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Eleições – porque política se aprende no colégio

Documentário usa disputa por grêmio escolar para discutir condições de ensino, democracia e conjuntura  

Eduardo Escorel
03abr2019_11h58

Em toda eleição, quem perde fica decepcionado. Nada mais natural. Insólito é grande número de eleitores que votaram em quem ganhou estarem desapontados poucos meses depois do vencedor tomar posse.

Quem desde sempre considerou o atual presidente da República despreparado para a função não sente nenhum prazer em constatar que tinha razão. Mas lamenta ver o país desgovernado, inclusive sem política educacional e cultural. E se pergunta por quanto tempo, ainda, essa aventura irá perdurar.

O desfecho da eleição do ano passado resultou, em parte ao menos, do fato de milhões de eleitores não terem sabido avaliar em quem estavam votando. Não mediram a gravidade da sua escolha. Para rejeitar um candidato, deram seu voto de maneira irresponsável a um capitão reformado do Exército, de extrema direita, um deputado federal sem experiência em cargo executivo. Assim fazendo, votaram mal. Faltou a todos conhecimento mínimo de política e lucidez suficiente para não se  deixarem iludir.

Nesse contexto, Eleições, de Alice Riff, é especialmente oportuno – o documentário permite testemunhar a experiência de aprendizagem política, feita com adolescentes, de fevereiro a abril de 2018, na Escola Estadual Doutor Alarico Silveira, no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Isso, sem esquecer a relevância do assunto face ao alto índice de evasão escolar no ensino médio do país.

Mesmo assim, o filme sumiu do circuito apenas duas semanas depois de estrear em 14 de março. Com uma sessão por dia, em dois cinemas, um no Rio, outro em São Paulo, foi visto por 1 015 espectadores, e rendeu 7 480 reais (dados do portal Filme B). Ter atraído público tão reduzido demonstra, por si só, a concentração do mercado exibidor em atrações divertidas, assim como a inércia de eleitores carentes de ensino político.  

Eleições continua disponível para sessões públicas e gratuitas na plataforma videocamp.com, onde já teve 105 exibições. A maioria em escolas nas quais 2 390 estudantes assistiram ao documentário. Outros mil viram o filme nas exibições fechadas, feitas pela manhã para escolas públicas, seguidas de debate com alunos, professores e jovens que participaram da filmagem (dados fornecidos pela produtora Studio Riff).

Além disso, desde a semana passada, Eleições começou a ser exibido no Circuito Spcine, que tem vinte salas em bairros da periferia de São Paulo e quatro na Zona Central da cidade. É um trabalho de “formiguinha”, Riff admite, mas que procura uma alternativa à demanda escassa no circuito convencional de salas.

A produção de Eleições foi patrocinada na íntegra por uma empresa privada, depois do projeto ser escolhido no edital Videocamp de Filmes, iniciativa do Instituto Alana, em 2017, para filmes com o tema “diálogos”.

Lançando mão de três variantes de registro, Eleições acompanha quatro chapas candidatas à diretoria do grêmio da escola. A principal maneira de filmar é baseada na observação, feita a partir de um acordo tácito, pelo qual os jovens aparentam desconhecer a presença da câmera; outra estratégia, oposta à anterior e recorrente durante o filme, é a de duas supostas youtubers que atuam interagindo diretamente com o espectador; a terceira variação de linguagem, usada apenas uma vez, é a dos vídeos de propaganda política.

A alternância de estilos assegura tanto o andamento justo da montagem de Yuri Amaral, ora mais rápido, ora mais vagaroso, quanto a visão abrangente, destituída de sectarismo, da escola, de seus professores, alunos e diretoria, da carência de suas instalações e da própria campanha eleitoral.

No primeiro dia de aula, o professor de sociologia Anderson Righetto assinala que, em todas as aulas, tudo que ele fala sobre política é comumente associado “por preconceito” à corrupção, porque “nosso país tem um histórico muito grande, desde quando foi descoberto até hoje, sobre esse assunto”.

Além disso, Righetto enfatiza que 2018 é ano de eleições em âmbito nacional, pergunta “o que são as eleições e o que temos também para escolher [na escola] este ano através de uma votação”. “O grêmio”, responde uma aluna timidamente. “O grêmio”, confirma o professor e completa: “Alguém aqui acompanhou a atuação do grêmio ano passado, ou participou de uma chapa?”

Uma aluna comenta a experiência do ano anterior: “Eles tentaram fazer alguma coisa, mas não dependia só deles”; outra, diz que “o grêmio deveria pedir para melhorar um pouco a comida da escola por que quase ninguém se satisfaz com essa comida”; um aluno propõe que o bebedouro seja mudado de lugar para ficar mais perto das salas de aula. Propostas variadas, umas pertinentes, outras nem tanto, que coexistem com certo desencanto e se repetem ao longo do filme.

