse propósito deliberado me escapou por completo – o grande risco de pretender tratar de “confusão temporal” é acabar sendo apenas confuso, como me parece ser o caso.

É difícil entender também, como Barbosa sugere, que o domingo do título possa significar “também o dia seguinte, o que está por vir, o anúncio de uma nova era”. Apesar da premissa básica do filme ser, de fato, a expectativa de transformação do grupo familiar da matriarca a partir da posse de Lula, essa esperança acabou sendo frustrada nos anos seguintes e soterrada com o resultado da eleição presidencial do ano passado. Com isso, a fragilidade do pressuposto de Domingo ficou nítida, e o filme, visto hoje, além de ter se tornado precocemente anacrônico, acabou perdendo, em parte, sentido.

Não faltam metáforas em Domingo preconizando o fim da constelação familiar de Laura, a partir da “nova era” que estaria por vir. A sequência de abertura por si só é taxativa a esse respeito. José (Clemente Viscaíno), empregado da família, toca o pequeno rebanho de ovelhas para o curral, derruba a melhor dentre elas e se prepara para sacrificá-la. As ovelhas encurraladas e o abate remetem à situação enclausurada da família de Laura diante do que “está por vir”. Decorrido cerca de metade do filme, ela diz ao filho Nestor que “daqui a pouco os empregados vão estar mandando em ti também”.

Para surpresa de José, um dos netos de Laura, votou “nesse Lula”. Não por acaso, o empregado é o único a morrer naquele dia, como que castigado por um choque elétrico. Na cena seguinte, Laura chama por ele. Em um plano longo, ela ouve pelo rádio Lula discursando. Aos poucos, em close, passa a prestar mais atenção nas palavras do novo presidente. Reage com expressões ora de desdém, ora de ironia. Bate palmas sarcásticas, como se fosse uma criança. Aos poucos, parece entender o que está ouvindo (“Estamos começando hoje um novo capítulo da história do Brasil”, diz Lula em off). O semblante de Laura assume feição trágica diante da revelação de que seu tempo pode estar chegando ao fim. É um momento de atuação tocante e silencioso, difícil de encontrar em nosso cinema.

Aparentando incerteza quanto à compreensão do sentido obviamente metafórico da primeira sequência, o roteirista e a dupla de diretores alinham em seguida reiterações que se tornam redundantes. Na antiga casa do sítio há um grande, e inverossímil, aquário de peixes ornamentais – outra sugestão de animais confinados à semelhança dos personagens; duas taças de champagne são quebradas, uma por acidente, outra de propósito. Ao menos para Bete, um dos grandes atrativos da reunião familiar é ver “o circo pegar fogo”.

Domingo paga um preço alto ao ser lançado só agora, quando o mínimo que se pode dizer é que a expectativa de uma “nova era” a partir da posse de Lula comprovou ter sido ilusória. E, ainda mais, quando a eleição presidencial do ano passado demonstrou a força da rejeição ao Partido dos Trabalhadores, o que tranquilizaria a matriarca ameaçada de Domingo.

Por essa reviravolta, Paraizo, Linhart e Barbosa não esperavam quando o projeto de Domingo foi concebido e gravado. Às vésperas do lançamento, parecendo estar acometido de autoengano, o autor do roteiro reafirmou que seus personagens “já não poderão mais voltar atrás, assim como o Brasil – mesmo apesar da (dura) realidade política que vivemos hoje” (idem entrevista citada ao blog P de Pop). Afirmação, no mínimo, surpreendente: é difícil imaginar que Paraizo não tenha percebido a mudança radical de expectativa ocorrida entre a posse de Lula, em 2003, e a eleição de 2018.

A festa de 15 anos de Valentina (Manu Morelli), neta de Laura, ocorrida após uma passagem de tempo, é o epílogo de Domingo. Um apagão interrompe a dança. No escuro, ouvem-se gritos indecorosos, além de protestos contra o governo. A luz volta, a dança é retomada e a vida parece que prosseguirá, inalterada.

Os versos de Solamente una vez, o bolero nostálgico ouvido em diferentes versões ao longo de Domingo e também no encerramento na voz de Nat King Cole, sugerem que o dia da reunião familiar e o da festa foram únicos e nada mais.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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