colunistas

Dor e Glória – lembranças luminosas de Almodóvar

Inteligência e sensibilidade marcam filme que traduz vulnerabilidade física do diretor e de Banderas

Eduardo Escorel
19jun2019_08h15

A  estreia entre nós de Dor e Glória, 21º filme de Pedro Almodóvar, mestre do cinema em plena atividade, deveria ser saudada com fanfarras e fogos de artifício. Tendo se tornado cada vez mais raro encontrar o que valha a pena assistir no circuito, a cada semana, quando isso ocorre, rojões deveriam ser disparados, enquanto bandas de sopro e percussão sairiam pelas ruas da cidade com um arauto à frente anunciando a boa-nova – para alegria geral chegou às telas uma manifestação valiosa de inteligência e sensibilidade.

Em setembro, Almodóvar completará 70 anos – idade propícia para reelaborar reminiscências biográficas e experiências pessoais, além de se apropriar de lembranças alheias e dar asas à própria imaginação. Esse é o procedimento que constitui a substância de Dor e Glória, a par do domínio exemplar da narrativa acronológica em que tempo da infância e da vida adulta são alternados e combinados com maestria.

Aos atributos responsáveis por tornar o filme glorioso, soma-se a contribuição decisiva do elenco, com destaque para as interpretações de Antonio Banderas, no papel do cineasta Salvador Mallo, alter ego de Almodóvar, e também de Julieta Serrano, como Jacinta Mallo, mãe do personagem principal quando adulto.

Banderas, em especial, premiado como Melhor Ator no Festival de Cannes deste ano, atuou em oito filmes de Almodóvar e foi descrito pelo diretor como tendo sido uma “fera de vinte anos que devorava tudo”. Desta vez, porém, ele é visto em Dor e Glória como uma “fera ferida”, deixando transparecer sua fragilidade física.



“Quando começamos a trabalhar juntos, Antonio [Banderas] era um animal apaixonado”, Almodóvar declarou, “que arrasava só com sua presença. Mas agora é outro, porque está na maturidade e porque passou três vezes pela sala de operações. Foram três cirurgias de coração bastante severas e, embora continue com a mesma vitalidade e senso de humor, e não mudou sua personalidade, eu percebia no seu rosto a experiência de quem sabe que poderia ter morrido. E disse a ele que era uma canalhice o que tinha acontecido com ele, mas que para mim, como diretor, era muito bom. O Antonio Banderas atual tem outra tessitura: seus gestos são muito sutis, pequenos…”

Dor e Glória resulta da experiência de vulnerabilidade física conjunta de Banderas e de Almodóvar – o diretor diz ter ficado só, em Madri, depois de passar dois anos sem ver as pessoas e responder a seus telefonemas: “o filme nasce desse isolamento e do sofrimento físico, sobretudo as enxaquecas que não me abandonaram e a dor nas costas. Porque uma vez que te abrem não voltas a ser o mesmo. Minhas costas estão cheias de ferros, parafusos e cimento cirúrgico, que não é como o dos pedreiros mas quase… E ao mesmo tempo, eu não queria que o filme fosse um gemido. […]”

Desse mal Dor e Glória não corre o menor risco de sofrer. Pelo contrário. O filme é antes alegre e comovente. O acerto de contas do cineasta Salvador Mallo com seu passado, em especial com Alberto Crespo (Asier Etxeandia) – ator principal de um de seus primeiros filmes, com quem estava rompido – , com Federico Delgado (Leonardo Sbaraglia) – o companheiro amado que perdeu de vista – e com sua mãe é tudo, menos um lamento. Sem mascarar desavenças, nem tensões passadas e atuais, o filme é feito de lembranças da infância delicadas e pungentes, além de relações afetuosas da vida toda.

Almodóvar considera que Dor e Glória guarda conexão próxima com o pouco conhecido filme cult espanhol Arrebato (1979), de Ivan Zulueta, não “pelas referências à heroína, mas porque nos dois filmes está muito presente a vampirização que o cinema produz, que te traga, te devora e te leva a um lugar onde tudo o mais desaparece. […] Em ambos há também a memória do tempo retido durante a infância, ao qual se volta sob efeito da droga”.