Após as intervenções iniciais, Righetto pergunta: “Alguém cogita alguma possibilidade do que poderia mudar no Brasil com um novo presidente? E aí? Ninguém?” As perguntas ficam no ar, sem resposta. O prólogo termina e surge o título em letras brancas sobre fundo preto.

IMAGEM DE DIVULGAÇÃO

 

Nesses 3’40” iniciais, o tema de Eleições fica definido – a eleição para a diretoria do grêmio é situada no contexto da eleição presidencial, marcada para oito meses depois. Atuando como uma espécie de mestre de cerimônias, Righetto não poderia ser mais pedagógico ao se dirigir aos alunos: “Vocês têm que pensar, claro, na realidade da escola que é onde vocês vão atuar, mas é um primeiro passo para vocês terem um contato político. Então, não é pensar só na escola, mas ver aonde vocês podem atuar: na sociedade, na cidade, no país, no mundo.”

Depois da primeira intervenção descontraída da dupla de youtubers Laura Felix da Luz e Livia Santos Martins, na qual elas se apresentam e dão o tom bem-humorado de suas participações, elas entrevistam duas integrantes da chapa Rosa que está fazendo um abaixo-assinado pela volta do som no intervalos das aulas, proibido desde o ano anterior.

A reconquista desse direito teria sido decisiva no resultado da eleição e proporciona outros momentos de descontração total. Os alunos cantam e dançam no pátio, como se estivessem em um musical.

O primeiro debate entre as quatro chapas (ID, PAS, Mais Diversidade e Rosa) tem início com uma foto de Marielle Franco projetada na tela armada no centro do palco. Ela fora assassinada na semana anterior. Ao abrir a discussão, Righetto explica: “A importância da Marielle e a associação com o grêmio é que ela foi uma mulher que estava lutando por seus direitos. Então, a questão de vocês gremistas é essa também. É lutar por uma escola melhor. Mas não é para representar um interesse pessoal, é um interesse coletivo.”

Washington Penha é o primeiro aluno a falar: “O que levou a gente a querer criar a nossa chapa é a indignação com o estado da nossa escola. Esta é a intenção da gente ter levantado a ID.”

Clóvis de Moura, representante da chapa PAS, admite que o objetivo inicial deles foi “sair da sala” de aula. Depois, “a gente foi vendo que a escola precisava de mudanças, realmente, e a gente começou a levar a sério. Aquilo parou de ser uma brincadeira.”

Felipe Quiin apresenta a mensagem da Mais Diversidade como sendo “mostrar para vocês que a minoria pode ser a mudança de tudo. A gente envolve um conceito maior de várias pessoas, seja gay, lésbica, hétero, pobre, rico, gordo, negro, branco. É isso que a gente quer transmitir para vocês”.

Amanda Gomes, da Rosa, propõe “criar um diálogo entre o corpo docente e a escola. É por isso que a gente vai lutar e fazer o máximo pra que ocorram mudanças o mais rápido possível, porque a gente acredita na escola e no potencial que ela tem e que vocês têm”.

Ao menos da maneira como são apresentadas no filme, as propostas das chapas têm um denominador comum – mudanças. Quais, não fica claro. Apenas a Mais Diversidade se diferencia ao assinalar a força das minorias como uma de suas bandeiras.

Mesmo sem serem explicitados pelos alunos, porém, Eleições deixa claro que há diversos problemas a enfrentar: o mau estado do prédio, espaços ociosos, o abismo entre o vocabulário dos alunos usado em uma reivindicação e os termos empolados da diretora ao responder, a violência da Ronda Policial, aulas ditadas e anotadas com tédio, baixo aproveitamento, desconhecimento das atribuições do grêmio etc.

Cerca de seiscentos alunos votaram na eleição e a chapa vitoriosa ganhou por uma diferença de 100 votos. Quando o resultado é anunciado, a decepção com a derrota está estampada no rosto de um candidato. Seria preciso conferir se, passada a euforia inicial, os eleitores de quem ganhou ficaram ou não desapontados em seguida.

Participar da campanha foi um aprendizado político que se renova agora, cada vez que Eleições é exibido em outras escolas. A partir de 2020, quando muitos desses estudantes, com mais de 16 anos, terão se tornado eleitores fora do âmbito escolar, restará verificar se elegerão políticos mais qualificados do que a maioria dos atuais.

Pesquisa recente indica que, mantido o ritmo atual, o Brasil “pode levar até duzentos anos – equivalente a quinze gerações – para atingir a universalização do atendimento escolar a jovens de 15 a 17 anos” (“Políticas públicas para redução do abandono e evasão escolar de jovens”, pesquisa conduzida por Ricardo Paes de Barros). Através da integração e cumplicidade criativa entre a equipe e os alunos, Eleições contribui para fortalecer os vínculos entre os estudantes e a escola, e minorar a tendência a abandonarem os estudos.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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