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E se Bolsonaro ganhar?

A violência como plataforma de governo

Suellen Guariento
23set2018_01h46

Outro dia escutei alguém falar sobre garotos de bicicleta que roubam celulares na Zona Sul carioca. De onde eu vim isso se chama “levar na mão grande”. Quem falava justificava os crimes dizendo que as vítimas “dão mole”. Pelo jeito, “dar mole” significa estar parado tranquilamente no espaço público, sem nutrir a paranoia de que haverá um roubo a qualquer momento. Ou ficamos o tempo todo em alerta ou “damos mole”.

Em 1990, pouco depois da abertura política, onze pessoas, incluindo adolescentes, saíram da periferia do Rio de Janeiro rumo a um sítio em Magé. Nunca mais voltaram. Tudo indica que foram sequestradas e mortas por um grupo de homens que se identificavam como policiais. As mães das vítimas se organizaram numa intensa busca por justiça, e o caso ganhou repercussão internacional. As ativistas trouxeram à tona uma verdade inconveniente para a época: mesmo após a ditadura, pessoas continuavam “desaparecendo” no país. O jornalista Carlos Nobre escreveu dois livros sobre o episódio: Mães de Acari – Uma História de Luta contra a Impunidade e Mães de Acari – Uma História de Protagonismo Social. As narrativas de Nobre e as investigações mais recentes do sociólogo Fábio Araújo me ajudaram a mergulhar naquele período. Eu ainda era criança quando a tragédia aconteceu.

Passadas quase três décadas, seguimos presenciando a escalada da violência e o fortalecimento dos discursos que responsabilizam as vítimas. Se você foi assaltado, certamente “deu mole”. E se os onze de Acari desapareceram, é porque “estavam devendo”. Eis uma boa maneira de não assumir a violência como um problema estrutural do Brasil, algo entranhado na lógica de nossas relações e instituições.

A expressão “mimimi” é geralmente empregada para zombar   dos que demonstram suas dores em público e as atribuem ao fato de pertencerem a determinados grupos sociais. Quando alguém está sofrendo em razão de uma injustiça e decide não se contentar com o silêncio, sempre há quem o acuse de se desresponsabilizar pela situação que o oprime. Ou melhor, de transferir a responsabilidade pessoal, individual, para o âmbito público e, assim, se vitimizar.

Em períodos eleitorais, muitos apregoam que a esquerda usa o vitimismo como estratégica política. Tome-se, por exemplo, o assassinato de Marielle Franco. Diversas vozes dentro e fora do país repudiaram o ataque à vereadora do PSOL e à democracia. Mas até hoje tem gente que culpa a própria Marielle pelo ocorrido e rejeita o argumento de que o atentado se deveu também às origens da parlamentar negra e periférica. Como se deu com a vereadora, a pobreza e a cor dos onze de Acari foram determinantes para o desaparecimento deles – constatação que suas mães não se cansam de propagar, inspirando outras mulheres em situação parecida a reagir com a mesma coragem. Vivemos num país onde a chance de ser eliminado pela violência não diminui se a nossa capacidade de ficar alertas aumenta. Negar isso é negar a realidade.

O presidenciável Jair Bolsonaro demonstrou inúmeras vezes que considera legítima a violência como recurso de governo. Não à toa, a possibilidade de o capitão da reserva vencer as eleições assusta setores progressistas da sociedade. Trata-se, claro, de um temor bastante justificável. Gostaria de salientar, porém, que a violência – institucional ou não – já ameaça e suspende as liberdades de milhões de brasileiros. Dependendo de quem ganhar as eleições, o ambiente se tornará muito desfavorável para pessoas negras e periféricas que ousem expressar publicamente o seu sofrimento. Não creio que, a curto e médio prazos, pretos e pobres deixem de ser o alvo preferencial da violência. Os resultados das urnas poderão sufocar ainda mais as reações vindas dessas populações.

Caso Bolsonaro vire presidente, sua gestão deverá reforçar a lógica racista da violência. Num país que demorou tanto para abolir a escravidão e que mata seguidamente defensores dos direitos humanos, será cada vez mais difícil – e perigoso – questionar a violência estrutural se elegermos um candidato que faz dela uma plataforma de governo. O desaparecimento e a morte ficarão ainda mais presentes no cotidiano daqueles a quem não basta estar alerta para se manter vivo.

Suellen Guariento

Suellen Guariento

Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estuda o associativismo em áreas periféricas.

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