Não assisti a Arrebato. Até onde sei, o filme não foi lançado comercialmente no Brasil. Teve exibições, porém, em 1993, na Mostra do Cinema Espanhol realizada na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e na Cinemateca do Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, com curadoria de Bernardo Vorobow. Considerado “insólito” por alguns, é descrito como “uma espécie de autorretrato e imagem geracional da cultura underground de Madri”. O filme é cultuado na Espanha, e o próprio Almodóvar fez um tributo póstumo a Zulueta em 2009: “[Arrebato] é um dos poucos exemplos de cinema pop feito em nosso país no final dos anos 70 que não era mal acabado, que podia ser comparado a qualquer produto do psicodelismo inglês em termos de qualidade, embora superando a ironia deles, é claro. […] O cinema espanhol acaba de perder um dos seus realizadores mais originais, e junto com [Victor] Erice, o que conseguiu dar às suas imagens o maior significado estético. Jamais filmou uma única imagem banal. O elemento no qual ele se sentia mais confortável era a abstração. A imagem pura, carregada de sentidos mas livre do fardo da ficção, sempre envolvida  em uma rica variedade de trilhas sonoras. David Lynch, mas menos sombrio e mais pop. O psicodelismo era a sua escola e ele fez autênticas obras-primas nesse estilo.”

Retomando Dor e Glória, uma de suas sequências mais “luminosas”, que causa imenso bem-estar ao espectador, é a das lavadeiras: um pequeno grupo de mulheres, entre elas Jacinta Mallo (Penélope Cruz, mãe do personagem de Salvador quando criança no filme que ele faz dentro do filme, conforme explicitado no plano final) lavam lençóis na beira do rio e para que sequem os estendem sobre juncos. “Lembro do rio Ruecas”, diz Almodóvar, “e de um lugar que se chamava Fontanar onde havia tábuas para lavar e em cada fila cabiam umas dez mulheres. E aquilo era uma festa, e fofocavam e cantavam e acabavam descadeiradas.”

Na cena, uma das lavadeiras é a cantora espanhola Rosalía que, enquanto trabalha, canta com Cruz a copla andaluza A tu vera, de Lola Flores: “A tu vera/A tu vera, siempre a la verita tuya/Siempre a la verita tuya/Hasta que de pena me muera/Que no mirase tus ojos/Que no llamase a tu puerta/Que no pisase de noche/Las piedras de tu calleja” etc. (Ao teu lado/Ao teu lado, sempre ao teu lado/Sempre ao teu lado/Até que morra de pena/Que não olhasse teus olhos/Que não chamasse à tua porta/Que não pisasse de noite/As pedras de teu beco” etc.).

Entre tantos filmes já feitos sobre o processo criativo do diretor de cinema, ao falar de Dor e Glória não há como deixar de lembrar pelo menos de Oito e Meio (1963), de Federico Fellini, e A Noite Americana (1973), de François Truffaut, lançados quando Fellini tinha 43 anos e Truffaut era dois anos mais moço. Em retrospecto, chama atenção o fato de ambos terem se voltado para si mesmos quando estavam na meia-idade, enquanto Almodóvar só imaginou um personagem diretor de cinema quando se aproximava da velhice. O filme de Fellini é o mais fantasioso dos três, o de Almodóvar o mais realista, e o de Truffaut o que menos resistiu à passagem do tempo.

Almodóvar prefere não comparar Dor e Glória com Oito e Meio, que considera “uma obra-prima absoluta”. Mas do mesmo modo que Fellini criou um final feliz para Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), seu diretor de cinema angustiado, “no meu filme”, declarou Almodóvar, “senti necessidade de salvar Antonio [Salvador Mallo], porque se o salvava, eu também me salvava. E não há melhor caminho para a salvação do que um final feliz e esperançoso”.

Final feliz e esperança são ingredientes que, além de salvar o cineasta, gratificam o espectador e demarcam a distância entre ele e seu admirado amigo Zulueta.


Correção: Este texto foi alterado em 4 de junho de 2019, às 16h43. A versão anterior afirmava não ser do meu conhecimento que o filme Arrebato, de Ivan Zulueta, tivesse sido exibido alguma vez no Brasil. Devo a retificação a Carlos Adriano e a confirmação a Olga Futema. E.E.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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