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A eleição da vingança

A democracia virou arma de destruição que uma parte do eleitorado aponta contra a outra

Marcos Nobre
03out2018_07h30

Em 2014, depois de uma vitória apertada, Dilma Rousseff resolveu fazer o contrário do que tinha prometido como candidata. Aécio Neves resolveu não aceitar o resultado das eleições, com ações na Justiça e a convocação de manifestações de rua. E a Lava Jato começou a passar a motoniveladora no sistema político.

Foi nesse momento que Bolsonaro entrou em campanha. Seu discurso dizia que o PT precisava ser eliminado, mas que o PSDB não merecia destino diferente. Os tucanos tinham perdido nada menos do que quatro eleições seguidas para o PT por uma razão simples: não eram antipetistas o suficiente para ganhar. Eram farinha do mesmo saco, estavam mancomunados para se manter no poder, em um joguinho de fingimento. Bolsonaro prometia o antipetismo de raiz, sem a gravata e o ar-condicionado do PSDB.

Naquele momento, o eleitorado antipetista já estava com a pulga atrás da orelha, mas ainda não tinha abandonado o estacionamento tucano. Isso só veio a acontecer depois da parlamentada de 2016, que derrubou Dilma Rousseff. O desastroso governo Temer e a gravação de Aécio Neves foram o sinal que faltava para o começo da debandada.

Só que a candidatura de Bolsonaro não desalojou o PSDB da posição que tinha, apenas. O que aconteceu não foi simples troca de posições, com Bolsonaro passando a ocupar o lugar que antes era dos tucanos. Foi o arranjo todo que mudou.

Muito se falou do ódio que veio à tona com a campanha de 2014. Mas o ódio é parte da política há um bom tempo, e negar a sua existência é ignorar a realidade. A questão é o que fazer com esse ódio. Até 2014, PSDB e PT tinham conseguido conter os ódios respectivos dentro dos limites institucionais. O PT não fez a reforma política que tinha prometido em 2002, mas também não tomou atitudes como possibilitar um terceiro mandato para Lula. Ao perder uma eleição, o PSDB dizia que o problema não estava no sistema político enquanto tal, mas em um sistema político que funcionava sob a liderança do PT.

Depois da estupidez pós-eleitoral de Aécio Neves, o ódio antipetista ficou solto na rua, pronto para ser canalizado não só fora das instituições, mas, sobretudo, contra elas. Já não era mais o funcionamento do sistema político que devia ser odiado, era o sistema enquanto tal. Quem quer que viesse de dentro desse sistema era já culpado por suspeita.

 

Bolsonaro canalizou esse ódio em vingança. Prometeu fazer terra arrasada do sistema político. Prometeu “fuzilar essa petralhada”, como disse em um ato de campanha no Acre poucos dias antes de ser esfaqueado em Juiz de Fora. Não foi por acaso que disse não aceitar outro resultado a não ser sua própria vitória. É o único resultado que pode prometer um vingador. Quem aceita uma derrota em uma eleição confessa fazer parte do sistema que prometeu demolir.

É evidente que Bolsonaro está vendendo ilusão. Caso vença a eleição, o sistema político continuará lá inteirinho no dia seguinte, com todos os seus deputados, governadores, senadores e ministros do Supremo Tribunal Federal. E aí ele terá duas possibilidades: dar um cavalo de pau no que prometeu e se acertar com esse sistema, ou dar o autogolpe prometido por seu candidato a vice, o general Mourão.

O eleitorado de Bolsonaro está ciente disso? Difícil saber, difícil medir. Uma parte sim, e acha que o capitão vai se acertar com o sistema, que tudo não passa de discurso de campanha – para derrotar o PT qualquer coisa está valendo. Outra parte aguarda com ansiedade o autogolpe. Mas é possível que o maior número de seus eleitores não se importe, simplesmente. Afinal, quando o prato oferecido é a vingança, o que vai se comer no dia seguinte importa pouco. Preocupar-se com o dia seguinte, na lógica do capitão-candidato, é a maneira que o sistema político tem de enganar todo mundo há décadas.

