questões eleitorais

Eleição explode no YouTube após 1º turno

Volume de vídeos produzidos sobre Bolsonaro e Haddad em uma semana após a votação supera os três meses anteriores; petista é maior alvo

Marcella Ramos
20out2018_01h36
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Em menos de duas semanas de campanha de segundo turno, o volume de vídeos no YouTube sobre os candidatos à Presidência Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT, já supera os três meses anteriores à votação de 7 de outubro. Levantamento inédito da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas mostra que só na semana seguinte ao pleito, de 8 a 15 de outubro, foram 991 publicações sobre os candidatos. Já entre os dias 4 de julho e 7 de outubro, esse número foi de 939. Quem mais se beneficia é Bolsonaro, presente em 63% dos vídeos, com conteúdo majoritariamente positivo. Com Haddad ocorre o oposto: a maioria das postagens sobre o petista tem teor negativo.

Na primeira semana de campanha do segundo turno, foram 498 os vídeos publicados na plataforma com referências a Bolsonaro. Deles, segundo o DAPP-FGV, 48% são favoráveis ao presidenciável, 37% são neutros e 15% negativos. Os vídeos positivos elogiam a atuação do candidato em entrevistas, e os neutros trazem análises do cenário político. Já os vídeos desfavoráveis são de críticas ao comportamento e às pautas defendidas pelo candidato.

O número de vídeos sobre Haddad no mesmo período é quase o mesmo (488), mas o conteúdo é principalmente contrário a ele. Das publicações sobre o petista, 50% são negativas, 32% são neutros e 18% positivos. É um cenário quase oposto ao de Bolsonaro. Segundo o relatório da DAPP, os vídeos negativos, de maneira geral, tratam das propostas e da personalidade de Haddad e de sua vice, Manuela D’Ávila, do PCdoB. O conteúdo neutro costuma repercutir resultados de intenção de votos, e o positivo defende o petista contra supostas notícias falsas e faz manifestações em prol da “manutenção da democracia”, segundo o relatório da DAPP.

O vídeo intitulado “Record desmascara Haddad” foi o que obteve maior engajamento sobre o presidenciável na plataforma, somando mais de 1,7 milhão de visualizações e mais de 13 mil comentários. A publicação mostra o trecho de uma reportagem do Jornal da Record, que traz uma fala do secretário do Ministério da Educação a respeito do “kit gay”, acusando Haddad de ser desrespeitoso e debochado sobre o assunto. Entre os dez vídeos mais vistos sobre o candidato, nove apresentaram tom negativo, alguns deles com fontes duvidosas, segundo a DAPP.

Em relação a Bolsonaro, o vídeo que mais provocou visualizações foi do comediante John Oliver, em inglês, satirizando e criticando o candidato. Ainda assim, a postagem foi a segunda mais “descurtida” pelos usuários, atrás apenas do vídeo “Comunista Miriam Leitão no Bom Dia Brasil afirma que PT é democrático e Bolsonaro um risco”, com aproximadamente 185 mil descurtidas. Entre os dez vídeos mais vistos sobre o candidato, oito foram favoráveis. No ranking dos mais curtidos, oito dos dez principais também foram positivos, com destaque para o vídeo “Após Boulos ameaçar invadir sua casa, Bolsonaro manda recado direto aos grupos terroristas”, com 372 mil curtidas.

Nos últimos três meses, as buscas por Bolsonaro foram 13 vezes maiores do que Haddad no YouTube, segundo a ferramenta Google Trends. O pico desse período foi em 28 de agosto, um dia depois da entrevista do presidenciável do PSL no Jornal Nacional, da Rede Globo. O segundo dia com o maior número de buscas pelos nomes dos candidatos foi 6 de setembro, quando Bolsonaro sofreu um atentado em Juiz de Fora. Haddad foi menos buscado que Bolsonaro durante quase todo o período e só conseguiu superar o adversário em número de buscas em 15 de setembro, um dia depois de sua entrevista no JN. Logo em seguida, porém, voltou a despertar menos interesse do que Bolsonaro. Na primeira semana do segundo turno, o ex-capitão foi buscado cinco vezes mais que o adversário.

Marcella Ramos (siga @marcellamrrr no Twitter)

Repórter e coordenadora de checagem da piauí

Leia também

Últimas

O mantra do negacionismo namastê

Praticantes de um estilo de vida supostamente saudável recorrem à desinformação e recusam a vacina

A única semelhança

Cientista de dados negro, preso por engano no Rio depois de reconhecimento por foto, narra os dias no cárcere e a dificuldade para ser solto

Nos erros de reconhecimento facial, um “caso isolado” atrás do outro

Presos por engano, cientista de dados, mototaxista e motorista têm algo mais em comum: são negros

Foro de Teresina #169: O vírus mal-disfarçado do bolsonarismo

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Na crise climática, Congresso tira o corpo fora

Metade dos parlamentares se diz muito preocupada com o meio ambiente no Brasil, mas só 7% acham que seus colegas têm o mesmo interesse; maioria atribui a crise ao governo

O adeus de Merkel, a anti-Trump

Enquanto nos Estados Unidos e no Brasil debate público virou briga de rua, política alemã mostrou com sua chanceler a assepsia de um seminário de pós-graduação – o que também está longe do ideal

Mais textos