É Tudo Verdade – a mostra competitiva brasileira e o glorioso filme de encerramento do 25º Festival

Começo a escrever dois dias antes da cerimônia de premiação do 25º Festival É Tudo Verdade, sem saber qual será a decisão do júri da mostra competitiva brasileira, a ser anunciada no domingo (04/10). Já assisti, porém, ao mais que perfeito filme biográfico de encerramento – Wim Wenders, Desperado (2020). No documentário, Eric Friedler e Campino (Andreas Frege) resgatam a trajetória operosa de Wenders, um apaixonado pelo cinema, e exaltam a sua fidelidade ao cinema autoral, entendido como aventura pessoal de alto risco, sem encobrir fracassos do personagem-título. Wim Wenders, Desperado contém, ademais, lições de grande proveito – “Se você quer fazer cinema, veja os filmes de Wenders, idiota!”, conclui no prólogo o abusado Werner Herzog.

Entre os filmes brasileiros em competição, Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil, de Carol Benjamin, e Segredos do Putumayo, de Aurélio Michiles, destacam-se por não manifestarem a síndrome do envelhecimento precoce. Graças à sua bem-vinda ambição, nenhum dos dois sofre do mal que atinge os outros documentários em competição de modo e intensidade diferentes. Decisivo para ambos preservarem a vitalidade é tratarem de chagas que não cicatrizam, como no filme de abertura do Festival – A Cordilheira dos Sonhos, de Patrício Guzman. São feridas nunca curadas, antigas em Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil, ancestrais em Segredos do Putumayo, mas que nos dois casos têm repercussões atuais.