O sucesso da candidatura Bolsonaro está em dizer: já que não dá para mudar a democracia de dentro, que venha alguém que não tem compromisso com ela para fazer a mudança. E se não der certo, se o resultado for o fim da democracia? Se não der certo, se a democracia acabar é porque ela já não era mais um caminho viável para a vida em comum, paciência. A democracia virou uma arma de destruição que uma parte do eleitorado aponta contra a outra parte.

 

Estamos longe de 2014. Não existe mais o “nós contra eles”. Pelo menos não no sentido anterior. Mudou o “nós”. E mudou o “eles”. Sobretudo, mudou o “contra”: como militar e defensor das armas, Bolsonaro convenceu que tem as credenciais para ser o exterminador do PT e do sistema político, que, para seu eleitorado, nenhum outro partido representa tão bem como o PT.

Não foi suficiente tirar o PT do poder. Não bastou prender Lula. O ex-presidente continuava liderando as pesquisas mesmo assim. Só a vingança pode terminar o serviço, tal como disse o capitão repetidas vezes: “O erro da ditadura foi torturar e não matar.”

Porque o discurso de Lula foi certeiro para recuperar um eleitorado que tinha se afastado do PT depois do governo Dilma Rousseff e das revelações da Lava Jato. A ideia desse discurso é mais ou menos a seguinte: se o PT é igual a todos os outros, se é farinha do mesmo saco, por que apenas Lula está preso e por que apenas Dilma Rousseff foi apeada do poder? Se todo governo é igual, por que o de Temer é tão pior quando comparado aos governos do PT?

Em mais uma de suas impressionantes metamorfoses, Lula conseguiu transformar a candidatura petista em uma candidatura antissistema. Trouxe de volta para essa candidatura uma juventude que já tinha se afastado do partido e de seus governos. A prisão deu credibilidade à versão de um PT perseguido pelo sistema porque é um partido que ameaça o sistema.

Quem vai decidir a eleição é quem ainda não escolheu uma das duas candidaturas antissistema. Isso inclui parte do eleitorado antipetista e do eleitorado “nem nem”, aquela parcela que recusa a divisão da política entre PT e antiPT. Todo esse grupo só vai aderir à lógica da vingança se ela vier das duas candidaturas que chegarem ao segundo turno. E isso quer dizer muito claramente: apenas se a candidatura de Haddad vier a aceitar a lógica da vingança com a qual Bolsonaro quer conduzir a eleição.

Haddad tem de convencer a parte do antipetismo que hesita em aderir a Bolsonaro e o eleitorado “nem nem” de que não pretende destruir ninguém, que não é candidato para se vingar do que foi feito ao seu partido, a Dilma Rousseff e a Lula. Para isso, precisa tomar as rédeas de sua candidatura e instalar ordem unida dentro de seu próprio campo. Ninguém pode falar pela campanha a não ser que tenha sua autorização para isso.

Mas não só. A eleição não vai resolver a fratura exposta do país. Ao contrário, as cisões tendem apenas a se aprofundar. Para o eleitorado que não aderiu à lógica da vingança a questão central tem a ver com o futuro, com as consequências, com tudo aquilo que não conta na lógica da vingança. Talvez possa ser formulada assim: qual o caminho menos pior para tentar recompor aquele conjunto básico de regras que permite o convívio das diferenças sem violência e que costuma receber o nome de democracia?

Tem muita gente que não vota no PT de jeito nenhum, mas que também não quer jogar fora o bebê com a água do banho. Boa parcela do eleitorado antipetista e do eleitorado “nem nem” não quer fazer terra arrasada do sistema político, mesmo indignada com os horrores em série que a política oficial foi capaz de produzir. É isso, no fundo, o que estará em causa na votação em segundo turno.

Marcos Nobre

É professor de filosofia da Unicamp e autor de Imobilismo em Movimento, pela Companhia das Letras, e Como nasce o novo, pela Todavia

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