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E a vacina, quando vem?

Fernando Reinach explica por que demora um ano e meio para testar uma vacina (como a contra o novo coronavírus) e poder aplicá-la sem riscos

18dez2020_15h01

No 2º episódio do podcast Luz no fim da quarentena, José Roberto de Toledo e Fernando Reinach falam sobre os processos pelos quais as vacinas passam até que possam ser distribuídas em larga escala. Ouça o episódio completo aqui.   

José Roberto de Toledo: Neste episódio, nosso cientista residente, o biólogo Fernando Reinach, explica por que demora tanto para uma vacina poder ser usada em larga escala. Na conversa, tentamos estimar o quanto ainda demora até que todos nós possamos ser vacinados contra o novo coronavírus.

Fernando, explica para a gente por que demora um ano e meio para se fazer uma vacina e poder distribuí-la para a população inteira ser vacinada. Por que vai demorar?

Fernando Reinach: Esse processo é demorado porque uma vacina comercial tem que ter várias características. Você tem que saber, de todas as pessoas que foram vacinadas, qual a taxa de imunização que ela dá, ou seja, se eu vacino 100 pessoas, quantas pessoas ficam imunes ao vírus. É 99? É 100? É 80? Isso precisa ser medido. Você precisa saber quantas pessoas vão ter efeitos adversos da vacina. Há vacinas que não dão nada, algumas que dão febre, outras que dão vermelhidão no braço. Você precisa ter a certeza de que essas vacinas dão poucos sintomas desse tipo e que não existe um número grande de casos de pessoas que possam ter consequências mais graves dessa vacina. Então a vacina pode ser segura.

Você precisa fazer todos esses testes uma vez que você já teve uma vacina candidata. Então se você tem uma vacina candidata, tudo bem, se você é doidão, você se injeta e depois pede para um cara com coronavírus tossir na sua cara e vê se funciona.

José Roberto de Toledo: Literalmente é assim que funciona, você precisa se expor à contaminação depois.

Fernando Reinach: Você precisa se expor à contaminação, mas aí vai ser só um caso, funciona em você. Mas você pode ser aqueles 2% que são protegidos por essa vacina. Então você não pode fazer isso e você não pode vacinar as pessoas e aplicar o patógeno, no caso o vírus, na pessoa, para ver se funciona. Isso você pode fazer em ratos, mas não pode fazer em pessoas. Então você tem que vacinar uma população de risco, ver os anticorpos que ela desenvolve e demonstrar que essa população de risco, que está numa área da doença, vai ser protegida na prática. Não vai ter os casos. Isso tudo depois que eu tenho a vacina. Essa é uma espécie de fase 3 de desenvolvimento da vacina.

Na fase 1, preciso achar alguma coisa que eu possa injetar na pessoa e que provoque uma reação imunológica que a leve a ficar protegida do vírus. Isso pode ser uma parte do capsídeo do vírus, que é a capinha dele, pode ser uma proteína, pode ser várias coisas. Se eu falar “vou fazer da proteína do vírus”, eu produzo essa proteína em grande escala com alguma técnica de bioquímica, de biologia molecular e eu tenho uma quantidade grande disso. Aí eu testo em rato. Injeto em um monte de rato ou num modelo qualquer. Então você precisa de um modelo biológico no qual a vacina funcione ou no qual o coronavírus provoque a doença. Esses modelos estão sendo desenvolvidos, não tem. Aí eu preciso ver e, bom, fez a resposta imunológica. Nos animais eu faço o que eles chamam de challenge, injeto o vírus e vejo o que acontece. E aí está ok, funciona. Então eu testo a segurança, injeto em um monte de pessoas e vejo quantos efeitos colaterais elas tiveram, qual tipo de efeito colateral. E qual o número de pessoas que eu tenho que injetar. Se você quer detectar efeitos colaterais que peguem, por exemplo, 10% das pessoas, se você injetar em 100 pessoas você já sabe, umas 10 ou 8 vão ficar com o braço vermelho. Mas você quer ter certeza que menos de 1% das pessoas vai ter uma reação séria. Tem que testar em um número grande de pessoas. E depois tem que fazer o teste final numa população suscetível.

José Roberto de Toledo: A população suscetível significa que, no meio de uma epidemia, como a gente está agora, é até mais fácil, porque você já tem um monte de gente exposta ao risco. Então é vacinar essas pessoas e depois controlar para ver se elas se contaminaram mais ou menos do que um outro grupo que serviria de controle. É quase que um experimento natural. É mais ou menos isso?

Fernando Reinach: É exatamente isso. Quer dizer, qual foi o problema da vacina do ebola? É que eles fizeram a vacina e, quando a vacina estava quase pronta, acabou a epidemia. Aí ficou meio parado. Quando veio a outra epidemia que eles puderam testar. Porque, no caso do ebola, eles conseguem levar a zero o número de casos. Então você não tem onde testar a vacina. Teve essa polêmica na última epidemia do ebola para saber como se faz. “Vamos testar, tem poucos casos de ebola, vamos testar nas pessoas?” “Vamos.” E aí testaram. Parece que a vacina funciona, mas os testes ainda são em números muito pequenos de casos. Uma vez que tudo isso funciona, você começa a produzir a vacina. Teoricamente, você precisa de 7,7 bilhões de doses de vacina para vacinar o mundo todo. As fábricas não vão fazer isso. Então primeiro você vai vacinar todo o pessoal do hospital. Depois os idosos. E por aí vai. Quando eles falam de 18 meses, eu tenho a impressão de que é o momento onde eu falo “está ok, pode começar a fabricar.” Quando falam entre 12 e 18 meses, é sobre ter uma vacina e começar a fabricar. Desse tempo até o último cara do interior do Acre ser vacinado eu não sei quanto tempo leva.

José Roberto de Toledo: Sim, pode levar anos. Mas no nosso ponto de vista aqui nesse podcast, o que interessa é esse um ano e meio, porque é quando você tem uma saída, um outro tipo de saída, para a quarentena.

Fernando Reinach: Exatamente. Com os animais, que não há esse problema ético de deixar morrer, é o que acontece no mundo natural. Aparece um vírus novo, ele passa pela população e, no caso, se fosse um vírus como o coronavírus, mataria 2% da população e a população ficaria toda resistente. É o que a gente chama de imunidade de rebanho, em que  está todo mundo imune. No limite, se a gente não tivesse pego isso, se ninguém tivesse levado isso a sério, provavelmente era isso que ia acontecer. Haveria um pico durante seis meses no planeta, ia morrer 1%, 2% da população e o problema estaria resolvido. Para seres humanos, isso não é considerado aceitável, moralmente aceitável. Então tem que baixar esse número.



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